terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O ANO EM QUE O BRASIL PAROU

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O ano de 1968 foi um ano em que aconteceram tantas coisas em um ritmo tão rápido e constante que não será fácil reproduzi-lo aqui nessa mal traçadas linhas que faço questão em retornar a história e descrever a coragem de homens, mulheres, intelectuais, operários, estudantes e pessoas comuns que se lançaram na tempestade, deixando para trás família e empregos.

Sem duvida nenhuma 68 foi um ano que a própria noção de tempo se ampliou. Era possível ver nós olhos das pessoas que elas queriam que o País passasse de fato por uma mudança estrutural e conjuntural. Que o tempo passa todos nós sabemos, mas de modo geral sabemos através das rugas, dos cabelos brancos, dos aniversários, da morte dos nossos entes queridos. Em 68 o ano deu um salto como um relógio que despertasse atualizando os sonhos de muitas gerações.

O movimento Estudantil deixará de lado as causas internas da Universidade e passaram a lutar diretamente pela redemocratização do País. Muito próximo dos estudantes estavam os intelectuais, jornalistas, músicos todos vivendo aquele clima de tensão que já vinha se prolongando desde de 1964, mais em 68 o nível de repressão chegou ao ápice.

O período 1960- 1964 marcou um dos pontos mais altos das lutas dos trabalhadores brasileiros até então. No dia 13 de março, no Rio de Janeiro, o Presidente João Goular participou de uma grande manifestação em defesa das reformas de base, esse episodio ficou conhecido como Comício da Central, porém uma conspiração civil-militar estava em curso, e o governo de Goular estava com dias contados. E em 1º de abril de 1964, Goular foi deposto e o País mergulhou numa ditadura que durou 20 anos.

No dia 10 de dezembro de 1966 Carlos Mariguella Pede demissão da executiva do Partido Comunista, alegando que na vida de um combatente é preferível renunciar a um convívio formal a ter de ficar em choque com a própria consciência. E em agosto de 1967 Mariguella e convidado pelo regime Cubano a participar das Conferencias da Organização Latina Americana de Solidariedade, foi então que Mariguella decide sua opção pela Guerrilha. “Ao sr ver a guerrilha era o caminho fundamental – mas não exclusiva da revolução no continente”, afirmará Carlos Mariguella.

No dia 25 de julho de 1968 acontece a passeata dos cem mil e Mariguella declara que a “a revolução não é coisa abstrata”. A revista Veja do dia 20 de novembro de 1968 estampa de capa a foto de Carlos Mariguella com o dizer “Procura-se”, chefe comunista, critico de futebol em Copacabana, fã de cantores de feira, assaltante de bancos, guerrilheiro, grande apreciador de batidas de limão.

O sentimento de frustração na produção intelectual era muito grande. A mesma frustração se conjugava com o movimento Estudantil: estudantes e os artistas passaram a desenvolver novas técnicas, adestrando seu talento, mas, se perguntavam pra que? Não era mais para satisfação das grandes aspirações populares, como pretendia a maioria dos nossos intelectuais que eram democratas e progressistas. A arquitetura se reproduzia aos espaços nas residências da burguesia, o pintor ficou enquadrado na galeria de luxo. Os horizontes e ideais foram brutalmente reduzidos.

O Movimento operário caminhava-se rumo à organização. Está organização se dava com características novas. Porque grande parte dos lideres tinham saído de cena, condenados ao exílio, a prisão, morte ou ao ostracismo. Os Sindicatos passavam por intervenção do governo. Agora as greves eram por atrasos de pagamentos dos salários, aspectos mais gritantes da injustiça patronal.

A Esquerda passava pelo que chamamos de luta interna. O bloco de organização que existirá em 64, PCB à frente, fazia sua autocrítica e como resultado dela surgiram inúmeras novas organizações, cada uma com sua tática e sua estratégia e todos dispostos a não perder, mas, tempo. Esse processo de autocrítica da esquerda encerrou-se em 67, liberando as forças orgânicas para atuarem diretamente na sociedade e não mais se dedicarem apenas ao debate político teórico.

Em 1966, já se articulava várias organizações clandestinas de combate a ditadura militar formados por dissidentes e ex-militantes do PCB. Entre elas, Ação Libertadora Nacional – ALN, Movimento Revolucionário 8 de Outubro – MR-8, o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário – PCBR e a Vanguarda Popular Revolucionaria – VPR.

E em todo Brasil começou a estourar os movimentos de greves dos trabalhadores em Osasco, São Paulo e Contagem, Minas Gerais, ao lado das grandes passeatas estudantis.


Todos esses elementos expostos à cima já estavam em curso quando explodiu o movimento de 68. Mas seria leviano pensar que o movimento foi profundamente detalhado e organizado.

Portanto quando explodiu os movimentos em 68 havia muita coisa em gestação: o projeto de organização do aparato burocrático e a insatisfação estudantil e popular lentamente destilados ao longo daqueles anos de ditadura militar.

As idéias econômicas que prevalecia na esquerda a época o capitalismo brasileiro numa crise sem saída. Segundo raciocínio das lideranças, a compressão do poder aquisitivo das massas assalariadas iria limitar o mercado e causar uma crise de superprodução. Na realidade o capitalismo crescia lado a lado com a pobreza. As falências eram vista com os olhos do falido, o pequeno capital, e não com os olhos festivos dos grandes capitais que se beneficiavam delas. A visão da esquerda era encarada nas ilusões de um setor do capital, não somente nas suas ilusões, mas também no seu desespero diante do engolfamento pelas multinacionais.

A esquerda pensava que a ditadura e o sistema capitalista cairiam juntos no movimento harmonioso. A luta especificamente estava esgotada, o parlamento era peça de museu.

O Ministro da Justiça, Gama e Silva, anuncia o Ato Institucional número 5 em 13 de dezembro de 1968, e o jornal do Brasil por meio de metáfora, denuncia a censura, “Tempo negro. Temperatura sufocante. Ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos”.

O AI – 5 representou um endurecimento ainda maior da ditadura militar. Sob sua violência, instaurou-se no país o terror, que teve o auge da violência no período 1969 – 1976, com tortura, eliminação física e desaparecimento de militantes de organização de luta armada, do PCB e do PCdoB. A repressão sistemática aos movimentos democráticos foi generalizada, com censura à imprensa e a produção cultural.

O movimento operário passará a se organiza basicamente em torno de seus interesses matérias imediatos, uma vez que a pressão econômica era muito intensa e os níveis de organização e consciência acumulados muito débeis.

O jeito foi o movimento esperar na beira do rio a chegada das idéias e adapta-las mecanicamente e realidade nacional. Creio que isso tenha sido um pecado cotidiano da esquerda no período de 64-68. A esquerda tinha diante de suas aspirações a revolução Cubana, porém superar as diferenças criadas entre os movimentos até então, tornará um grande problema.

Esta forma de ver o mundo expressa, a debilidade que passava o movimento naquele momento, existia uma crise no interior do pensamento da esquerda, porém os movimentos não tinham mais tempo para recuar ou avançavam ou eram dizimados.

Em 04 de Setembro de 1969, numa ação conjunta do MR – 8 e da ALN, foi seqüestrado o embaixador Norte – Americano Charles Elbrick. Para liberta-lo, o movimento exigiram a soltura de presos políticos. Em troca a ditadura liberta quinze presos políticos entre eles estavam: Jose Dirceu, Vladimir Palmeiras, Ricardo Villas-Boas, Maria Augusta Carneiro, Gregório Bezerra e Mario Roberto Zanconato.

Gregório Bezerra foi um militante que até domesticou barata para poder levar a mensagem dentro da cadeia. Era o que tinha mais anos de cadeia de todos da lista. Gabeira afirmou em entrevista que concedeu no exílio para o Pasquim de outubro de 1978, “Gregório tem mais ano de cadeia que muitos garotos tem de vida”. Disse ainda, “O Vladimir Palmeira presidente da UNE representava um símbolo do movimento estudantil e de luta de 68”.

Num certo sentido o fracasso no pós-68 expressa os erros de outros processos, quando copiados mecanicamente. Creio que a critica ficaria incompleta se não abordasse a crise profunda no pensamento de esquerda. Alguns historiadores tentam nos fazer crer que a crise se deve puramente ao Estalinismo. Creio que a crise que fez com que os movimentos constituídos em 68 não chegassem ao poder foi mais ampla do que os posicionamentos Estalinistas usados por alguns agrupamentos, porém este debate não cabe aqui neste espaço para ser discutido.

A analise equivocada da situação econômica, a incompreensão da situação política, a copia mecânica de exemplos externos – tudo isso contribuiu para os erros. É bem verdade que o Brasil é um País elitista e talvez a esquerda não tenha percebido como nesse aspecto ela era gêmea dos burocráticos que mais tarde ganhavam a tevê com seu vocabulário confuso: eles usavam a técnica e a ciência para explorar os trabalhadores e a esquerda esquecerá que o mundo não parou com os comunistas de Moscou.

E as lideranças passaram a ser caçadas, Florestan Fernandes disse que Mariguella foi perseguido como a caça mais cobiçada e condenado à morte cívica, à eliminação da memória coletiva.

No dia 04 de novembro de 1969 a ditadura militar silenciava para sempre a maior liderança da esquerda naquele momento, Carlos Mariguella cairá na emboscada do delegado Sérgio Fleury. O Primeiro tiro atravessou as nádegas; o segundo, acertou a virilha; o terceiro, feriu de raspão o seu rosto. Caído no meio da rua, imobilizado pelos ferimentos, foi cercado e executado a queima-roupa com um quarto tiro. Em reflexo defensivo, elevou a mão e teve um dos dedos estraçalhados pela bala que lhe perfurou o pulmão, provocando-lhe hemorragia interna e morte instantânea.

Apesar dos erros cometidos pelo movimento que explodiu em 68, é legitimo hoje vê-lo como um dos primeiros gritos articulados pela democracia. Grito esse que ecoaria nas eleições de 74, nas manifestações estudantis de 77, na missa por Vladimir Herzog, um grande momento que a esquerda perdeu para fazer a revolução e tomar o poder dos militares, nas múltiplas vozes da imprensa alternativa, oposição sindical, na luta pela liberdade de expressão.


Por: Alex Mendes

Adaptado a partir do Pasquim publicado no Rio de Janeiro em 1979 pela editora CODECRI.

1 comentários:

O CALENDÁRIO MAIA disse...

ÉH!PARECE QUE TUDO ACONTECEU ONTEM ...

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