sábado, 26 de março de 2011

O detetive da palavra

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Por Ribamar Bessa Freire

A universitária Valéria Silva, do Curso de Museologia, não esperou a aula terminar. Ali mesmo, na sala, diante de seus colegas, tirou um revólver da mochila e disparou um tiro certeiro nos cornos do professor de antropologia que caiu estrebuchando numa poça de sangue, sem largar o giz que segurava entre os dedos. “Ele falava demais” – ela disse trêmula e com os olhos injetados ao reitor, a quem entregou a arma.

BALA CALA DOCENTE, berraram os jornais, registrando depoimentos dos colegas de Valéria, que nunca escondeu seu ímpeto assassino, nem mesmo para seus vizinhos num edifício residencial em Botafogo: – “Um dia eu ainda mato esse ladrão de discurso. Ele sufoca a gente, fala, fala, fala e não ouve ninguém. Não deixa aluno abrir a boca. Rouba a nossa fala, nos impõe um silêncio humilhante”. Colegas e vizinhos julgavam que era apenas uma forma exagerada de expressar seu descontentamento.

Personagens, circunstâncias, ameaças, impulsos assassinos, até o domicílio em Botafogo, tudo isso é verdade, exceto o desenlace fatal, que só não aconteceu (ainda?) porque Valéria não mata nem mosquito da dengue. Imaginamos o crime para ilustrar o fato de que a mídia está se lixando para o que acontece dentro da universidade. Uma aula jamais será notícia, por mais excepcional que seja, a não ser que uma aluna fique nua dentro da sala ou cometa delito grave, mas aí a notícia não é a aula.

Análise do discurso

Acabo de assistir a um evento, nessa quinta-feira, numa sala de aula da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ), que merecia cobertura da mídia pelo seu caráter excepcional. Nada de crime. Uma professora da Universidade Federal de Roraima, Maria do Socorro Pereira Leal, defendeu sua tese de doutorado no Curso de Pós Graduação em Letras. Ela analisou o discurso dos fazendeiros, dos índios e dos políticos no processo de demarcação da terra indígena Raposa Serra do Sol, destacando a cobertura on line de três jornais: Folha de Boa Vista, Folha de São Paulo e O Globo.

A maioria dos leitores de jornal está mais ou menos familiarizada com a Geografia, a Sociologia, a História, a Filosofia, a Economia, a Antropologia, a Química e outras ciências, mas são ainda poucos os que conhecem uma disciplina chamada Análise do Discurso (AD), desenvolvida inicialmente na França e ensinada hoje em várias universidades brasileiras. Essa ciência faz com a fala o que o microscópio faz com a célula: vê aquilo que é invisível a olho nu.

A AD criou algumas técnicas apropriadas para dissecar o discurso das pessoas, entendendo por discurso qualquer produção da linguagem, desde o noticiário da televisão, o artigo de jornal, uma carta, um bate-papo, uma fofoca, enfim tudo aquilo que as pessoas falam ou escrevem. O analista do discurso é uma espécie de detetive da palavra, que descobre o sentido oculto de um texto e avalia como o discurso faz sentido. Parte do princípio de que a língua está encharcada de história, de ideologia e mantém relação com o inconsciente.

A tese da professora Socorro Leal, orientada pela doutora Bethania Mariani, discute o que é ser brasileiro, o que é ser índio, a legislação sobre a posse e a propriedade da terra, a noção de desenvolvimento e o sentido de família e de nação. Para isso, ela analisou as manchetes dos três jornais on line e os documentos produzidos por arrozeiros e políticos de Roraima, assim como as cartas aprovadas nas assembleias indígenas, com as ferramentas criadas por Michel Pêcheux, na França e Eni Orlandi, no Brasil.

“Em nossa sociedade, os índios ou quaisquer outros que falem uma língua que não a portuguesa não existem no Brasil enquanto seres falantes” – escreve Socorro, apoiada em Eduardo Guimarães que estudou o processo de constituição da língua nacional no Brasil. É que depois da Constituição de 1988, o Estado até que reconhece a existência das línguas indígenas, mas lá, dentro das aldeias. O Estado só escuta se eles falarem português, até mesmo para entrar com um processo na justiça, reivindicando seus direitos.

Cidadania surda

Os índios ficam assim que nem Valéria e seus colegas diante de seu professor: mudos, com uma cidadania surda, incompleta e até mesmo impossibilitada. “Os índios estão – fisicamente – no Estado, mas fora das fronteiras discursivas do Estado, apagados como cidadãos”.

Socorro discute o funcionamento de uma palavra simples, “dessas tão habituais que não parecem exigir esclarecimento algum”, dessas palavras de que se espera transparência, que os leitores apreendam seu sentido de imediato: ‘família’, eis a palavra, “o núcleo natural e fundamental da sociedade”.

Como é que a palavra família aparece no noticiário e nas manchetes dos jornais na cobertura da disputa pela terra entre índios e fazendeiros? Na tese, a agora doutora analisa as manchetes dos jornais depois da homologação da Raposa Serra do Sol.

O discurso insiste que “cerca de 300 famílias terão que deixar a terra”, “senador afirma que instituições não podem expulsar famílias da reserva”, ou que “as famílias de brasileiros não têm onde morar”.

Não há uma única manchete que designe os índios como ‘família’ – escreve Socorro, esclarecendo que isso não pode ser explicado como coincidência do dizer. Os índios – para a mídia – não têm família. “São mobilizados apenas os sentidos para ‘família’ de modo que só possa envolver os não-índios que se vinculam à propriedade da terra”. Ela, então, se pergunta, como, no processo histórico, os índios foram “apagados” da família e o que esse apagamento quer dizer.

A tese estuda ainda como o conceito de ‘desenvolvimento’ vai sendo discursivamente construído e os sentidos que o termo tem nos documentos dos fazendeiros, dos políticos e dos próprios índios. Ela trabalha com as cartas aprovadas em assembleia indígenas e endereçadas às autoridades brasileiras. Cita o discurso de Davi Yanomami, numa crítica contundente aos projetos econômicos do Estado e numa defesa ao etnodesenvolvimento:

“A terra floresta só pode morrer se for destruída pelos brancos. Então, os riachos sumirão, a terra ficará friável, as árvores secarão e as pedras das montanhas racharão com o calor. Os espíritos xapiripé que moram nas serras e ficam brincando na floresta acabarão fugindo. Seus pais, os xamãs, não poderão mais deter as fumaças-epidemias e os seres maléficos que nos adoecem. Assim todos morrerão”.

Sei que nessa semana ocorreram alguns fatos importantes, que foram comentados por vários articulistas de diferentes jornais. No entanto, a coluna escolheu esse justamente porque ele ocorreu dentro dos muros da Universidade e foi relegado pela mídia. Essa é uma das funções da coluna dominical.

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