segunda-feira, 4 de abril de 2011

Rupturas com o PSOL: pouco calor e nenhuma luz

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Por Edilson Silva

Se há uma crítica a ser feita ao PSOL é à sua incapacidade de dar respostas unitárias às críticas infundadas que lhe são feitas publicamente por segmentos extremados da esquerda e por vezes do próprio PSOL. A dinâmica interna das correntes acaba colocando o conjunto partidário em segundo plano nestas horas. Esse ponto crítico, porém, não pode ser visto como um vício incorrigível, mas como uma insuficiência que ainda não pôde ser resolvida plenamente e sobre a qual o partido precisa debruçar-se, tranquilamente, para superar. É somente por esta razão que escrevo este texto destinado aos filiados do PSOL, sobretudo aos de Pernambuco, como já o fiz em outras ocasiões semelhantes.

Nos últimos dias têm sido anunciadas algumas rupturas com nosso partido, no Maranhão e no Rio Grande do Sul, com alguns militantes do Rio de Janeiro. As justificativas são de caráter material e formal, de conteúdo e de método. Para os desavisados, os argumentos destes, sempre recheados de auto-proclamação, idealismos e auto-vitimização, podem soar como razoáveis. Contudo, um exame minimamente apurado do conjunto das questões levantadas desmonta com relativa facilidade os arroubos pseudo-revolucionários destes. Poderemos ver que, para serem honestos, os que rompem deveriam admitir que suas expectativas em relação ao PSOL sempre foram idealizadas por fora das várias opções feitas pelo PSOL ao longo de sua trajetória desde sempre e que, mais contraditório, os últimos fóruns nacionais do PSOL fez afagos generosos em suas proposições.

Alguns momentos da vida do PSOL foram e são emblemáticos em relação ao horizonte político estabelecido por este partido. Quando da fundação, não aceitamos a concepção partidária do PSTU e não fizemos um novo partido com eles. Foi uma clara opção política. Queríamos algo mais amplo, democrático, plural, capaz de absorver as incontornáveis flexibilidades necessárias para garantir no PSOL uma espécie de abrigo ou frente anti-capitalista.

Pouco tempo depois, dissemos não à candidatura de Zé Maria, do PSTU, como vice-presidente na chapa de Heloisa Helena. Pelo contrário, apresentamos o nome de Cesar Benjamin – um quadro político histórico da esquerda, com importante diálogo com setores fundamentais da resistência popular anti-capitalista no Brasil -, aprovado em conferência eleitoral, acenando claramente para onde queríamos caminhar. Infelizmente, por falta de cuidado e capitulação das maiorias do PSOL às suas minorias, não demos o tratamento adequado a este quadro, o que o afastou do nosso partido.

Em seguida, no Congresso e Conferência do PSOL de 2007 e 2008, deliberamos respectivamente por uma construção anti-capitalista, anti-imperialista, anti-latifúndio, anti-corrupção. Neste espectro estava nossa solidariedade aos processos políticos latino-americanos, com Chaves na Venezuela, sobretudo. Aprovamos também alianças eleitorais táticas com diversos partidos que não faziam parte da base de sustentação do governo e que não eram organicamente da burguesia. Aprovamos, como exceção, alianças com o PSB e o PV em capitais. Após as eleições, o PSOL expulsou 7 dos seus 25 vereadores eleitos, por falta de respeito às resoluções partidárias.

Em 2009 e 2010, também em congresso e conferência, respectivamente, o PSOL viu-se diante de uma importante polêmica interna, que envolvia, diante da não candidatura de Heloisa Helena à presidência, a possibilidade de aliança nacional com o PV e as polêmicas em torno de qual candidatura para o PSOL. O partido, acertadamente, fez a opção de não aliança com o PV e Marina Silva. Foi além, para o “delírio” dos setores supostamente “mais revolucionários” do PSOL, homologando a candidatura de Plínio de Arruda Sampaio à presidência e escancarando todas as portas para uma frente de esquerda e classista, aquela tão propagandeada pelo PSTU. A frente não saiu, pois nem o PSTU e nem o PCB tiveram espírito unitário em torno de uma frente de esquerda. Preferiram armar-se de lupas potentes para destacar diferenças com o PSOL e pseudo-atestar a impossibilidade de apoiar numa frente a candidatura do Plínio, optando pelo “revolucionário” caminho de fazer sua propaganda socialista auto-proclamatória em poucos segundos de TV. O resultado eleitoral falou por si.

Para além deste quadro, que mostra a moldura de um partido vivo, dinâmico, em construção, acertando mais do que errando no fundamental, portanto absolutamente acolhedor para uma militância de esquerda e socialista conseqüente, os argumentos do varejo destes que rompem são igualmente frágeis.

Comecemos pelo agrupamento do Rio Grande do Sul com quadros do Rio de Janeiro. Muitas das críticas feitas são absolutamente inverídicas. Muitas delas, quando conseguem atingir o estatuto de meias verdades, não conseguem esconder a incoerência. Pontualmente setores do PSOL receberam financiamento privado em campanhas eleitorais, sim, mas a Executiva Nacional posicionou-se advertindo o caso: isto não é regra, pelo contrário. Pontualmente tivemos casos como o do Amapá nas eleições 2010, mas igualmente o Diretório votou advertência e monitoramento do mandato. Sobre o apoio à Marina e ao PV, os que saem, como já disse, tiveram suas teses homologadas no PSOL em relação a estes temas. Venceram!

Os do Rio Grande do Sul incorrem ainda em pelo menos dois outros erros grosseiros. Exatamente no Rio Grande do Sul, um dos integrantes do PSOL mais criticados como exemplo da “degeneração” do partido está, pelos informes, partindo do PSOL. Geraldinho, ex-vereador de Viamão, ex-deputado federal, não viu clima no PSOL para desenvolver a política que pretendia. Ora, que partido oportunista e eleitoreiro é este que espanta assim um suposto carreirista?

Ainda com os gaúchos, estes reclamam que na condição de ativistas sindicais e populares não podem militar num partido que não tem uma linha de construção de uma organização sindical e popular. Ora, os companheiros que fazem esta crítica ao PSOL são exatamente aqueles que desde o primeiro momento montaram trincheira com o PSTU na CONLUTAS, fazendo papel de coluna auxiliar desta política no interior do partido, sendo mais um elemento de dissenso junto a outras iniciativas do partido neste sentido, como a Intersindical e o MTL. Este argumento é ainda menos sério quando sabemos que desde 2009 a militância e direção do PSOL vinham caminhando na linha de construção de uma central sindical e popular unitária, junto com a CONLUTAS, mas que no Conclat de 2010, em Santos (congresso de fundação de uma nova central), foi revelado que o PSTU não queria construir uma nova central, mas anexar outras forças à sua CONLUTAS.

Já os dissidentes do Maranhão insistem na tese da falta de democracia no partido, em uma suposta intervenção da nacional na instância estadual. Neste caso, como acompanhei de perto como membro da Executiva Nacional e fui porta-voz do pedido de mediação da nacional junto à instância estadual, relato que os companheiros tiveram da direção nacional doses cavalares de paciência. Tivesse a Executiva Nacional os mesmos critérios da maioria da direção do PSOL no Maranhão, já teríamos, estatutariamente, elementos suficientes para dissolver aquele diretório. Recentemente, aquela maioria, desrespeitando votação das próprias instâncias locais, negou uma das vagas de candidatura ao senado à minoria do PSOL maranhense. Após intervenção da nacional, exigindo o respeito à proporcionalidade, aquela direção acatou, mas decidiu que a candidatura mediada pela nacional não iria aos programas de TV, tendo que a minoria servir-se de expediente externo, judicial, para conseguir ver seu direito de minoria ser respeitado. Então, não nos parece que os rupturistas do Maranhão estejam aptos a falar em democracia.

No caso específico dos novos filiados do Maranhão, a Executiva Nacional cumpriu bem seu papel. O PSOL queria preservar e preservou os futuros filiados de qualquer fritura pública, o que poderia inviabilizar politicamente as desejáveis e importantíssimas novas adesões. A maioria da direção do Maranhão, pelos estatutos do PSOL, poderia ingressar com recurso junto ao Diretório Nacional, questionando a posição da Executiva Nacional e garantindo assim um debate mais amplo acerca das filiações que não desejavam. Contudo, optaram pelo caminho apressado e curto da ruptura, talvez porque já soubessem de antemão que seus métodos e suas concepções não teriam amparo numa maioria qualificada no Diretório Nacional.

Por fim, o PSOL é um partido que cresce e a cada dia recebe novos e importantes pedidos de adesões. Os militantes históricos da esquerda maranhense são apenas parte deste processo. As contradições que o partido vive são a prova cabal de que o PSOL está vivo e que pulsa em seu interior a dinâmica da luta de classes.

Presidente do PSOL-PE e membro da Executiva Nacional do PSOL

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