quarta-feira, 29 de junho de 2011

Mártires ambientais: acorda Brasil e olha a que ponto chegamos

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Foto: Brasil Assassinato
de Dorothy Stang - por Jailson
Alguns deputados disseram nunca terem visto na história deste país um envolvimento tão grande e uma plenária tão abarrotada como foi durante a discussão sobre o Novo Código Florestal. Aí eu penso: será que essa discussão e participação acalorada de nossos excelentíssimos representantes tem a ver com a preocupação com o povo brasileiro? Tem a ver com a proteção de nossos recursos naturais? Ou será, uma vez mais, uma manobra política para beneficiar uma pequena parcela de pessoas?

O discurso é bonito: regularizar o pequeno produtor, aumentar a produção de alimento, proteger o meio ambiente. Mas devemos sempre lembrar o seguinte: essa discussão ultrapassou a esfera dos estudos e ideias – que é onde elas deveriam concentrar seus esforços e permanecer – e se contaminaram com interesses e acordos partidários, ofensas pessoais e mentiras escabrosas.

Você acredita em coincidências? Uma ou outra, talvez. Mas, e quando essas “coincidências” aparentemente não cessam e continuam acontecendo? É evidente que, mesmo não tendo ligação direta, a discussão sobre o código florestal e os assassinatos ocorridos no Pará estão conectados. Enquanto escrevia meu artigo “Novo Código Florestal: o que eu possa falar?”, onde repudiei o assassinato do casal extrativista Zé da Castanha e Maria do Espírito do Santo, que tiveram as orelhas cortadas como “prova” de que o serviço fora feito, tive um sobressalto ao ouvir a notícia de que o líder do Movimento Camponês Corumbiara, Adelino Ramos, fora assassinado com seis tiros quando ia com a família comercializar seus produtos numa feira.

José Cláudio Ribeiro da Silva
e sua esposa
Maria do Espírito Santo da Silva
No dia seguinte, mais um tapa na minha cara: o agricultor Erenilton Pereira dos Santos, de 25 anos, foi encontrado morto. Ele seria a principal testemunha no caso do assassinato do casal morto no dia 24.

E você acha que acabou, certo? E se eu lhe disser que, no dia 1º de junho, o trabalhador rural Marcos Gomes da Silva, 33 anos, foi morto a tiros numa emboscada em Eldorado do Carajás, localizada na mesma região onde o casal foi assassinado? Ele chegou a receber socorro, mas homens armados abordaram o veículo que o levava ao hospital. Ali, Marcos teve a orelha arrancada e foi degolado. Fazendo as contas, foram cinco assassinatos em menos de duas semanas. Lí num folheto, ao acaso, uma frase que me fez refletir sobre os acontecimentos. “A Paz é fruto da Justiça”. Se isto é verdade, e pensando friamente acredito que realmente seja, então quais são as reais esperanças?

A justiça é cega, mas o intuito dessa simbologia é a imparcialidade, exprimindo o desprezo pelo mundo exterior face à “luz interior”, não sendo influenciada por interesses externos, dando o veredicto que compõe, única e exclusivamente, a verdade. São Tomás de Aquino disse certa vez que “se a Lei não é justa, não deve ser obedecida como tal”.

A coordenadora da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Isolete Wichinieski, afirmou numa recente entrevista que a impunidade é a principal razão para a violência no campo. Apenas 21 mandantes de assassinatos teriam sido identificados, sendo que somente um, o assassino de irmã Dorothy, estaria preso. A ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, deu uma declaração honesta ao dizer que “o governo não tem condições de garantir a segurança de todos”. Em decorrência da barbárie testemunhada, uma PL foi colocada em votação para tipificar o crime de “extermínio”. Acorda Brasil e olha a que ponto chegamos.

Veja abaixo a palestra do José Cláudio na TEDx Amazônia, em 2010. E veja que tipo de canalha tem coragem de tirar a vida de um cidadão como este.


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