sábado, 9 de julho de 2011

A IDEOLOGIA DOS "SEM IDEOLOGIA"

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Por Fernando Lobato
Professor e historiador


É muito comum, nas críticas ao governismo do PT, uma ênfase negativa a um suposto “norte” ideológico que orientaria as práticas da cúpula central do partido. Expressam essa ênfase como se fossem destituídos de qualquer ideologia, buscando, com isso, vender a tese de que governo bom é governo sem ideologia. Não quero e não vou fazer aqui o papel de advogado do diabo, pois deixo muito claro em meus textos a minha condição de crítico ácido e feroz das práticas governistas desse mesmo PT criticado pelos “sem ideologia”. Todavia, no que diz respeito as críticas dos “sem ideologia”, não posso me calar diante do mascaramento que fazem de sua real identidade, pois, ao adotar um discurso democrático e progressista, buscam esconder o “rabo de lobo mau que sai por detrás da fantasia de bons cordeirinhos com a qual se vestem”.

Todos lembram de uma das músicas do cantor Cazuza em que ele frisava: “ideologia, eu quero uma pra viver...ideologiaaaa pra viver”. Pois bem, ninguém vive ou existe sem ideologia, pois todos, de forma consciente ou não, tem uma percepção do mundo que nos cerca e um desejo de vê-lo funcionando dessa ou daquela maneira. A ideologia, embora tenha vários significados, pode ser entendida como um conjunto de idéias e valores que nos orienta a vida e o modo de ser. Quando alguém está em crise existencial, está também numa crise ideológica. Era nesse sentido que Cazuza cantava a necessidade de uma ideologia pra continuar vivendo depois que descobriu ser portador do vírus da AIDS.

Os “sem ideologia” que se travestem de bons cordeirinhos fingem não ter ideologia porque a crise que abala o sistema capitalista da atualidade os deixa em situação ruim para assumir explicitamente quem são com todas as letras. Eles são o que se convencionou chamar de neoliberais, ou seja, os paladinos da tese de que tudo que é público não presta, pois tudo, dizem eles, funciona melhor nas mãos da iniciativa privada. Não dizem, porém, que foram eles mesmos, quando estiveram no poder, os mesmos que sucatearam a educação e a saúde pública para promover os serviços privados nesses setores. Não enfatizam também que venderam, a preço de banana, quase todas as nossas grandes estatais, constituídas com décadas de sacrifício do povo brasileiro.

Não é sensata uma crítica ao PT por uma suposta fidelidade ideológica, pois todo governo sério e coerente tem que seguir uma, ainda que, por conta disso, receba a crítica e a oposição dos que discordam da mesma. Isso é salutar e faz parte do processo político. O que não dá pra aceitar é um partido se eleger pregando uma ideologia e, ao chegar nele, adotar outra completamente diferente. Infelizmente, na medíocre discussão política atual, a ideologia deixou de ter importância ou finalidade e esta é uma das razões da fragilidade de nossa democracia. Para piorar, vemos que vários partidos que se diziam ideológicos abandonaram as suas bandeiras e também se tornaram neoliberais. Esse é o caso de grande parte dos partidos que se dizem socialistas no Brasil e no mundo. Aqui, o PPS, o PT, o PDT, o PSB e o PC do B são neoliberais, mas não aceitam ser chamados dessa forma. Ora, segue-se uma ideologia a partir de práticas e não do que se prega. Nesse sentido, melhor seria se também se assumissem como sem ideologia, tal qual fazem os que lhe fazem uma suposta oposição: o PSDB e o DEM.

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