quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Ao meu avô com carinho

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Meu Avô ficava muito perplexo quando contava para ele das minhas aspirações, quando falava da possibilidade de igualarmos as classes sociais e o Estado proporcionasse tudo ao individuo. Ele ficava fascinado com aquela conversa.

Na verdade ele ficou perplexo comigo a vida inteira. Quando era adolescente queria sair de Juruti para ir morar com meus pais em Manaus para Estudar, era alucinado por história, poesia e música, por muitos anos pensei que minha formação seguiria para esse rumo. Anos depois fiquei apaixonado pelo Jornalismo, isso se deu pela minha militância política, nos tempos do Movimento Estudantil. 

A última vez que conversamos meu avô me confessou que o sonho dele era que eu virasse doutor. Cheguei perto, passei no vestibular, mas abandonei a faculdade no oitavo período de jornalismo. Ele morreu sem entender porque nunca me interessei em terminar a faculdade para depois virar doutor. Devo essa a ele. 

Quando adolescente detestava a perspectiva de passar minha vida inteira em Juruti. Quando voltei para Juruti em 2009, mais uma vez ele não entendeu. Acabei morando em Juruti naquele ano por mais de quatro meses. Minha intuição não entendeu que os Deuses estavam me dando à última oportunidade de conviver com meu avô, seriam as últimas conversas e os últimos abraços.

Aprendi com meu avô, que é possível transformar sonhos em realidade. Aprendi que a família tem mil defeitos, mas é para lá que você retorna quando tudo dá errado. Reinventei-me, devo isso a minha família, meu Pai, minha Mãe, meu Tio, minha Avó-Mãe, Avô-Pai e meu irmão e alguns amigos.    

A pergunta que me faço, neste momento ao escrever essa crônica que dedico ao meu querido avô, Amadeu Araújo Lima, que partiu a há um ano. Quando Juruti vai crescer? Quando discutiremos uma política pública de qualidade para educação? Quando discutiremos um orçamento democrático para a população? Quando discutiremos uma política para juventude? Para saúde? Para o planejamento urbano da cidade?

Aqui, sem futuro, vivemos nessa ansiedade individualista medíocre, nesse narcisismo brega que nos assola, nessa fome de aparecer para poder existir. Nosso atraso cria a utopia de que, um dia, chegaremos a algo definitivo. Mas, ser subdesenvolvido não é "não ter futuro"; é nunca estar no presente. Juruti é assim, quando todos caminham para frente, nossos representantes continuam caminhando para o atraso.

Passei precisamente quatro meses morando em Juruti, queria ver o meu passado, ver se havia ali alguma chave que explicasse meu presente hoje, que prenunciasse minha identidade ou denunciasse algo que perdi... Assistir uma cidade de destruída pelo atraso administrativo, uma cidade imóvel, fora de foco, onde a desigualdade social é a marca registrada do atual governo, uma cidade em crise. Assiste a cidade em meio às imagens trêmulas, riscadas, fora de foco. Vi a precariedade das famílias pobres em meio à riqueza dos secretários municipais e do prefeito.

Vi ali minha geração, meus amigos, minhas amigas, meus parentes. Assistir minha cidade sendo saqueada. Assistir o sofrimento nos olhos da população do interior. 

A impressão que tive da administração do atual prefeito, foi à mesma impressão que tive ao ver o filme intitulado de “Anita”, do famoso diretor Rassoul Labuchin. O filme foi rodado em plena ditadura de Duvalier no Haiti. A administração deste ditador saqueou o povo haitiano e perseguiu os políticos que faziam oposição ao seu governo. Dava para ver ali que como no filme rodado no Haiti em 1980, estava vivendo o povo de minha cidade.

Porém, no filme de “Anita”, nos dava à sensação de que o passado era precário e o futuro seria luminoso. Hoje Juruti e o Haiti se confundem com as cenas do filme.

Crônica dedicada ao meu avô que não se encontra mais nesse plano espiritual, mais que continua a me inspirar. Obrigado por tudo! 

Por: Alex Mendes

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