terça-feira, 8 de novembro de 2011

Massimo Canevacci: “A filosofia atrás de uma muralha?”

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A filosofia, para Massimo Canevacci, precisa sair das muralhas das universidades
Coreio do Brasil
Por Márcia Junges - de Porto Alegre

Assim como a coruja de minerva, que só levanta voo ao entardecer, “o filosofar contemporâneo, se chega, chega atrasado demais”. A crítica é do filósofo e antropólogo italiano Massimo Canevacci, em entrevista à página eletrônica do Instituto Humanistas Unisinos (IHU On-Line). “A filosofia me parece ausente. A lógica dela é, ainda, só analógica e não consegue aceitar o desafio de penetrar criticamente na cultura digital”, completa. “Não conheço um filósofo que acompanhou (não digo antecipou) os movimentos das redes sociais”.

Em sua opinião, a filosofia permanece muda frente a cultura digital, que é “mais do que somente técnica, é uma fratura deslocante em relação à modernidade”. Canevacci assevera a necessidade da universidade “sair de si própria, de seus muros”, além de abandonar a separação rígida entre os saberes. E desafia: “Steve Jobs cria dispositivos horizontais e inovadores: Agamben reproduz a verticalidade separada da filosofia/muralha. Filosofia murada”.

Massimo Canevacci é doutor em Letras e Filosofia pela Universidade Degli Studi di Roma La Sapienza – URS, na Itália, onde nasceu. Leciona antropologia cultural, arte e culturas digitais nessa mesma instituição e é professor visitante na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Publicou vários trabalhos sobre a realidade brasileira. É autor de livros como Antropologia da comunicação visual (Rio de Janeiro: DP& A Editora, 2001), Antropologia do cinema (São Paulo: Editora Brasiliense. 1990), Fake in China (Maceió: Edufal, 2011) e Fetichismos visuais (São Paulo: Atelier Editorial, 2008).

Confira aqui a entrevista que o Correio do Brasil reproduz, na íntegra.

Com a popularização das redes sociais surgem novas maneiras de manifestação e participação política. Como essas redes impactam a filosofia e o filosofar contemporâneos?

– A filosofia me parece ausente. A lógica dela é, ainda, só analógica e não consegue aceitar o desafio de penetrar criticamente na cultura digital. A política nasceu com a filosofia em relação à cidade-estado. Agora a política vai além da sua filologia clássica: é um cruzamento de comunicação expandida, horizontal, baseada sobre a autorrepresentaçao de cada sujeito, desafia o dualismo filosófico, é transcultural e além do estado-nação. O filosofar contemporâneo precisa se colocar onde os conflitos nascem com práticas diferentes daquelas modernas.

A filosofia atual não só aceitou de novo as “duas culturas”, mas gosta de se separar com um orgulho provinciano/periférico de tudo o que acontece no âmbito das ciências assim ditas exatas. Informática e física vão além da filosofia atual. Não é só a reprodução daquele que se chamava “duas culturas”: é pior. É imaginar que os filósofos defendem o passado moderno, industrialista, classista, em que eles acharam de ter um papel moral. O filosofar contemporâneo é distante, e diria o inimigo de tudo o que está modificando culturas, tecnologia, subjetividades, metrópoles, artes, ubiquidade, identidades, etc.

Trilha originária

O filosofar contemporâneo, se chega, chega atrasado demais. Gregory Bateson e Norbert Wiener trabalharam juntos durante a elaboração da cibernética porque o primeiro descobriu na sua pesquisa etnográfica na cultura Iatmul o conceito de schismogenesi, que se tornou o feedback. Uma dialógica flutuante entre antropologia e matemática/física formou a cibernética, isto é, aquilo que agora é a cultura digital.

E os filósofos? Ainda imaginam o vilarejo puro e o caminho pela trilha originária? Você conhece um filósofo que lembra de McLuhan? Será porque Heidegger é ainda hegemônico em muitas universidades através de discípulos que controlam o poder acadêmico? Se a política está ubiquamente dentro e fora da cidade (da polis), parece que a filosofia não consegue participar. A filosofia parece não ser ubíqua, no sentido do cruzamento espaço/tempo que a experiência digital favorece. Não conheço um filósofo que acompanhou (não digo antecipou) os movimentos das redes sociais.

– Pode-se dizer que a internet é uma nova ágora? Por quê?

– Na ágora, a única subjetividade presente era do homem cidadão: mulheres, escravos, bárbaros eram excluídos. Eu tenho dúvida e resistência sobre a maneira de fixar o pensamento conceitual (também como metáfora) sobre um passado grego eterno como supostamente a filosofia imagina a si mesma.

A internet não é somente um espaço digital material/imaterial (e-space): é também uma maneira de poder enfrentar, interpretar, furar e transformar a monológica do domínio dicotômico que a ágora historicamente presenteava. É uma escritura não somente alfabética, mas uma composição icônica, sônica, visual. A ágora é identitária, é um lugar certo no centro da cidade, onde a arte política é baseada sobre a retórica. A internet é um direito da humanidade, como a saúde, a casa, a cidadania e isso significa que cada pessoa no mundo deveria ter acesso a ela.

A rede é deslocada, flutuante, desenvolve uma multidão de identidades por sujeito, favorece um multivíduo ubíquo, como eu gosto de dizer; talvez incorpora o além da era pós-colonial. Não se fala uma única língua, apesar de o inglês ser fundamental e, ao mesmo tempo, é um webpidgin: a retórica não funciona; a comunicação (mais que o discurso) é um fluxo de expressividades diferentes e coexistentes: multilógicas, transculturas, plurissensoriais.

A internet não está só dentro da tradição eurocêntrica. Ela está, simultaneamente, dentro e fora. Gosto de sublinhar mais as descontinuidades da cultura digital do que uma suposta continuidade. A cultura digital, mais do que somente técnica, é uma fratura deslocante em relação à modernidade: e assim a filosofia fica muda.

– Nesse sentido, como podemos compreender o “saber analógico” que as universidades ainda detêm, e como esse tipo de saber é apropriado e retrabalhado pelo pensamento filosófico?

– A formação das universidades, com suas faculdades, departamentos e curriculum vitae de muitos professores não é adequada ao desafio atual. Um aluno deveria criar um CV específico, participando nas aulas em qualquer universidade-mundo. Também a universidade é ubíqua. A racionalidade não é singular-universal e ainda menos fixa, mas modifica-se quando acontecem eventos históricos determinantes. A revolução digital imprime uma aceleração e diferenciação no saber como foi (mutatis mutandis) na revolução industrial.

Naquela época nasceu uma nova dialética (Hegel, Marx etc.), mas agora a dialética é morta, e a síntese é instrumento arqueológico de um domínio em crise e que ainda tenta, às vezes, utilizá-la. Por isso a universidade precisa de sair de si própria, de seus muros. A universidade é uma muralha que agora tenta se defender de tudo aquilo que avança. A separação rígida do saber e da disciplina precisa de ser colocada em crise.

A divisão comunicacional do trabalho é mais significativa daquela divisão social que Marx acreditava fundamental dissolver: quem comunica e quem é comunicado é um conflito político/comunicacional. A autorrepresentação é vontade política de não delegar a nenhum (em primeiro lugar aos antropólogos) a própria história e as próprias narrações. É o problema de uma inovadora política comunicacional na qual ninguém quer delegar nada a ninguém. Dever-se-iam favorecer alunos e pesquisadores em direção de desenvolver um tipo de pesquisa descentrada, individualizada, transdisciplinar, além do saber por departamentos. Cada departamento está se tornando uma gate community.

Steve Jobs, por exemplo, pode ser considerado um filósofo contemporâneo, como a arquiteta Zaha Hadid, filósofa ainda mais criativa de novas perspectivas pós-euclideanas nas experiências urbanas diagonais. O mesmo se pode dizer de muitos músicos, como Björk, que elaborando os sons por Ipad (Biophilia) – cria uma filosofa da música que horizontaliza o escutar ativo/compositivo de cada um.

– Como se dá o diálogo entre a antropologia e a filosofia? Quais são os principais pontos de contato entre ambas as ciências?

– É um diálogo infeliz. A filosofia entende ainda a antropologia como uma elaboração das invariantes pelo homo sapiens: conceitos fundantes, arquetípicos, imutáveis. Ainda não coloca o adjetivo cultural atrás dela. E ciência do imodificável, do eterno sem retorno. Não conheço um filósofo que entendeu a revolução recente da antropologia cultural, isto é nos últimos 20 ou 30 anos: talvez só Rorthy escreveu que a filosofia deveria aprender pela antropologia cultural, diluir-se nela. Os filósofos atuais não entendem a revolução moderada que aconteceu a partir da Geertz e, depois, mais radical, mas incompleta, pelo grupo de Writing Culture. Antropologia é ainda só Lévi-Strauss, justamente pela fraternidade entre estruturalismo e ciência das invariantes.

Os filósofos xavantes ou bororo que eu conheço não são percebidos ou ouvidos pelos filósofos brasileiros. Por outro lado, os antropólogos culturais (os etnógrafos) precisam fazer pesquisa empírica elaborando processualmente reflexões filosóficas que transitam, misturam, sincretizam tratos locais com tensões mais complexas. Os antropólogos poderiam elaborar pensamentos criativos, descentrados, horizontais/verticais, material/imateriais pós-dualistas. Os pontos de contatos deveriam abordar as subjetividades que emergem a partir da transformação profunda entre aldeia e metrópole. Esse trânsito complexo/sincrético, além de uma definição disciplinar ou disciplinada, precisa renovar métodos, conceitos, paradigmas, composições.

Na cultura bororo, a cosmogonia sacral ou uma pragmática ritual performática como desafio a uma morte percebida como domínio pelas religiões monoteístas é filosofia num sentido estranho. Um canto/choro bororo na frente de uma caveira que se transforma em antenado sagrado, que chama ao som das maracás e de uma voz rítmica todos os mortos de todos os tempos pra tentar estabelecer uma interconexão profunda entre morte/vida: esse foi o evento da minha vida que tento de contar, descrever, escrever e também fotografar e que deixa os filósofos indiferentes, quase enfastiados por uma relíquia do passado.

O filósofo parece que não gosta mais de perguntar. E o antropólogo parece não ser penetrado pela webcultura.

O ponto é transitivo: a filosofia que aceita se transformar poderia oferecer uma outra maneira para desenvolver critérios metodológicos e narrativos experimentais, conceitos sensoriais e composições multilinguísticas. Os pontos transitivos significam que o antropólogo e filósofo, seja nascido nas metrópoles ou nas aldeias, precisam dialogar para enfrentar o controle ainda colonial dos missionários que, únicos e por uma lei inexistente, podem continuar a morar nas aldeias.

– Qual é a atualidade a filosofia da Escola de Frankfurt e de obras como o Discurso filosófico da modernidade, de Habermas?

– Horkheimer foi professor de filosofia social. Isso é de um tipo de pensamento crítico, teoricamente baseado sobre a grande tradição da filosofia alemã, e que, ao mesmo tempo, deseja fazer pesquisa empírica. O projeto Autorität und Familie foi não somente transdisciplinar e além da assim dita dialética “estrutura/superestrutura: foi baseado sobre uma atenta hipótese teórica e uma profunda análise dos materiais empíricos elaborados com diversas metodologias e diversos pesquisadores numa perspectiva crítica para enfrentar e contrastar a força de uma autoridade autoritária que se expandia na Alemanha e em culturas ocidentais inteiras. Depois, o mesmo Adorno elaborou a escala “F” sobre a “personalidade autoritária” difundida também nos Estados Unidos. A teoria crítica foi um caso único, talvez irrepetível: misturar a máxima abstração teórica e o máximo de detalhes empíricos. Máxima teoria e máxima empiria.

Procura do incompreensível

Habermas não é, nesse sentido, um continuador da Escola. Ele exprime um refluxo no âmbito da filosofia baseada sobre a filosofia, sobre si mesma. Isso quer dizer que filosofia sem pesquisa empírica é regressão contínua. Frankfurt tem alguns limites, claro, sobre a técnica, a música jazz (pena que Adorno nunca ouviu John Coltrane) e um pensamento que colocou em crise a dialética sem conseguir experimentar o além do negativo: mas somente para citar o ultimo livro de Said, Late style, onde a influência de Adorno sobre a música contemporânea e, em geral, o desafio que um artista ou teórico enfrenta nos últimos períodos da vida dele, é não só genial, mas também um verdadeiro assunto que deveria misturar antropólogos e filósofos.

A atualidade da Escola de Frankfurt não fica no pensamento de Habermas; vive como irredutível estilos últimos. Os estilos últimos procuram o incomprensível, que por Adorno não é o desconhecido: é um pensamento que não fica circundado e bloqueado pela lógica da identidade.

– Quais considera os filósofos e obras fundamentais na filosofia?

– Esta é uma pergunta difícil e, ao mesmo tempo, deliciosa. Sabemos que aparentemente a macarronada é uma, mas na verdade são infinitas as maneiras de cozinhar os spaghetti. E os filósofos criam um tipo de “pasta” utilizando elementos conhecidos e inventando sabores inovadores, nunca experimentados antes. A arte de cozinhar, olhar, comer, mastigar, digerir, descansar, defecar e imaginar. Assim apresento fragmentos saborosos de filósofos misturados com a finalidade de um late style antropofágico.

A minha tentativa em minha tese de doutorado sobre a Escola de Frankfurt foi sempre de tentar misturar, através de montagem de fragmentos, as correntes mais humanistas ocidentais e como “filósofos sem filosofia” (no sentido de uma disciplina acadêmica ou institucionalizada) que diferentes culturas elaboraram. Assim, gosto menos do Sócrates platônico e mais da crítica que Nietzsche elaborou contra essa construção.

Adorei os pré-socráticos, Heráclito, depois Demócrito e Zenon, Pitágoras, Eurípedes e Safo… O mesmo Adriano foi um imperador/filósofo excelente junto com Ovídio. A filosofia de Leonardo e do Renascimento, em geral, é ainda parte de mim. Os artífices… Spinoza e os iluministas (Diderot, Rousseau). Hegel da fenomenologia e da estética, claramente Marx, Freud, Rosa de Luxemburgo e Gramsci. Adorno e Benjamin que continuam a dialogar sem parar. Nietzsche de A genealogia da moral.

Tudo isso se mistura seja com as obras de artistas ou poetas (Rilke, Musil, Baudelaire, Leopardi), seja (e mais complicado ainda) com pessoas assim ditas “outras”, nascida em culturas diferentes da ocidental, não só no Oriente, mas na África, como Ogotemeli (em diálogo com Griaule), nos bororo atuais, Kleber Meritororeu, que tenta afirmar sua cosmogonia cultural além da influência salesiana, Divino Tserewahu, cineasta xavante que elabora a sua própria visão do mundo; Daniel Mundurucu, que escreve livros reivindicando a autonomia da aldeia sem missão.

Os assim ditos indígenas frequentemente (e infelizmente) sem nome que influenciaram Bateson, Lévi-Strauss, Malinowski. E queria ainda mais misturar com Armani, filósofo do corpo e da estética, os arquitetos Herzog & De Meuron, Renzo Piano, Niemeyer que modificam o sentido comum e criam metrópoles. Os estilos últimos de Beethoven: a sonata op. 111 é filosofia, como o plano-sequência de Antonioni, doente, que acaricia Mosé di Michelagelo ou o canto/choro de José Carlos Kuguri na aldeia de Garças, na frente do crânio transfigurado em arara sagrada da sua esposa.

– Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

– Atualmente virou hegemônico o pensamento de Deleuze/Guattari e Foucault/Agamben. Esse último inventa um mito (homo sacer) para explicar o estado de exceção do 11 de setembro de 2001. Tudo isso me parece muito estranho, uma regressão pré-iluminista bem perigosa e obscurantista. Ele favorece uma visão aparentemente crítica, mas na verdade ele é um tipo de pesquisador sobre o direito público que Marx teria já criticado na época dele. Heidegger e o seu irracionalismo racional está presente em Agamben junto com a crítica mais facciosa contra Adorno. Claro, a análise adorniana sobre a relação mito/ratio coloca o homo sacer e seu autor onde merecem.

Agamben continua a afirmar a tradição de uma razão mítica (ou de um mito razoável) que não explica nada do estado atual, justifica ou é indiferente ao terrorismo teológico que quer um estado teocrático, sorri distraído na frente da revolução baseada sobre a comunicação digital, como já falamos. Assim, a microfísica/dispositivo de Foucault é o resultado de uma genealogia (aquela de Nietzsche) que virou historicismo.

Agamben e Foucault representam a transformação da crítica genealógica em mitologias historicistas. Steve Jobs cria dispositivos horizontais e inovadores: Agamben reproduz a verticalidade separada da filosofia/muralha. Filosofia murada. O mesmo sobre algumas teorias de Deleuze/Guattari, especificamente Mil platôs, que eu enfrentei na versão italiana de Sincretismos nunca traduzida no Brasil.

Por isso a filosofia atual está fora da filosofia, assim como muita antropologia. Precisamos modificar o que se entende por filosofia: ela não é a história de uma disciplina, uma história ocidental, uma história historicista. Assim como nos pré-socráticos, no Renascimento, no Iluminismo, a filosofia pensa e modifica o contemporâneo (isto é, não só o que é atual: Michelangelo é contemporâneo para mim como Ovídio).

A filosofia precisa se interrogar novamente sobre o estupor. O estupor é um método filosófico não dos “primitivos”, e por isso “superficial”. É um método para se abrir ao estranho, ao diferente que está para acontecer mas ainda não se apresentou, e por isso o pesquisador deseja o desconhecido. Nell’attimo prima. O estupor é a porosidade do corpo/mente. Conhecer a história da filosofia e ao mesmo tempo os pensamentos de outras culturas (“nativas”) é fundamental para produzir pensamentos hic et nunc. O historicismo dominante na filosofia é a morte da filosofia.

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