domingo, 15 de janeiro de 2012

OS MISTÉRIOS DA PONTA DAS LAJES SOB O FOCO DA CIÊNCIA

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Enquanto a jornalista Ellza Souza alerta para o valor científico da província Ponta das Lajes, nos arredores de Manaus, no frontal do fenômeno do Encontro dos Rios Negro com Solimões, o Movimento S.O.S Encontro das Águas comprometido com o Tombamento desse patrimônio não só do Brasil, mas do mundo, convoca seus militantes e amantes da nossa história cultural a comparecerem na Audiência de Instrução notificada pelo magistrado federal Dr. Dimis Costa Braga, no dia 25 de janeiro (quarta-feira), às 9h, no auditoria da Justiça Federal, no Aleixo, nas proximidades do Tribunal Regional Eleitoral. Na oportunidade, o juiz federal deverá definir sobre a perícia a ser feita na província das Lajes e do Encontro da Águas para convencê-lo de que a construção do Porto da Vale do Rio Doce, no frontal do nosso Encontro das Águas, representa realmente uma ameaça a este patrimônio do povo do Amazonas. Na dúvida do magistrado ficamos todos com a homologação do Tombamento do nosso Encontro da Águas. Compareça e confira a trama urdida desse processo que ameaça a enconomia sustentável do Estado, empobrecendo ainda mais a nossa gente, em todos os sentidos.

Ellza Souza (*)

Conhecer o estudo da professora Elena Franzinelli e Hailton Igreja, da Ufam sobre o sítio arqueológico Ponta das Lajes é entender de uma vez por todas a importância desse lugar mágico e de beleza estonteante conhecido como Encontro das Águas formado pelos grandes rios Negro (só nesse afluente do rio Amazonas cabem todos os rios juntos da Europa) e Solimões, em Manaus.

Em seu trabalho a pesquisadora começa explicando a relevância do lugar por quatro itens: o geográfico, por sua posição em frente ao Encontro das Águas; o geológico, devido a ocorrência de estruturas sedimentares que facilitam a interpretação do ambiente de sedimentação da formação rochosa Alter do Chão; o tectônico (parte da geologia que estuda a estrutura da crosta terrestre), por se estender ao longo do lineamento Aleixo; e o histórico pela localização próxima ao primeiro núcleo urbano de Manaus.

Conceitos técnicos à parte eu só sei que os sítios arqueológicos são importantes para qualquer conhecimento humano e precisam ser preservados para estudos e entendimento de nossa história. Se não entendermos o nosso passado como vamos melhorar o futuro? Nós precisamos aprender com as experiências dos nossos antepassados que deixaram suas marcas e suas histórias na terra, nos rios, na vegetação, nas lajes (pedras) do Encontro das Águas, no caso desse sítio de Manaus ainda pouco estudado mas que já corre o risco de sumir do mapa com informações preciosas e ainda desconhecidas da ciência.

Além da beleza e da magia que envolve os visitantes e o cenário no encontro desses rios, a ciência não pode ser descartada no caso das Lajes e qualquer obra que se faça na área. Não tem nenhum cabimento que um lugar com as características até então conhecidas e entranhadas nas pedras e nas águas sejam deixadas de lado em prol de projetos faraônicos que basta fazer um exercício de imaginação para perceber que as perdas serão incalculáveis para a cidade, para a história, para o conhecimento, para o ser humano.

Nem pensar, um grande porto naquela área vai mexer com tudo. Com as comunidades das margens dos rios e igarapés da região; com a natureza fortemente violada pois um empreendimento desse porte só destrói as árvores peculiares daqueles terrenos e bichos que nelas habitam; com as pedras históricas onde já foram vistos sinais rupestres nas cavernas submersas; quem se incomodará com um berço de jaraquis, o nosso peixe mais nutritivo e saboroso, que podem ser extintos nos arredores de Manaus com esse projeto. Já pensou a gente sem o jaraqui? É melhor ir embora da terrinha contrariando o ditado popular que diz que “quem come jaraqui não sai mais daqui”.

Em tão pouco tempo as pedras do Aleixo mudaram muito. Mudar tudo muda no mundo, claro. Sempre digo que as Lajes lembram meu pai que na infância nos levava ao local para tomar banho. Tudo por ali era de uma beleza que encantava até as crianças. As castanheiras, as palmeiras, os pássaros, as rochas, o paredão de quase cem metros de altura que proporciona uma visão tão fascinante que não precisa de mais nada ali para agradar aos visitantes apenas alguns bancos e uma cerca de proteção para os mais afoitos.

O que interessa nesse caso é apreciar os rios no seu abraço mais famoso e refletir sobre a importância de viver e deixar a natureza em paz. Alguns barquinhos até poderiam levar os turistas do ex-rodoway no centro da cidade ao local e só. Nada de gigantescos petroleiros num vai e vem descabido e poluidor. Precisamos prestar atenção às mudanças que podem levar a catástrofes, a destruição, ao fim de espécies que nos servem de alimento, a poluição da terra e das águas que, graças a Deus, temos em profusão e nem por isso devemos tratá-las como algo infinito. A não ser que pretendamos trocar água limpa por lama, óleo, lixo, um líquido sem vida e sem utilidade nenhuma, a não ser servir como meio de transporte para meia dúzia de grandes navios que levarão para longe a riqueza e a dignidade do povo amazonense.

Sabendo do que o ser humano é capaz por dinheiro uma informação me preocupa nesses estudos: “A formação Alter do Chão constitui, provavelmente, o maior aqüífero da América do Sul e de grande potencial petrolífero global”. Será que é esse o motivo para tão acirrada disputa pelo local? Faz sentido.

(*) É jornalista, escritora e articulista do NCPAM/UFAM
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