quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

...ERA APEN AS UM CORPO ESTENDIDO NO CHÃO!

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Por Jornalismo Carlos Costa - Começo minha crônica de hoje com a tarja preta no início, porque era apenas mais um corpo estendido no chão, coberto por um plástico preto e nada mais, sem qualquer importância, afinal, não votaria nunca mais, para quê se preocupar com um defunto estendido em um pista qualquer de uma rua qualquer no Rio de Janeiro?

José Carlos da Cruz, de 45 anos. O nome não importa; mas o descaso, sim. No Rio, o corpo de um homem ficou sete horas na calçada, aguardando a chegada do carro rabecão do IML, para transportá-lo sem pompas ou batedores à necessária necropsia. Era apenas mais um corpo estendido no chão, vitimado pela imprudência.

Como era apenas um corpo estendido no chão, sem importância, o pai de seis filhos permaneceu estirado na calçada até as 21:30 horas esperando um rabecão a fim de transportá-lo ao Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro para fazerem os procedimentos de necropsia. Mas como já disse, era só mais um corpo estendido no chão, sem qualquer importância, pois ele nunca mais votaria em qualquer candidato a qualquer cargo eletivo...tudo porque um ônibus bateu e arrastou uma caçamba para cima do poste e arrastou várias pessoas que estavam em uma calçada, dentre eles o José Carlos da Cruz. Como um só morreu, isso não teve importância.

Os parentes velaram o corpo na calçada mesmo das 14:30 às 21:30 hs, quando o IML finalmente recolheu o corpo de José Carlos que, como já disse, não tinha mais qualquer importância porque não votaria mais em ninguém...

Os peritos fizeram o trabalho deles, foram embora. Mas o trágico acidente pode ganhar outros desdobramentos porque o corpo sem importância de José Carlos, que trabalhava a 19 anos na Rua Madureira, permaneceu à espera do rabecão, coberto com um saco plástico preto, definindo o início do luto oficial por uma pessoa sem qualquer importância.

“A gente quer (...) fazer a necropsia e resolver o problema. Vamos passar a noite todo aqui, pelo que eu estou vendo”, se revoltou com toda a razão o senhor Roxael Ribeiro, o tio da vítima. E à noite adentrou com os parentes esperando. Os curiosos foram embora, a polícia diminuiu o isolamento, o gari passou fazendo seu trabalho e José Carlos, apenas um corpo sem importância, quase fora varrido como lixo, mas permaneceu estendido no chão. Era apenas mais um corpo e nada mais do que um corpo para o Instituto Médico Legal.

Enquanto isso, 600 ambulâncias do SAMU, adquiridas e distribuídas sem qualquer planejamento para vários municípios de São Paulo estão sendo devolvidas ao Ministério da Saúde porque as Prefeituras que as receberam não terão condições financeiras para mantê-las em funcionamento, custeando combustível, manutenção, pneus...

Mas a burocracia para a devolução parece que é até maior do que para as Prefeituras que as receberam porque ambulâncias estão guardadas há mais de um ano e o processo não anda.

Enquanto isso, o corpo do trabalhador José Carlos, sem importância, permaneceu esperando um desses 600 veículos que poderiam ser doados para os IMLs do Brasil e, no mínimo, transformados em rabecões, com importância.

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