sábado, 4 de fevereiro de 2012

O HOMEM COMUM SEGUNDO OS CREDOS DA POLÍTICA

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Por Fernando Lobato - Historiador

"O homem é o lobo do homem" e, em face disso, deve ter sua natureza má contida pela boa natureza do estado. Era assim que Hobbes, teórico maior do Absolutismo, defendia a concentração de poder nas mãos de um rei. Para Rousseau, um dos grandes teóricos da Revolução Francesa, o homem é o "bom selvagem" que a civilização, pela forma como foi constituída, vai progressivamente corrompendo. No credo comunista, o homem comum é tão somente o expoliado pela classe dominante que o aliena de si mesmo e que, por conta disso, necessitaria de uma vanguarda de "iluminados" para conduzí-lo ao Paraíso, não sem antes, porém, passar pelo "purgatório" da Ditadura do Proletariado. E já que citamos o purgatório, não custa destacar que, no Cristianismo tradicional, o homem é o pecador à espera de um Jesus que, acima dos poderes terrenos, retorna sobre as nuvens para resgatar seus escolhidos e por um fim na História.

Embora não explícito, todo credo político traz junto um conceito de homem comum. No credo neoliberal, ele é o consumidor de bens e serviços que, para ser feliz, necessita ser invejado, pois, nesse credo, é mais importante parecer do que ser feliz de fato. Devido ao materialismo da visão de Marx e discípulos, o comunismo ergueu uma visão de homem não muito diferente desta, posto que o vê, sobretudo, como um produtor de trabalho. Quando condenam a sociedade neoliberal, o fazem focando a desigualdade material, pois imaginam, assim como os neoliberais, que o acesso aos bens de produção bastaria para fazer uma sociedade feliz. Eis porque, na "versão comunista" de Lula/Dilma", o crédito para o consumo dos pobres assume papel tão relevante, sendo o fator que explica o "encanto" da elite neoliberal com o petismo. Eis porque também ela já não sente saudades nem da Ditadura Militar nem de FHC.

Enquanto mecanismo de sustentação política, tal arranjo é eficiente, mas é catastrófico quando se pensa a afirmação e consolidação da nação brasileira que, desde Cabral, continua padecendo dos mesmos problemas estruturais. Em vez de diminuir, continua se alargando o abismo que separa o pico e a base de nossa pirâmide social e isso pulveriza o bem maior que sustenta uma nação: o espírito de partícipe de uma mesma comunhão de interesses. É esse sentimento que torna forte e consistente aquilo que entendemos por patriotismo. Sem esse espírito de comunhão, o princípio do farinha pouca meu pirão primeiro se impõe de forma abominável e cria o clima de desesperança e descrença que vemos atualmente. Sem um credo político capaz de unir sua população, uma nação não se afirma e eis porque, nos dias atuais, é fundamental o resgate de um que nos faça, de fato, começar a sair da encruzilhada em que nos encontramos.

Para ser consistente, nosso credo deve sustentar-se numa visão de homem largamente aceita e compartilhada por todos. Nela, ele não é o "lobo" a ser cerceado pelo governo, pois, no Brasil, os "piores lobos" estão dentro dele. Se não dá pra afirmar que indíos e negros eram bons selvagens, não como há negar que a corrupção foi e continua sendo uma das bases de nossa mal falada civilização. É fato também que, muito antes de Marx e Engels redigirem o Manifesto Comunista, o homem comum destas paragens já era um expoliado pelas classes dominantes, mas não é com uma Ditadura do Proletariado tupiniquim que tudo se resolverá, mas com algo muito mais valioso que o acesso a bens de consumo dos Governos Lula e Dilma, ou seja, com a difusão de dignidade e respeito que advém da afirmação de uma verdadeira democracia. No credo democrático autêntico, é o povo consciente, bem educado e engajado que forja a boa natureza do estado.

Nele, definitivamente, o "purgatório" da passagem pela Ditadura do Proletariado não é necessário para construção da nação livre, justa e solidária do Art. 3º de nossa Constituição Federal, mas é muito necessário que os cristãos desse país esmagadoramente católico e evangélico não fixem toda a sua atenção nas nuvens do céu à espera do juízo final. Enquanto ele não chega, seria muito bom que acreditassem que, por termos a natureza de Deus latente dentro de nós, está em nossas mãos a construção de uma nação que nos dê mais sentimentos de orgulho do que de vergonha diante de outros povos. Muitos deles, por sinal, com um padrão geral de vida – material e espiritual - muito superior ao nosso, apesar de não disporem de nem um décimo das potencialidades que ostentamos.

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