quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Por ti Tefé!

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Por Elson de Melo - Amanhece o dia na Amazônia, de sua rede pula o caboclo, arruma seus arreios e sai para pescar, caçar, ou cultivar sua roça, afinal foi assim que ele aprendeu a viver nos rios da encantadora Amazônia. Em Tefé começa a correria de uma cidade polo, pessoas indo ao mercado, o comercio abre as portas, os bancos começam a pagar os aposentados do FUNRURAL, os rádios são sintonizados na Radio Rural de Tefé, é uma quinta feira, o programa preferido é “O Guerreiro Tupebas”, no porto começa o desembarque de farinha, peixe, verduras, castanha e outros produtos da floresta...  

Foi cultivando essa rotina que o caboclo chegou a cidade, empurrado pelo abandono proposital dos governantes e atraído pela especulação de vida melhor, o caboclo deixa tudo, casa, arpão, caniço, anzol, flechas, arco, canoa e até seu cão de estimação, parte para a cidade mais próxima em busca de uma vida mais digna.

Assim o caboclo troca a floresta e seus rios, vai se alojar em uma selva que ele não sabe os atalhos e muito menos os perigos que ela oferece, nessa selva não dá para erguer um rabo de jacú para servir de casa, não existe lagos fartos para pescar, não tem caça e muito menos terra para cultivar sua roça, então o caboclo sai em busca do nada perambulando pelas ruas, praças e mercados da cidade.

Se alguém pergunta ao caboclo o que procura, certamente ele não saberá dizer, talvez arrisque que está em busca de emprego, então o inquiridor quer saber o que ele sabe fazer e o caboclo não sabe responder, porque na vida tudo que ele aprendeu foi ser uma pessoa honrada e seria incapaz de mentir.

O caboclo continua perambulando pelas ruas da cidade até encontrar um boteco onde conhece a turma da cachaça, ali todos são igual, então o caboclo para e alguém lhe oferece uma doze de pinga, no inicio ele recusa, o pinguço que oferece, passou pela mesma experiência que ele está passando, insiste na oferta perguntando, de onde vieste e quando chegaste aqui? O caboclo aceita a pinga e responde, cheguei esta semana e vindo do Município de Uarini, estou a procura de emprego e de uma casa para morar, o amigo pinguço então lhe conforta dizendo, toma mais uma que as coisas vão melhorar, sem outra alternativa o caboclo se embebeda e começa ali uma nova vida, a de pinguço!
 
A nova vida faz o caboclo esquecer seus problemas, sua família e a sua dignidade, sem lar, sem honra, sem arreio para pescar, passa o dia bebendo e fazendo mandados nas ruas de Tefé, já não sabe o que acontece com seus filhos, se estão na escola ou vagando pelas ruas, sua esposa é quem assume os percalços da família, arruma uma coisa ali e oura acolá para fazer e arranjar uns trocados para comprar pelo menos uns ovos para dividir com os filhos. E assim o mundo do caboclo despenca, transformando sua vida em uma esquina sem rumo!

É por ti Tefé, que escrevo esse texto que mais parece uma saga ou um lamento, é por ti caboclo que aprendi a escrever os relatos da nossa vida, é por ti Amazônia que relembro aos mais novos que por aqui vivem que se os governante se preocupassem um pouco com a rotina dos caboclos, todos nós seriamos muitos felizes como foram nossos antepassados que aprenderam a respeitar nossa fauna e flora, para dela tirar apenas o que lhes alimentassem e lhes garantissem uma boa qualidade de vida.

P.S. Tefé é um Município do Amazonas que fica no centro geodésico da Amazônia para onde migram muitos caboclos dos rios, lagos e igarapés da Região do Solimões. A região de Tefé foi inicialmente colonizada pela Espanha, no fim do século XVII, vindo a ser ocupada por Portugal em 1708. Em 1759 foi criado o concelho, com a denominação de Ega. A vila de Ega passou a denominar-se Tefé entre 1833 e 1843 e, definitivamente, em 1855, quando foi elevada a categoria de cidade. Nos primórdios de sua história, Tefé era habitada basicamente por índios, com destaque para as tribos dos Tupebas ou Tapibas.

*Elson de Melo...Sindicalista


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