sábado, 10 de março de 2012

Quanto vale uma espécie?

0 comentários

Por E esse tal Meio Ambiente - Saiu no portal de notícias R7 em agosto de 2012 a seguinte reportagem: “Britânicos gastam R$ 520 mil em ponte para roedores – responsáveis pelo projeto estão sendo criticados pelos moradores por gastarem tanto.”

Autoridades locais estão sendo duramente criticadas por terem construído uma ponte de R$ 520 mil (190 mil libras) no distrito de Rhondda Cynon Taf, sul do País de Gales. O problema é que a ponte é apenas para pequenos roedores. O conselho montou três passarelas por cima da estrada, para que os pequenos animais possam atravessar a rua sem serem atropelados. Alguns dos moradores ficaram muito irritados, como Bethan Rees, de 30 anos, que falou ao site Orange News.
- É horrível e é ridículo. Se fosse uma ponte para nós humanos, eu ainda diria que é um desperdício de dinheiro, neste clima financeiro atual – diz um morador da cidade.
A estrada sobre qual a passarela foi construída também é nova e custou quase R$ 247 milhões (90 milhões de libras).

——–X——–

A Ecologia de Estradas (ou Road Ecology) é um novo ramo da Ecologia que também segue preceitos da Biologia da Conservação e Biogeografia. Esse ramo visa investigar os efeitos das estradas sobre a biodiversidade e aborda impactos como atropelamento de fauna, alterações de hábitats e fragmentação de áreas naturais causadas por construção de estradas de rodagem. Nos últimos anos, esse ramo da ciência vem ganhando atenção dos ecólogos e tomadores de decisão em todo o planeta, incluindo o Brasil. Entretanto, os efeitos negativos da construção de estradas ainda são pouco divulgados e não têm muita popularidade na mídia ou na sociedade. Contudo, essa é uma das linhas mais importantes da ecologia moderna.

Nos últimos meses, eu e alguns colaboradores temos catalogado os registros de atropelamento de morcegos em todo Brasil e os dados são surpreendentes. Esse mesmo trabalho já foi feito por muitos pesquisadores em várias partes do Brasil e com diversos grupos taxonômicos, e seus resultados têm sido extremamente preocupantes. Dentre as principais vítimas de atropelamentos estão os mamíferos, sejam eles pequenos ou grandes. Espécies ameaçadas como o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) e a onça-pintada (Panthera onca), e ainda outras espécies como tatu-galinha (Dasypus novemcinctus), cachorro-do-mato (Cerdocyon thous), gambá-de-orelha-preta (Didelphis aurita) e o veado-mateiro (Mazama americana) também são vítimas comuns, o que pode resultar no desaparecimento local de muitas espécies, algumas já em vias de extinção.Por isso, muitas instituições de pesquisa estão criando parcerias com concessionárias que administram autoestradas, ajudando na construção de passagens que permitam que os animais cruzem de um lado para outro da pista sem correr riscos de serem atropelados. Muitas destas passagens são subterrâneas, com galerias por baixo da pista que permitem que animais terrestres possam utilizá-las em seus deslocamentos de um lado para outro da estrada. Já para animais arborícolas, estão sendo utilizadas pontes e passarelas suspensas sobre a pista (como na matéria acima), com o mesmo fundamento das passagens subterrâneas.

Mas é triste ver o comentário do morador da cidade que colocou as passarelas dizendo que acha “horrível e ridículo” tais estruturas. Não me surpreendi com a resposta. Apenas achei uma triste ignorância. E se isso fosse no Brasil, eu aposto que ouviria respostas similares. A população se preocupa demais em avaliar os gastos governamentais, e com razão, mas não compreende que não dá para atribuir um valor monetário a tudo. Quanto vale uma espécie? Quanto vale um indivíduo? Se alguém realmente conseguir aferir um valor monetário para uma espécie, certamente teria que fazê-lo para todas as espécies. Então, pergunto quanto vale a espécie humana? E um indivíduo humano? Será então que vale gastar os quase R$120 mil para a construção da passarela que atravessa a Avenida Brasil no Rio de Janeiro? E os R$78 mil para colocação de escada rolante na passarela que atravessa a linha ferroviária em Madureira, também no Rio, vale a pena??? Possivelmente, a resposta desse moço aí de cima seria “sim”! Então é a mesma coisa!!! Os animais precisam de passagens e passarelas que também sejam adaptadas a eles e lhes ofereçam segurança e os permitam utilizá-las.

Mas é óbvio que não pensamos nisso… Estamos muito ocupados em achar que nossa espécie vale mais que as outras. O próprio comentário do camarada da entrevista diz isso: “Se fosse uma ponte para nós humanos…”. Ele deixa claro o total despeito que tem pela vida silvestre e o quanto é alheio a tudo que não seja “humano”. Pois pense bem, amigo leitor, somos uma espécie como qualquer outra e, assim como nós, as outras espécies também têm direito a vida e a naturalidade de sua existência, seja ela complexa ou não. E se nós estamos tirando esse direito das outras espécies para dar vantagens a nossa, é bem lógico que tenhamos que gastar nosso dinheiro para devolver o que é de direito das outras espécies.

0 comentários:

Postar um comentário