domingo, 8 de abril de 2012

IGARAPÉS DE ME...LANCOLIA

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Ellza Souza (*)

Subi a pé, a avenida Municipal, Fileto Pires ou 7 de Setembro onde existem três graciosas pontes que em algum momento de nossa esquecida história foram pontos de encontro, de passeios, de passagem de bonde. Nesse momento o bom mesmo era ficar pra lá e pra cá com a família apreciando os igarapés negros e limpos que escorriam ao redor do palácio Rio Negro. De um lado e do outro. No entanto o homem foi se instalando na beira desses pequenos rios que abundavam a nossa cidade. E as autoridades incentivando e deixando. Mesmo com o emporcalhamento que fizeram com essas águas nada se compara ao que vi esses dias sob tão graciosas passagens.

O aterro sufocou os igarapés, isso é fato. Casas e parques estão montados sobre eles. Agora não escorre mais água, manauenses ou manauaras, existe no local a céu aberto pra qualquer morador e visitante da cidade ver e sentir, uma robusta massa de excrementos humanos (foi a palavra mais suave para o que muitos seres humanos chamam de número dois), paralisada ali à vista de todos, pululando de micróbios e bactérias.

Aterrar igarapés insanamente é aterrador, literalmente. Muita coisa poderia ter sido feita diferente dessa atitude tão equivocada. Mesmo enterrado há muito tempo o nosso igarapé do Espírito Santo onde hoje é a avenida Eduardo Ribeiro não morreu completamente e imagino que está esperando o momento certo para submergir. Me contaram que existe uma galeria ainda feita pelos ingleses (nem vou dizer o lugar senão algum “urbanista” moderno vai lá e dinamita o local para acabar de vez com a história) de onde se avista, ainda, lá no fundo o famoso igarapé e nas paredes de pedra um brasão deixado por eles como uma marca de sua passagem. 

Mudaram o terreno mas fizeram até bem feito ao contrário do que se vê hoje que sai a água e entra a me..lancolia. Quem dera que fosse lixo, lama, mureru. Dêem só uma olhadinha e constatem o descaso político. Nem a famigerada copa resolve isso. Sempre falta mais e mais verbas para projetos tão insanos. Na verdade o que falta mesmo é inteligência, eficiência e vontade de realizar. O projeto para ser bom não precisa ser mirabolante e caro.

Faria mais sentido se o Igarapé de Manaus, o Mestre Chico, o Mindú, o Franco, o Quarenta e os mais de cem igarapés que já escorreram por aqui, estivessem vivos e revitalizados nos dando peixes, beleza e... água, minha gente. Transformar água em me...lancolia não foi um bom negócio pra ninguém. Nossas águas são doces, calmas, belas mas não fresque não. Uma hora elas vão reagir e aí criaturas indefesas vai todo mundo no bolo fecal. É bonito isso?

(*) É escritora, jornalista e articulista do NCPAM/UFAM.

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