domingo, 10 de junho de 2012

A ARTE DE ARPOAR PIRARUCU NO RIO SOLIMÕES

1 comentários

Dois, três dias se  fosse preciso, um pé em cima de um dos finos bancos da pequena canoa, com apenas um chapéu na cabeça, uma camisa no ombro para apoiar o arpão, ao sabor das ondas e do vento, como uma perfeita estátua de bronze, ele permanecia imóvel, olhando fixamente para os locais onde apareciam bolhas, porque sabia até quantos minutos o peixe podia permanecer embaixo d’água e depois voltar à superfície para  respirar pela boca, de novo. Nesse momento, jogava seu arpão na água! Era certeiro.

O arpão pesado, com mais de dois metros de cumprimento, apoiado em seu ombro moreno e franzino, apenas protegido pela blusa que nunca a esquecia, mas também não vestia, permanecia sempre pronto para ser lançado n’água ao primeiro sinal de qualquer nova bolha e acertar mais um peixe grande, um gigante como costumava falar.

Era o senhor João Batista, o melhor arpoador de pirarucu no Baixo Amazonas, na área do Varre-Vento, aonde residi por nove anos.  Ele permanecia imóvel na proa da canoa, com olhar fixo na água para identificar bolhas formadas pelo pirarucu, decidir o tamanho do peixe e, só depois, lançar o arpão – acho que nem respirava quando ficava assim.

Vez ou outra, para direcionar sua pequena canoa remava, usando apenas de leve a ponta da pá de seu remo para não produzir qualquer barulho. Assim, permanecia imóvel, na mesma posição, ao sabor do vento, balançando em sua canoa!

Durante os outros dias da semana, era só mais um agricultor cuidando da terra, da qual tirava o sustento de toda sua numerosa família. Arpoar pirarucu era difícil, exigia paciência e demorava até três ou quatro dias para arpoar um deles  e tirá-lo da água.

Nesse período, o caboclo ficava abicorando o pirarucu vir à tona para respirar e lançar seu arpão. Sabia que o peixe sempre voltava e respirava no mesmo loca ou em local próximo, novamente produzindo bolhas e rastros na água e produzindo um rastro que o guiava para lançar seu arpão. Não podia perder o foco, nem a concentração porque só queria lançar seu arpão na água, se fosse para  acertar em um dos grandes e sempre conseguia, mesmo que demorasse.

Depois que arpoou o enorme peixe, ficou com medo de não conseguir puxá-lo e colocá-lo em sua canoa, que balançava para cima e para baixo ao banzeiro do rio, temendo ser alagada e perder o peixe que observava pacientemente!  Depois de muita luta, porque o peixe estrebuchava, como que não querendo ceder ao arpoador para matar a fome de várias famílias, conseguiu puxá-lo.

Com mais de dois metros de tamanho e 180 quilos de peso, decidiu puxá-lo até a pequena canoa com muita dificuldade. Em terra, carregava o peixe nas costas e convidava pessoas conhecidas do Varre-Vento e pedia ajuda na retirada de suas escamas e  a língua. A língua servia para lixar coisas mais duras como Castanhas do Brasil, por exemplo. As escamas; para lixar unhas!

Do pirarucu, nada se perdia, costumava dizer, nem mesmo a cabeça que, assada na brasa, servia a várias pessoas, inclusive a mim, um voraz devorador de cabeça de qualquer tipo de peixe, menos o dos lisos.

Será que ele sabia que estava agonizando e que morreria logo em seguida e seria devorado por um monte de pessoas, como urubus em carniça? Talvez não!

1 comentários:

Aurismar Lopes Queiroz disse...

Bela narrativa, a Amazônia tem suas pequenas e belas poesias, que no conjunto formam a exuberância que ela é.

Postar um comentário