quarta-feira, 4 de julho de 2012

Manaus, de cidade sorriso a vale de lágrimas

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Foto: Valter Calheiros-Igarapé do Educandos 2012/Manaus(AM)

Ellza Souza (*)

A cidade de Manaus cada vez mais caminha para o precipício. Abarrotada de gente e de carro, não temos lideranças políticas capazes de organizar essa balbúrdia e cada vez mais ficamos a mercê de grupos e apaniguados que se comportam como donos não só do espaço mas também das verbas públicas que “não sei por qual motivo” não chega a sociedade, nem aos que tem posses quanto mais aos despossuídos. A massa de crianças e jovens com titica na cabeça, facilmente manipulados por televisão, por propagandas enganosas, por falsas promessas, é grande. Isso cada vez mais se transforma em um caldeirão de violência pronta pra explodir a qualquer momento com as drogas fáceis à mão de qualquer um que não tem um projeto de vida, não tem educação de qualidade, não tem lazer, não tem cultura.

Em Manaus tudo é possível acontecer. É uma esculhambação latente mas acabei de ouvir num programa de televisão que “é a cidade mais linda” dito por uma candidata à prefeitura. Ouvindo assim as propostas e as falas, esses candidatos sabem dos problemas enfrentados mas jamais se propõem a resolvê-los. E isso não é de hoje. E a população que acredita piamente quando eles na calada da noite resolvem fazer os conchavos e os alinhavos, cai no conto do abraço e da festinha. E tudo continua como dantes na terra de Ajuricaba.

O calor que embaça nossas mentes e corações nos deixa meio apáticos quanto à política. Quase dois milhões de pessoas na capital vivem sem uma boa estrutura de serviços. Podemos citar o lixo (uma parceria entre governo e população), o abandono de nosso patrimônio histórico,  o descaso com o meio ambiente, não temos nem um mercado onde possamos reunir os nossos produtos regionais que são abundantes, não temos eficiência na saúde, na educação, na pesquisa científica,  na prevenção das drogas, no transporte coletivo. Não temos uma infra estrutura que facilite a vida dos valentes produtores trazendo com rapidez para a cidade o que é plantado e pescado na área rural. O resultado é que até o cheiro verde vem de fora. No interior a fruta ou estraga no pé ou chega a preço de ouro nas feirinhas que nada tem a oferecer. Preço alto e falta de higiene é o que merecemos pois isso não é assunto para o administrador da cidade. O mercadão continua lá, esperando, esperando, esperando...ah, lembrei...as pedras de Liós. Os portugueses que trouxeram para cá essas belas pedras e que têm mais histórias do que nós, continuam até hoje com suas calçadas de pedra, tão limpas que parecem enceradas. E o brasileiro continua fazendo piada de português, esquecendo que eles estão bem nós é que precisamos avançar.

Preciso falar de algo que está me incomodando muito. Como posso acreditar num governante que deixa abandonado um hospital onde nasceu a maioria dos manauenses, dos mais ricos aos mais pobres. Trata-se da Santa Casa de Misericórdia, um lugar que faz parte de nossa história cujo prédio está, literalmente, às moscas. Com o descaso das autoridades logo apareceu o verdadeiro dono que instalou por lá um pequeno negócio no setor de alimentos saudáveis. Não me admiro com o invasor, fico assustada é com a clientela que come, no centro, com o maior prazer do mundo esses salgadinhos empanados na poeira do antigo necrotério. Também já não é de assustar pois já vimos empadinhas recheadas com picadinho de gente, churrasquinho de gato e outras barbaridades desse tipo país afora.

Estamos nas mãos da má política. Até quando entendermos que “eles” vêm de nós. Profundo isso. Ao votarmos levados por impulsos do troca-troca estamos contribuindo para o declínio de toda a comunidade e apimentando a festinha dos corruptos.

(*) É escritora, jornalista e articulista do NCPAM/UFAM.

1 comentários:

Carlos Costa disse...

Concordo em gênero, numero e grau com tudo o que está escrito aqui pela colega, principalmente com o que você escreveu sobre a Santa Casa de Misericórdia de Manaus, onde conheci como diretor o Dr. João Lúcio Pereira Machado. Mas a Santa Casa tem uma história que caminhou junto com o apogeu e, depois, agonizou com a derrocada da Borracha, se recuperou depois, ganhou um novo fôlego na década de 80 e agora morreu de vez e não há passagem cardíaca que consiga ressuscitá-la novamente! Estou levantando dados para escrever uma crônica só sobre a Santa Casa. Um abraço,

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