quarta-feira, 8 de agosto de 2012

In Memoriam ao meu querido avô

3 comentários

Meu avô morreu faz pouco mais de dois anos, com quase 90. Escapou da velhice, tornou-se sábio. Após o AVC, passou a não mais desconversar a respeito da morte, consciente de que o tempo vivido, festejado ou sofrido impunha encarar com tranquilidade o mistério da eternidade. Meu avô passou seus últimos anos envolvidos no mistério da morte. Sem religião definida, ele sempre dizia que apenas a fé supera os ditames da razão.
Foi interessante a última conversa que tive com meu avô não lembro exatamente o dia, mais tenho certeza que o mês foi novembro de 2009, um ano muito difícil da minha vida. Meu avô foi o analfabeto mais inteligente que já conheci. Praticamente nunca saiu de Juruti. Ele ficava muito perplexo quando contava para ele das minhas aspirações. Quando falava da possibilidade de igualarmos as classes sociais. Aquelas histórias Marxistas que apreendemos no movimento estudantil nos tempos de secundarista.

Na verdade ele ficou perplexo comigo a vida inteira. Quando era adolescente queria sair de Juruti para ir morar com meus pais em Manaus para Estudar, era fascinado por história, por muitos anos pensei que minha formação seguiria para esse rumo. Anos depois fiquei apaixonado pelo Jornalismo, isso, se deu pela minha militância política, nos tempos do Movimento Estudantil. 

O nosso último encontro foi na sala de sua humilde residência em Juruti. Meu avô disse com os olhos trêmulos e já sabendo que a morte era inevitável, devido o seu estado de saúde, que o sonho dele era que eu virasse doutor.  

Confesso que cheguei perto, passei no vestibular, mas abandonei a faculdade no sétimo período de jornalismo. Ele morreu sem entender porque nunca me interessei em terminar a faculdade para depois virar doutor, como ele sempre sonhou.

Quando era adolescente detestava a perspectiva de passar minha vida inteira em Juruti. Quando voltei para Juruti em 2009, mais uma vez ele não entendeu. Acabei morando em Juruti naquele ano por mais de quatro meses.  

Não entendi os designíos do Grande Arquiteto do Universo. Aqueles quatro meses foram dados por Deus para me despedir do meu querido avô. Não tive espiritualidade para compreender o presente divino. 

Na madrugada quando retornei a Manaus, meu avô se despediu de mim, sentado em uma cadeira de madeira na cozinha de sua casa e pela primeira vez o vi chorando copiosamente. Ele disse com a voz já muito debilitada “meu filho vai com Deus”. Eu o abracei e me despedi dele. Despedida eterna. Foi meu último abraço. Apesar do corpo castigado pela doença, seu olhar continuava o mesmo de sempre.

Meu avô era um homem solitário e doente. Era um alcoólatra compulsivo. Mesmo com a doença conseguiu criar todos os seus filhos. Meu avô não deixou nenhum legado financeiro, mais deixou lições de vida que guardo pra sempre. Generosidade, honestidade, determinação e superação foram coisas que ele me deixou como herança.

Passei minha infância toda tendo vergonha do meu avô, devido seu problema com alcoolismo. Lembro que ele gostava de ir me pegar na escola e sempre chegava embriagado. Anos depois sofri com o mesmo problema. Fui escravo da doença que levou meu avô a morte, por quase cinco anos. Há nove meses luto para me libertar do problema que me fez desistir de virar doutor, como meu avô queria. 

Passei cinco anos da minha vida lutando contra um mostro que existia dentro de mim. Foram longos cinco anos.  Graças ao Grande Arquiteto do Universo consegui me libertar do problema e hoje sigo minha caminhada neste plano espiritual, sóbrio e sereno.

Na última semana paguei os débitos que tinha na faculdade e pedi meu retorno no curso que tranquei há sete anos. Depois que sai da faculdade sentei em um banco na Praça da Polícia. Lembrei-me dos olhos penetrante do meu avô, quando me despedi dele, naquela madrugada de novembro de 2009. Pensei na noite fria que percorri até o porto de Juruti. Pensei nos encontros e despedidas, entre meu avô e eu. Meu avô gostava dos encontros, mas, odiava as despedidas. Lembrei-me do seu chapéu de palha, senti seu abraço afetuoso. Lembrei-me da poesia escrita pelo mestre Alcides Werk....     

Hoje é dia de festa nesta casa:
Festa dos círios e das lamparinas.
Um corpo magro sobre a mesa, e aporta,
De esteira aberta para os companheiros

Beatas, terços, cafezinhos, estórias,
O choro inútil da mulher sozinha.
A promessa do céu dos escolhidos,
E uma herança de palha e de abandono.

Brasileiro, do norte, agricultor.
Semeou, semeou a vida inteira,
Fez o campo florir por tantas vezes,

Alimentou mil pássaros vadios,
Foi sempre bom, mas nunca teve sorte,
E se vestiu de trapos para Morte.

Honestidade, este é o maior legado por ele deixado: a crença na grandeza da pessoa humana, que me faz com alegria lembrar, da sua dignidade, não da sua morte, mas a sua vida repleta de ensinamentos.
Valeu meu avô!

Por: Alex Mendes 

3 comentários:

Anônimo disse...

Tive a felicidade de estudar com o Alex Mendes no Centro Universitário do Norte. Travamos intensos debates, sobre a política estudantil. Turma boa aquela! Compartilhamos de problemas parecidos e graças a Deus superados. Agora é olhar para frente e seguir. Parabéns meu amigo!

Bruno Marzo

Anônimo disse...

Filho ilustre de Juruti! Meu amigo e vizinho. “Breve irmão”! Esperamos você em Juruti para coordenar a equipe de transição do Governo de Lúcidia Batista.

Isaias Batista Neto

Anônimo disse...

Lendo esse artigo do Alex Mendes, lembrei da época da “Patrulha Salvadora”. Quando o Alex Mendes era conhecido como Carleu! Ainda bem que você decidiu pelo jornalismo, porque você não entendia nada de futebol. Era a ferida do nosso time. Bons tempos aqueles debaixo mangueirona. Parabéns meu amigo pelo artigo. Já faz uns cinco anos que não vou a Juruti. Depois que passei no concurso público para Policial Civil aqui em São Paulo, não pude, mas, visitar nossa cidade. Aproveito para mandar meus sentimentos para sua família, em especial para Dona Dezuca que perdeu o marido. Fica com Deus! Muito bons seus artigos lá no Blog do Isaias!

Edimilson vidinho

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