sábado, 25 de agosto de 2012

Cospe, Zé Bigodinho!

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 José Ribamar Bessa Freire
26/08/2012 - Diário do Amazonas

Não me lembro mais se o Gervásio era padre ou apenas irmão leigo. Sei que era religioso da Companhia de Jesus, que era belga e que migrou para o Peru, nos anos 1960, para atuar numa instituição denominada "Fe y Alegria". Devia ter uns trinta e poucos anos. A secretária dele, que não era freira, chamava-se Imelda ou talvez Begônia, não recordo, só sei que era, com todo respeito, uma chola gostosinha, dona de uma beleza acabocada. Disso, ninguém esquece.

Os dois, Gervásio e Imelda (acho que era Imelda mesmo), faziam parte de uma pequena equipe responsável por uma rede de escolas populares construídas nas favelas de Lima com palha, esteira e barro. Na época, mais de 10 mil alunos pobres recebiam educação de qualidade nessas escolas, que aproveitaram a experiência dos jesuítas em outros países: Venezuela, Equador e Panamá. Era um trabalho sério que continua ainda hoje, em prédios mais sólidos, de forma ampliada.

Nós conhecemos o Gervásio e a Begônia (ou seria Imelda?) em 1970. Nós, que eu digo, éramos três exilados brasileiros: Euclides Coelho de Souza e Adair Chevonika, que integravam o Teatro de Bonecos Dadá (TBD). O terceiro era esse locutor que vos fala. Ainda em Santiago do Chile, aderi ao grupo, quando então saímos para fazer teatro de títeres no Peru, que havia se tornado o epicentro de lutas políticas anti-imperialistas. Naquele momento, os militares nacionalizaram o petróleo e o cobre, desapropriaram as fazendas açucareiras e realizaram uma reforma agrária radical, cujo lema era: "Campesino, el patrón ya no comerá más de tu pobreza".

La ciudad de los tísicos

Os campesinos acreditaram que era mesmo pra valer. Quando chegamos a Lima, em 1970, o país estava fervilhando. Alugamos a garagem de uma casa em Magdalena del Mar, cuja dona, graças a Deus, não tinha carro. E era lá que morávamos. Podíamos até cozinhar num pequeno fogão elétrico, portátil, de uma só boca, onde fazíamos as refeições, que durante uma época se resumiam à sopa de cubinhos knorr, acompanhada de um pedaço de pão. Nosotros comíamos nuestra pobreza.

Por isso, diante de um quadro como esse, Euclides e Adair se apavoraram quando numa manhã, ao acordar, me viram, suado, cuspir sangue, depois de um acesso persistente de uma tosse seca, barulhenta, parecia até tosse de guariba. Queixei-me, ainda, de uma ligeira dor no peito.

- Pode ser tuberculose - diagnosticou com olhar clínico Miguelito, filho da dona Chela, nossa locatária. O "pode ser" era, na realidade, afirmativo, e soava como uma sentença. É que Miguelito não era um perico-de-los-palotes qualquer, ele trabalhava no Hospital Del Niño, seu discurso vinha da área médica, o que lhe conferia plena legitimidade e autoridade.

As pessoas do contra - sempre tem gente do contra para empentelhar - poderiam objetar que Miguelito não era médico, sequer enfermeiro, mas um mero auxiliar de serviços gerais no almoxarifado do Hospital Del Niño. Era verdade. Mas não importa. A credibilidade não diminuía, porque de qualquer forma, sua voz vinha de alguém que convivia com doenças.

Ele soube explorar o lugar de onde falava, demonstrando conhecimento da questão. Informou que Lima era a cidade que abrigava o maior número de tuberculosos do mundo, por causa do clima úmido e frio, da extrema pobreza, da fome e da subnutrição, que debilitavam o sistema imunológico das pessoas. Lembrou de um breve relato, um romance curto, do escritor peruano Abraham Valdelomar, intitulado La ciudad de los tísicos, cujo cenário é o centro de Lima, que exporta seus tuberculosos para Chosica, no sopé dos Andes, a 40 km da capital, situada a mil metros de altura e, por isso, é considerada ideal para curar esse tipo de doença.

Miguelito embasou seu discurso com toda uma fundamentação histórica, ilustrando-a com exemplos didáticos. Disse que a tuberculose havia atacado, no passado, até mesmo o Inca Tupac Yupanqui, que foi se curar em Jauja, cujo clima saudável era famoso. Dessa doença, não escapou nem mesmo Santa Rosa de Lima, que foi declarada a patrona dos tuberculosos. Por isso, no seu dia, 30 de agosto, se celebra no Peru o Dia do Tísico.

Se a tuberculose pegou o Inca e até uma santa, por que iria poupar um pobre pecador, mal alimentado e desapoderado, como o Zé Bigodinho, nome artístico que eu adotei no TBD, como referência a uma ridícula penugem que surgiu abaixo do meu nariz, mais rala e fina do que a de qualquer camponesa de Portugal.

Pulmões tímidos

Não havia qualquer dúvida. O diagnóstico estava feito. Faltava tomar as providências para a cura da doença. Tínhamos agendado uma reunião com Gervásio e Imelda (ou Begônia), para combinar as realizações de espetáculos de teatro de bonecos que íamos apresentar nas escolas de Fé y Alegria. Euclides falou:

- Esse é o momento de pedirmos um gesto de solidariedade do Gervásio, que ele arranje um médico para te examinar e talvez - quem sabe? - conseguimos até uma cesta básica de alimentos. Ou que realize uma rifa, podemos rifar um dos nossos bonecos, com a renda em benefício da cura da tuberculose.

Fomos para lá, levando minha tuberculose, minha tosse e um rolo de papel higiênico. No caminho, tive muitos acessos de tosse e cuspi dezenas de vezes, todas elas eram postas de sangue. Quando chegamos ao nosso destino, Euclides explicou a situação, dramatizando-a. Pediu ajuda e, como prova a ser exibida, ordenou:

- Mostra pra eles! Cospe, Zé Bigodinho!

A expectativa era grande. Todo mundo se reuniu num círculo. A tosse não vinha. Cuspi sobre o pedaço de papel higiênico, mas, para surpresa nossa, tratava-se de uma secreção branca, sadia, do tipo usado para colar selos em envelopes. Para quem tinha visto as cusparadas anteriores, parecia um milagre de Santa Rosa de Lima.

- Ele está nervoso - consertou meu amigo Euclides, ligeiramente decepcionado, dirigindo-se à plateia. Depois, me orientou:

- Não fica ansioso, meu filho. Relaxa e daqui a pouco tosse e cospe de novo.

Euclides implorou, em vão, muitas vezes, num tom suplicante:

- Cospe, Zé Bigodinho!

Repeti o gesto um infindável número de vezes, parecia até treinamento para campeonato de cuspe à distância. Em todas elas, invariavelmente, EM TODAS, só saía uma secreção de saliva branca, sem um pingo de sangue. A tuberculose estava definitivamente desmoralizada ou, então, era mesmo um milagre de Santa Rosa de Lima. Se Gervásio e Begônia (ou Imelda) não nos conhecessem, poderiam pensar que se tratava de um "golpe".

Saímos de mãos abanando. Já de regresso à casa, pelo caminho, voltei a cuspir. Saiu uma enorme posta de sangue. Tornei a cuspir: outra posta de sangue. Dei 383 espirros, tive 432 acessos de tosse e cuspi o dobro disso. Todas as vezes, TODAS, que cuspia, vinha com sangue. Peguei um esporro do meu amigo, que condenou o meu "excesso de timidez": "Já vi de tudo, mas tuberculose tímida é a primeira vez" - ele disse.

Lembrei dessa história porque escapei por pouco de comemorar o Dia dos Tísicos neste próximo dia 30 de agosto. O Euclides e a Adair vivem hoje no Paraná e estão aí mesmo para não me deixarem mentir. Quanto ao Gervásio, à Imelda (ou Begônia), francamente, não sei por onde andam.

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