segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Uma política educacional que resulte no desenvolvimento intelectual

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Márcio Souza (*)
 Fonte: NCPAM

O resultado foi o surgimento de intelectuais e escritores nativos da região, que contribuíram para formar um pensamento e pela primeira vez interpretaram aquela realidade (amazônica) unindo a vivência e a erudição. A base educacional montada neste final do século XIX, legou ao Brasil escritores como Inglês de Sousa e José Veríssimo.

É no marasmo do século XIX que a cultura será escamoteada ao povo, transformada em ritual ridículo e esvaziada de sentido. O poeta Gonçalves Dias, enviado ao Norte, 1853 pelo Império como membro da Comissão Científica de Exploração, visitou diversas escolas e incluiu em seu relatório de viagem em capítulo sobre a educação no Amazonas (Rio Negro e Solimões), registrou a pouca frequência às aulas e o fenômeno da rejeição da língua portuguesa por uma população de fala nheengatu, usada “em casa e nas ruas e em toda parte”. Os poucos que tinham recursos para frequentar uma escola ou uma universidade no sul do país ou no exterior, voltavam tão desligados da vida pacata que não conseguiam mais compreender sua terra natal.

Foi este relatório que desencadeou um programa educacional sem precedentes para o norte do império, provavelmente o único programa de grande extensão e investimento realizado pelo regime de Pedro II na área educacional. O resultado foi o surgimento de intelectuais e escritores nativos da região, que contribuíram para formar um pensamento e pela primeira vez interpretaram aquela realidade (amazônica) unindo a vivência e a erudição. A base educacional montada neste final do século XIX, legou ao Brasil escritores como Inglês de Sousa e José Veríssimo.

Em 1853, nasce em Óbidos, Pará, o romancista Inglês de Sousa. Filho de família abastada, estudou as primeiras letras em sua cidade natal, o que teria sido impossível tivesse nascido uma década antes, e a seguir formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo.

Herculano Marcos Inglês de Sousa, embora tenha sempre vivido longe de sua terra devido sua atividade como juiz de direito, jamais a esqueceu e toda a sua obra reflete uma aguda vivência e forte capacidade de observação crítica, fruto de uma infância entre gente de cultura, que formavam um microcosmo civilizatório nesta rica área de pecuária tradicional e fazendas de cacau.

Como o Missionário (1888), sua obra mais famosa, o autor introduz no Brasil o naturalismo, mas com um certo mormaço, uma certa sensualidade amazônica, sem a fria liturgia da escola europeia. Do mundo do cacau, anates do ciclo bahiano que nos daria Jorge Amado, Inglês de Sousa legou dois extraordinários romances: O Cacaulista (1876) e Coronel Sangrado (1877), que prenunciam o realismo crítico de Graciliano Ramos e José Lins do Rego.

Inglês de Sousa foi um homem influente em seu tempo e não apenas como romancista, Fundador com Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira número 28, cujo patrono era Joaquim Manuel de Almeida, exerceu o cargo de presidente das províncias de Sergipe e Espírito Santo, fixando-se mais tarde no Rio de Janeiro, onde foi jurista respeitado. Homem afinado com os rituais do poder, advogado sagaz e bem sucedido, Inglês de Souza, no entanto, escreveu obras densas, despidas de regionalismo. Uma visão nada complacente com as injustiças sociais e o abandono do homem comum na Amazônia. Ao lado José Veríssimo, outra grande figura amazônica daqueles tempos difíceis e tristes, Inglês de Sousa compõe a dupla de homens de letras nascidos no grande vale.

José Veríssimo, também de Óbidos, Pará, onde nasceu em 1857, estudou suas primeiras letras em Manaus, cursando mais tarde, no Rio de Janeiro, a Escola Politécnica. Na opinião de seus contemporâneos e no julgamento da posteridade, foi uma das maiores cultura de sua época, além de escritor primoroso e crítico literário severo. Sua obra mais importante é a História da Literatura Brasileira (1916), onde se contrapõe ao nacionalismo positivista e cheio de parcialidade do crítico Sílvio Romero, seu rival no campo da crítica literária. Seus Estudos de Literatura Brasileira reúnem observações nada impressionistas sobre nossa literatura.

(*) É escritor, dramaturgo e articulista de a Crítica.     

1 comentários:

Carlos Costa disse...

Parabéns, Márcio. Informações primorosas. Um abraço,

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