terça-feira, 25 de setembro de 2012

A Lucta Social: uma homenagem ao Poeta Farias de Carvalho autor do poema “Meu Canto Novo”

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Poeta Carlos Farias Ouro de Carvalho

Se vivo estivesse o Poeta Farias de Carvalho, teria completado no dia 8 de setembro 82 anos de idade, no mês do seu nascimento, estamos prestando uma singela homenagem a esse inesquecível poeta, editando neste espaço A Lucta Social, um de seus mais conhecidos e declamado poema “Meu Canto Novo”, uma critica social que somente a sensibilidade poética dos grandes imortais, é capaz de traduzir o sofrimento dos que produzem a riqueza em uma obra literária que transcende os tempos, porém, muito atual diante das calamidades sociais que insiste em permanecer “mais vivo e mais cortante, na voz daquela operária buchuda que está enganando o menino de olhos fundos: “DORME, FILHINHO, DORME, TEU PAPAI VAI TRAZER DOCES”“.

Carlos Farias Ouro de Carvalho nasceu em 8 de setembro de 1930, em Manaus. Tendo sido professor de Português e Literatura Brasileira do Colégio Estadual Pedro II, em sua cidade natal, era também orador de grande poder encantatório, graças ao manejo das palavras e à riqueza dos argumentos. Jornalista destacado colaborou em diversos jornais de Manaus. Foi Deputado Estadual e, depois, serviu como funcionário no Senado Federal, em Brasília. Tendo sido membro fundador e depois presidente do Clube da Madrugada, em Manaus, estreou na poesia com Pássaro de cinza (Manaus, 1957; reeditado pela Valer em 2000, no âmbito da Coleção Resgate). Seu segundo livro de poemas foi Cartilha do bem amar com lições de bem sofrer (Manaus, 1965). Faleceu em Niterói em 25 de junho de 1997, de acordo com o site  ( Antônio Miranda)

MEU CANTO NOVO
Farias de Carvalho

Hoje eu queria escrever um poema diferente
sem o chiquê das formas elegantes
e a rotina das velhas tradições;
um poema duro, pegajoso, como o músculo e o suor
dos que constroem os séculos e carregam todo peso do mundo sobre os ombros;
plantar nele um jardim de cores tristes
onde rebentem como camélias pálidas
as caras magras das crianças sujas
que andam estendendo as mãos pelas esquinas;
depois, borrá-lo com o vermelho vivo
do sangue odiento das hemoptises
dos que vivem como cães abandonados
vomitando os pulmões pelas sarjetas;
inventar no meu canto, um outro gólgota,
crucificar Jesus mais uma vez,
para acordar o grande sacrifício
no coração dos homens que esqueceram;
enrolar as estrofes como relhos e zurzir, não sei quantas mil vezes,
a consciência feudal dos potentados
que o hão de ler, por certo, com desprezo,
durante a sesta, depois da bóia gorda
onde engolem guisados ou em fatias
a vida triste dos que empurram o mundo,
nos lares, nos mares, nos ares,
nos campos, nas campas, nos pampas,
e depois de toda uma existência,
de sangue, suor, e pranto e escravidão,
viram chocalhos de ossos e terminam
de mão magra a pedir pão.
Quero montar meu poema como um louco
e sair galopando mundo afora
clarinando mensagens esquecidas,
beijando a mão de pele ressequida
do camponês que anda enchendo a terra
de sementes, de dor e de esperanças;
cantar o heroísmo anônimo e gigante
das mulheres que nunca foram santas
e andam parindo nas estrebarias,
pobres crianças que ninguém adora
porque já nasceram implacavelmente
pregadas à cruz de sacrifícios infindáveis
cada uma delas a lembrar Jesus:
sem lar, sem pão, sem amor e sem luz.
Quero escrever um poema diferente...
Para escutá-lo,
ninguém vai precisar de broadcasting,
basta jogar o ouvido pelo mundo
para ouvir meu poema repetido
no lamento das negras chaminés,
no roncar dos estômagos vazios
e senti-lo, mais vivo e mais cortante,
na voz daquela operária buchuda
que está enganando o menino de olhos fundos:
"DORME, FILHINHO, DORME,
TEU PAPAI VAI TRAZER DOCES"...
Hoje eu queria escrever um poema diferente...

Farias de Carvalho

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