sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Serenata não tem idade

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Ellza Souza (*)

Estive num evento no Parque do Idoso e o que vi me deixou em dúvida quanto à velhice, aquela velhice que conhecemos de uma pessoa encurvada, triste, solitária, sentada numa cadeira de balanço. De cara passei a paquerar um velho magrinho, de calça jeans, camiseta branca, sandália havaiana azul, óculos e boina, que rodopiava harmoniosamente no salão. A festa que acontece todas as quintas teve início às dez horas de uma clara manhã de muito calor.  No salão dançavam alguns casais e a mulherada que animada não precisa de par para dançar e se espalhavam soltas pelo lugar. Houve apresentação de muitos cantores, todos, homens e mulheres frequentadores do Parque.

No projeto “Seresta, Prosa e Poesia”  tem música, dança, poesia, canto e nessa quinta, dia 18, aconteceu no local o lançamento do livro de Elisa Bessa chamado Histórias para Minha Tia Dormir. A animação daquelas pessoas já maiores de idade não tem limites e me lembrou os tempos das manhãs de sol do São Raimundo Esporte Clube no bairro do mesmo nome, quando eu ficava no janelão do lado de fora do clube só apreciando os afoitos casais que rodopiavam no salão. Nunca aprendi a dançar mas adoro festa nem que seja só pra olhar e escutar um bolerão ou samba que era o que mais rolava na serenata do parque.

Peguei o velhinho na passagem e perguntei sua idade. Ele vacilou um pouco e respondeu: meia cinco. Duvidei um pouco mas falei pra ele que havia gostado de sua performance. Quando parou a banda de música e ficou somente o dj tocando, o “velhinho” sentou ao meu lado na mesa em que eu estava e comecei a fazer perguntas. Ele confirmou ter apenas 65. Pedreiro aposentado, viúvo, mora nas proximidades, 6 filhos e segundo me informaram é mais conhecido por “Gasparzinho”. Ele me contou que ao se aposentar com um salário mínimo e depois que sua esposa faleceu achou que nada mais lhe restava a fazer e vivia em casa triste e calado. Um dia resolveu visitar o Parque e nunca mais parou de dançar com aquela mulherada animada e incansável. O Gasparzinho tem um jogo de cintura e um molejo que chamou a minha atenção logo de cara. Ele reviveu com a dança, a amizade, a alegria daquelas pessoas que estão longe de serem consideradas idosas. Vi pessoas maduras, alegres, saudáveis, felizes. Vi a vida que segue.

(*) É escritora, jornalista e articulista do NCPM/UFAM.

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