segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

ALÔ ANO NOVO!

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No ombro do caboclo: fardos pesados transportam a riqueza de Manaus.
Valter Calheiros (*)
Carregadores subindo as escadarias dos Remédios (Foto: Valter Calheiros)
Registrar com lentes da máquina fotográfica o cotidiano de nossa gente proporciona observar maneiras e práticas que inquestionavelmente nos levam a afirmar que há verdadeiramente em nossa cidade um grande número de pessoas que possuem a esperança de um dia vencer na vida e que apesar das dificuldades estão nas ruas, escadarias e feiras sem desanimar!
Mercadoria do barco a caminho da feira. (Foto: Valter Calheiros)
            Para os manauaras bem sucedidos financeiramente e incluídos no grupo daqueles que gozam das riquezas produzidas no Polo Industrial, esta terra faz parte de um paraíso conquistada como herança. Nota-se, também, que a maioria deles é detentor do poder político e econômico, tornando-os ainda mais responsáveis pelos destinos do povo. Mas, é oportuno lembrar que para muitos deles lhes falta à capacidade de partilhar as riquezas aqui produzidas. Para essa parcela da sociedade, benefícios fiscais são religiosamente distribuídos, enquanto isso a maioria da população paga altíssimos impostos ao comprar um pão ou um kg de feijão.
Carregador transportando um saco de macaxeira. (Foto: Valter Calheiros)
Os registros do IBGE-2010 mostra a capital amazonense entre as seis cidades brasileiras com os maiores índices na produção da riqueza nacional. Segundo o IBGE a capital amazonense participa com 1,3% de toda a riqueza produzida no Brasil, sendo a maior parte do índice proveniente da produção do Pólo Industrial de Manaus.
Tambaqui: da canoa para a feira. (Foto: Valter Calheiros)
Esses dados deixam evidentes que vivemos sob uma brutal concentração de renda, fazendo surgir programas sociais compensatórios ou complementar como é o caso do Bolsa Família municipal, que segundo a Prefeitura no ano de 2012 mais de 66 mil famílias foram beneficiadas com o complemento de renda no valor de R$ 60,00 mensais. Fica a pergunta: é assim que vamos recuperar a história de tanta gente? Será que não estamos escondendo a realidade vivida por centenas de famílias que historicamente foram excluídas na divisão de nossas riquezas?
Um forno de farinha para o interior (Foto: Valter Calheiros)
Com o olhar direcionado aos trabalhadores que ganham seu sustento nas redondezas do Porto da Escadaria dos Remédios, temos como resultado a constatação que estamos diante de um diagnostico preocupante “existe ali trabalhadores exercendo atividades em condições degradantes”. Em alguns casos a cena chega a ser desumana, mesmo assim, a sociedade assiste passivamente o trabalho de centenas de caboclos que aqui chegaram em busca de emprego, educação e saúde para suas famílias.
E mais um saco de macaxeira no ombro do trabalhador. (Foto: Valter Calheiros)
Diante da paisagem que assistimos diariamente, não é difícil realizar uma aferição e quantificar em centenas as famílias que aqui chegaram e ainda possuem a esperança de conquistar vida nova na capital, mas constata-se que aos poucos a prostituição, a bebida e outras drogas estão se somando aos fardos e caixotes pesados, capazes de fazer o homem esquecer seus sonhos e trocá-los por minguados trocados, sendo esta a única forma de participar do pulsante progresso de nossa rica terra.
Do barco para a feira, mais dois fardos.  (Foto: Valter Calheiros)
Constatação feita, os registros fotográficos dão a dimensão de nossa incompetência política em não proporcionarmos alternativas que nos leve a partilhar esta herança milenar que é a Amazônia. Para o novo prefeito e aos novos vereadores fica o alerta: necessitamos com urgência de políticos com capacidade afetiva e administrativa, com compromisso ético e visão do todo. Basta de cumpridores de rasas e pontuais promessas de campanha! A superação destas práticas parece está na promoção de uma educação recheada de vida e gestos concretos, onde cidadania seja fruto colhido e apreciado por nossas crianças e jovens!
Carregador com mais uma entrega. (Foto: Valter Calheiros)
Em seu artigo 5ª a Constituição Federal de 1988 declara que “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”, destacando também que “ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante”. No entanto, o que afirma a lei não é o que se constata na Escadaria dos Remédios e no entorno da Feira Manaus Moderna! Neste espaço publico o problema se apresenta sem pudor na porta de entrada de nossa cidade. A sociedade necessita encontrar novos caminhos dando prioridade a essa gente que carrega alimentos e estivas, sujeitando-se a transportar nos ombros peso além do limite que a capacidade do corpo humano aguenta, como se o ombro humano fosse uma carroceria.
Carregador subindo as escadarias com três fardos no ombro (Foto: Valter Calheiros) 
Os protagonistas da brutal condição imposta aos trabalhadores são sem dúvida os nossos governantes, que banalizam o dinheiro publico quando pagam um bilhão para construir uma ponte, deixando de lado a opção da estrada natural - o rio negro; quando gastam milhões para construir um novo estádio de futebol, numa cidade que possui carência de novos prédios públicos destinados à educação e saúde; quando destinam milhões de reais a prazeres culturais restritos a poucos como o festival de cinema, ópera e tantos outros, para tais espetáculos destinados a uma minoria privilegiada de cidadãos não há restrições orçamentarias. Enquanto isso, centenas de trabalhadores, empilham nos ombros o peso do fardo e das injustiças da vida!
Carregador entregando tucumã na feira. (Foto: Valter Calheiros)
Mudar esta realidade passa em primeiro lugar pelo reconhecimento da sociedade de que as pessoas submetidas a esse sofrimento possuem os mesmos direitos que assiste às demais categorias de trabalhadores. A maior metrópole do norte brasileiro não pode considerar este fato como fenômeno natural, pois a existência e aceitação desta realidade demonstra que somos uma sociedade detentora de baixíssima capacidade política e humana, pois não conseguimos diferenciar o homem de um fardo.
Cena diária – na cheia ou na vazante do rio negro. (Foto: Valter Calheiros)
            Em nome da esperança que se renova a cada ano novo, temos que repudiar e reagir, pois há uma centena de trabalhadores esperando por um olhar humanizado que os vejam! Não é possível mais ficarmos calados, precisamos fazer ecoar as palavras de Jesus proclamadas no evangelho de Mateus 23,1-4:

Jesus falou às multidões e aos seus discípulos:
“os doutores da Lei e os fariseus tem autoridade para interpretar a Lei de Moisés. Por isso, vocês devem fazer e observar tudo o que eles dizem. Mas não imitem suas ações, pois eles falam e não praticam. Amarram pesados fardos e os colocam no ombro dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem sequer com um dedo”.

(*) Educador Salesiano, pesquisador e fotografo do Movimento Socioambiental SOS Encontro das Águas. Pós-Graduado em Pesquisa e Ação Social pela Faculdade Tahirih – Manaus / Amazonas.


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