segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Olho d’água

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Ademir Ramos (*)

Nesse mergulho quero viajar com os olhos fechados no imaginário das formas dos rios, buscando aprender com a tradição a cartografia que nos leva a compreender a formação humana impressa nesses corpos d’águas que, pela cultura ganharam a dimensão humana anatômica para explicar, não só a origem, mas a sua própria constituição relacionada à vida, como parte extensiva da formação das humanidades por todo o planeta. É verdade que nestas relações o homem se faz notar pela designação dada aos elementos da natureza comparando-a com a sua própria forma ou quem sabe, de acordo com o seu desenvolvimento linguístico tornam-se aptos a formular conceitos capazes de traduzir a diversidade contida na natureza como modo de domá-la e domesticá-la para seus determinados fins.

Além dessa materialidade expressa nas práticas culturais dessas sociedades por meio das relações de trabalho, os homens formularam também uma linguagem simbólica para representar o cotidiano, o futuro e o desconhecido. Essas linguagens foram representadas em diversos ícones, que ao longo do tempo serviram também para assentar estruturas de pensamento vindo mais tarde qualificar dos demais agregados humanos pela sua competência e habilidade frente à natureza e as outras culturas.

A beleza dessa diversidade se faz notar nas culturas humanas e consequentemente na natureza em que estão inseridas. É o caso explicativo do “olho d’água”, que brota da natureza multiplicando a vida e ganhando forma de corpo humano a se esparramar fogosamente pelos vales, planaltos e planícies (várzeas e terras firmes), nutrindo o ambiente com suas formas monumentais. Na Amazônia, essas formas, anatomicamente, são chamadas de braços, bocas e costas de rio, instituindo assim, uma estreita relação entre a natureza e as culturas humanas que aqui vivem. Em outras palavras, os rios e as florestas são culturalmente extensão do corpo humano, que para viver necessita do hálito das florestas.

O que passa a inquietar a todos é a reduz dos bens ambientais aos interesses econômicos de mercado. Esse processo ocorre de forma autoritária capitaneada por grupos poderosos que aparelham o Estado, comprando determinados políticos e lideranças sociais para satisfação de seus interesses imediatos cumulativos. Na Amazônia, a qualquer momento somos afrontados por projeto desse quilate que, valendo da perversa desigualdade social em que se encontra a nossa gente, prometem mundos e fundos para realização dos monstrengos ambientais, fragilizando muito mais o nosso povo e acelerando a devastação de nossas florestas e a morte dos espíritos visagentos que povoam o imaginário amazônico dando sustentação a vida em nosso planeta.          

(*) É professor, antropólogo e coordenador do projeto Jaraqui e do NCPAM/UFAM.

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