segunda-feira, 11 de março de 2013

Barata na pizza

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E assim caminha a humanidade, reduzindo os homens em baratas e ratos enquanto seus mandatários vivem na gastança, alimentando outros insetos nos aposentos palacianos.

Ademir Ramos (*)

O encontro é sempre uma grande descoberta para satisfazer vontade, querência e, sobretudo, o prazer de estar juntos, compartilhando da mesa e das ideias por meio de um diálogo fraterno e salutar. E por falar nisso, levei um baita susto esta semana, quando reunidos, aptos para o banquete, abrimos a caixa da pizza e deparamos com uma barata no pedaço. Total desconforto e constrangimento para a barata que esperava estar só em seu banquete. De pronto, foi perseguida pelos famintos chegando a óbito por ter violado o espaço dos humanoides e também por ter decepcionada aos convivas.

O que dizer da cena e como descrever na sua inteireza para melhor compreender a estranheza da barata, que por algum momento deve ter se achado a realeza da pizza, sendo perturbada pelas pessoas que pensavam serem também as únicas a usufruir daquele momento fraterno marcado por reciprocidade e ternura.

As especulações foram muitas sobre a origem da barata. O fato é que desde quando o mundo é mundo e os homens se transformaram em “bípedes implumes”, a barata está em fricção com os agregados humanos. Em algum momento se dá por vitoriosa e em outros é fatalmente perseguida reduzida a pó de mico ou como parte da cadeia alimentar de algumas culturas.

Esta por sua vez faz pensar na condição do homem como vetor. Visto que o automóvel não é só instrumento dos humanos é também locação das baratas e, não venha dizer que o ocorrido resulta da condição higiênica do carro. O fato é que a barata faz parte do habitat humano há séculos. No entanto, o processo civilizatório não contempla a cascuda em seu universo e assim a guerra foi declarada, requerendo da indústria química poderosos produtos visando o mal das baratas para o bem do mercado.

Na trama social, os excluídos, explorados e dominados sentem-se tão perseguidos quanto às baratas, pena que não podem fugir pelos esgotos porque já vivem em condições desumanas concorrendo com as baratas, ratos e outros indesejáveis do sistema. E assim caminha a humanidade, reduzindo os homens em baratas e ratos enquanto seus mandatários vivem na gastança, alimentando outros insetos nos aposentos palacianos, transformando a política em pizza e a resistência da barata povo contra os inseticidas da corrupção e da impunidade, vivendo de teimoso por acreditar que ainda é capaz de se emancipar da bolsa família e outras migalhas compensatórias instituídas para amenizar o ataque dos miseráveis contra o megainteresse do poderio econômico em conluio com os políticos de estado. Pior do que as baratas e os ratos são os governantes e políticos tipo net que se afirmam na ignorância, ganhando o povo pela boca e a classe média pelos favores.        

(*) É professor, antropólogo e coordenador do NCPAM/UFAM.  

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