terça-feira, 16 de abril de 2013

AMAZÔNIA — USINA DE ALIMENTOS PARA O TERCEIRO MILÊNIO - "Evandro Carreira"

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Senador da Republica pelo Amazonas na década de 70, Evandro das Neves Carreira conseguiu colocar no cenário politico nacional e Internacional, a necessidade da preservação da floresta Amazônica, para ele, “É estúpida temeridade, crassa incompetência e crime de lesa-humanidade, pretender-se implantar na Amazónia projetos económicos que impliquem na derrubada da floresta nativa, a destruir ecossistemas que guardam segredos biológicos ainda não desvendados e fabricam complexas cadeias de hidrocarbonetos, de substâncias orgânicas capazes de saciar a fome do mundo.”

Considero Evandro Carreira, um dos maiores Ecossocialistas contemporâneo, suas obras como o “Recado Amazônico”, trazem profundas reflexões sobre a importância desse imenso e ao mesmo tempo, frágil ecossistema amazônico para a humanidade, dai a necessidade de não medirmos esforços para evitar que grupos econômicos poderosos financeiramente, nacionais e transnacionais, que, a pretexto de impulsionar o desenvolvimento do país, venham dilapidar a floresta Amazônica, com grandes projetos hidrelétricos, mineradores e agropecuários, cujo a consequência,  será o comprometimento do futuro da humanidade na terra!

Prefaciado pelo Dr. Ghillean T. Prance, levo ao conhecimento dos nossos leitores, o livro “AMAZÓNIA — USINA DE ALIMENTOS PARA O TERCEIRO MILÉNIO” de Evandro Carreira, onde ele faz uma ligeira abordagem das verdadeiras vocações da Amazônia, boa leitura!

Elson de Melo – Sindicalista
  
AMAZÓNIA — USINA DE ALIMENTOS PARA O TERCEIRO MILÉNIO

REFÁCIO
Pelo Doutor Ghillean T. Prance — Ph.D., FLS Vice-Presidente da Divisão de Ciências e Diretor do Instituto de Economia Botânica do Jardim Botânico de Nova Iorque —- EEUU

Pouquíssimos visionários têm percebido o real valor da floresta tropical da Amazônia e sugerido que as florestas devem se constituir em si mesmas como unidades produtivas, ao invés de serem devastadas e substituídas por pequenos núcleos de produção agrícola. Um desses iluminados profetas em relação ao futuro da Amazónia é Evandro Carreira. É natural que as observações que ele coloca neste trabalho partam de alguém nascido e criado na Região Amazônica, com toda uma vida de experiência na região e que ame suas vastas florestas e grandes rios.

O futuro da Região Amazônica deve combinar conservação e utilização. Os desenvolvimentistas devem se aliar aos preservacionistas e estabelecer uma maneira racional de uso da Região Amazônica. A Amazónia não pode se constituir em um campo de lazer para os naturalistas dos países do hemisfério norte, destinado a conduzir suas pesquisas esotéricas e nem pode se transformar em uma massa erodida e devastada de capoeira ou pasto bovino abandonado, nem muito menos ser região de proliferação de fazendas. O valor desse documento de Evandro Carreira é que ele procura combinar a preservação do ecossistema da floresta com maneiras de tornar a região produtiva. O futuro certamente repousa muito mais na floresta do que na agricultura.

Num só hectare de floresta tropical, nas proximidades de Manaus, há 350 árvores de 15cm de diâmetro ou mais e 179 bioespécies. Isso significa uma enorme diversidade biológica para muitos usos e grande produtividade biológica em termos de biomassa e energia. Se essa área fosse transformada em pastagem para gado, não seria suficiente para o sustento de um só animal, que exige mais de um hectare para viver na Amazónia, Poderia isso se constituir em um uso racional de terra aproveitável? Penso que não!

Outro hectare da floresta Amazônica no território índio de Chacabo, na Bolívia, foi estudado pelo cientista Brian M. Boom. Ele descobriu que os índios usavam 82 por cento das espécies vegetais daquele hectare ou 95 por cento de cada árvore. Evandro Carreira está correto quando afirma que a tecnologia indígena é uma das indicações que deveríamos seguir para uma utilização mais racional da floresta tropical da Amazônia.

Espero que o convincente apelo em fa¬vor da floresta tropical Amazônica que se segue, seja amplamente lido e ouvido. Se outros passos forem dados no sentido da erradicação da floresta, levarão ao desastre. No entanto, sem a eliminação da floresta, a Amazónia pode ser uma região altamente produtiva, capaz de dar sustento a sua população e ingressar de maneira positiva na economia do País. Como é dito a seguir, presentemente pouco se sabe a respeito da região. Vamos dar tempo para se proceder as pesquisas que nos dirão como melhor usar a região. A descoberta da maneira mais prudente de seu uso, não nos trará nenhum benefício depois que a floresta for devastada e o clima mudado. Façamos com que essa pesquisa seja feita pela combinação de esforços daqueles que se preocupam com o aspecto económico da região e daqueles que se preocupam com a preservação de sua diversidade biótica. Continue no bom trabalho, Evandro Carreira.

AMAZÓNIA — USINA DE ALIMENTOS PARA O TERCEIRO MILÉNIO
Evandro Carreira¨

A moeda internacional do Terceiro Milênio será proteína e não dólar ou petróleo.

O país que possuir alimentos com abundância para agredir no mercado internacional e suprir a humanidade cada dia mais numerosa e carente, deterá a hegemonia do mundo.

A Amazónia é uma gigantesca e opulenta usina proteica natural, construída pela Consciência Cósmica durante milhões de anos, e desde que compreendida, potencializada ou estimulada em larga escala de produção, nos seus princípios originais de acordo com os ditames da natureza, será capaz de alimentar a humanidade até a consumação dos séculos.

Este axioma deverá constituir alento às perspectivas do planeta, além de fato altamente promissor para os interesses da economia nacional.

Por outro lado, é estúpida temeridade, crassa incompetência e crime de lesa-humanidade, pretender-se implantar na Amazónia projetos económicos que impliquem na derrubada da floresta nativa, a destruir ecossistemas que guardam segredos biológicos ainda não desvendados e fabricam complexas cadeias de hidrocarbonetos, de substâncias orgânicas capazes de saciar a fome do mundo.

Dilapidar a floresta amazônica é ato pecaminoso e suicida desta civilização antropofágica imediatista, estimulada pela megatecnologia consumista, concentradora da poder e riqueza em mãos de poucos, em detrimento da maioria esmagadora dos habitantes da terra, sufocados, famintos e desesperançados.

HIDROESFINGE

A Amazónia, de fato, ainda se reveste de mistério — enigma que se pode denominar de hidroesfinge — tal a magnitude de sua complexa tessitura biológica,, de cujos labirintos e escaninhos emergem fenómenos sui generis, que concluem por uma biogeocenose ainda não delineada pela ciência.

Três quartos das espécies vegetais e animais que compõem o universo amazônico ainda não foram inventariados nem classificados. Suas ecônomas são totalmente ignoradas e — o mais aterrador — há um desconhecimento absoluto sobre o evidente inter-relacionamento dos seres vivos na mesologia amazônica. Não se conhece nada, absolutamente nada, da zoofitossociologia hiléica, o que, trocado em miúdos, quer dizer: ninguém sabe quem é quem, quem depende de quem, quem ama ou odeia quem no contexto da natureza amazônica. São miríades de seres diferentes, fervilhando em cada um dos milhares de ecossistemas, completamente desconhecidos do homem civilizado, este que se arvora em dono absoluto da Amazónia e se acha com direitos de modificá-la, sem ouvir a ciência, mas os interesses de um capitalismo canibalesco, inconsequente e egocêntrico, que já devastou e destruiu quase todas as grandes florestas do planeta, como soíam ser a europeia; a norte-africana; a norte-americana; as do sudeste asiático; a atlântica brasileira, hoje deserto nordestino, depois do extermínio do pau-brasil e do jacarandá; a floresta araucária do Sudeste brasileiro; e, presentemente, a floresta amazônica, submetida a acelerado e brutal processo de devastação, patrocinado pelo Governo Federal e executado por empresas nacionais e multinacionais. O desmatamento já atingiu cerca de dez por cento da área global da Hiléia, sendo pontos mais críticos o sul, leste e nordeste do Pará, norte de Goiás e Mato Grosso, leste de Kon-dônia e zonas intermitentes do Acre.

Verifica-se, ainda na Amazónia, o criminoso aniquilamento das matas de terra firme do norte de Almeirim (PA) e oeste do Amapá, pelo famigerado Projeto Jari, do multimilionário norte americano Daniel Keith Ludwig.

A biota amazônica está profundamente ligada ao processo de fotossíntese, de mutualismos e de simbioses como o fenómeno micorrizo — bactérias, liquens, amebas, fungos, algas, extrametabólitos (ecônomas) etc., que atuam isolados ou em colónias nas raízes das plantas, assim como na fisiologia dos solos, numa perfeita e constante interação, analisando e sintetizando elementos para a manutenção da soberba e inigualável sinfonia biológica que é a usina fotossintética amazônica.

A árvore na Amazónia é apenas uma das peças fundamentais da usina, de par com a floresta. Pode-se enumerar uma série de outros componentes, relacionados entre si, a saber: rio, calor, chuva, umidade. ventos, evapotranspiração etc. Há milhares de outras peças igualmente importantes na funcionalidade da usina, como a fauna silvestre, incluindo aves e insetos, as culturas indígenas com suas práticas naturalistas ultramilenares, em perfeita harmonia com o ambiente, afora os microrganismos já mencionados.

O sol, central cosmofísica de raios e energias, muitos deles ainda desconhecidos da ciência contemporânea, cumpre o papel mais importante e vital como fonte energética alimentadora da grande usina fotossintética e a função essencial de regulador de fluxos — equilíbrio homeostático — para a perfeita harmonia e estabilidade do ambiente em que opera a usina.

VISÃO ECONÓMICA

Pelo que já ficou implícito, urge que se interprete a Hiléia Amazônica dentro de uma ótica futurista, levando em conta sua importância como elo da cadeia biológica do planeta, fator de equilíbrio homeostático e, sobretudo, o seu magno papel económico como usina de alimentos para suprir o mundo.

Convém enfatizar que a árvore na Amazônia tem valor singular e absoluto, como um dos principais componentes da usina, repudiando todo e qualquer valor econômico imediatista que se lhe queira atribuir e exigindo a compreensão do seu macrovalor ecológico.

O verdadeiro desenvolvimento da Amazônia jamais será alcançado enquanto os militares, os políticos, os planejadores, os empresários, os trabalhadores e toda a nação brasileira não atentarem, com absoluta consciência e prioridade, para os valores naturais da biota como parâmetros básicos dos investimentos económicos, inserinao-os na própria estrutura cultural e histórica da nacionalidade.

Todo conceito desenvolvimentista ou projeto económico para a Amazónia que não venha a se ajustar às imposições ecológicas, ou que não se fundamente cientificamente no desvendar do equilíbrio homeostático da Hiléia, será alheio à realidade e devastador da natureza. Desgraçadamente, esse desvendar ainda não aconteceu, malgrado os bilhões e bilhões de cruzeiros aplicados em falsos projetos de "desenvolvimento" da Amazónia.

Efetivamente, dentro deste enfoque biológico, ecológico e económico da Amazónia como usina natural de alimentos, a economia deve ser, necessariamente, um capítulo da ecologia.

O autêntico e imediato destino económico da biota amazônica está na sua inequívoca vocação hidrográfica, valendo todos os corolários dela decorrentes. As próprias vocações mineralógica, zoosilvestre e hidrelétrica dependeriam de assentamentos conforme o equilíbrio hidroecológico dos ecossistemas.

Nós. amazônidas, precisamos romper o casulo copista, precisamos denunciar todo o comportamento macaqueador que o espírito colonialista nos impingiu nestes quase cinco séculos de escravidão, de devastação e de extermínio do índio, único intérprete legítimo da soberba sinfonia amazônica.

Os mais legítimos corolários da grande vocação hidrográfica da Amazónia estão naquilo que ela pode prodigalizar espontaneamente, sem ser necessário agredi-la em sua integridade original, mas apenas estimular ou potencializar seus imensos recursos naturais, mediante uso adequado e preciso de uma tecnologia avançada, conforme se expõe a seguir.

VOCAÇÃO HIDROVIÁRIA

A Amazónia não é um continente litosférico, porém um enorme arquipélago — uma polinésia fluvial — que dita, obviamente, uma política de transporte exclusivamente hidroviária, admitindo, para ligar talvegues e pontos estratégicos, com transporte rápido, um aeroviarismo e um ferroviarismo adequados às circunstâncias ecológicas; jamais, em hipótese alguma, o rodoviarismo nefando.

Abrir estradas na Amazónia é crime contra a natureza e contra a humanidade, porquanto destrói a hidroesfinge ainda indecifrada, solapando as bases da usina fotossintética e aniquila as culturas indígenas — únicas capazes de fornecer o fio de Ariadne que nos orientaria pelo labirinto amazônico. Facilita ainda, o que é muito grave, a invasão da megausina pelas patas do homem e do boi — dois vândalos a quebrar e a incendiar o mais soberbo milagre biológico do Planeta Terra, que é a biogeocenose amazônica.

A Amazónia, como usina de alimentos para suprir o mundo, não precisa ser ocupada pelas patas do homem, mas por cérebros capazes de estudar e compreender o seu funcionamento, pondo-a a serviço de toda a humanidade.

A análise das vantagens comparativas na política de transporte, em qualquer parte do mundo, sempre deu prioridade absoluta à hidrovia.

Na Amazónia, onde milhares de rios e paranás remontam a fabulosa extensão aproximada de 100 mil quilómetros navegáveis, vasculhando a grande planície em todos os quadrantes, dos quais cerca de 20 mil quilômetros oferecem, originalmente, acesso a embarcações de calado transoceânico, a Vocação Hidrográfica é, efetivamente, uma imposição indiscutível, mormente diante de uma consequência ainda mais absoluta, que é a possibilidade inegável de ampliação da rede potamográfica navegável, em múltiplas vezes, mediante dragagem, construção de novos canais comunicantes e de pequenas e médias barragens com eclusas.

Como complementos do macrossistema hidroviário transamazônico, dever-se-ão adotar sistemas perfeitamente adaptados às condições ambientais da biota amazônica, seja, como já dito, para atender às prioridades de transporte mais veloz a grandes distâncias, ou como meio de ligação entre talvegues adjacentes e centros de interesse geopolítieo, económico e militar.

 implantação de infra-estruturas aeroviárias, dando ênfase ao balão dirigível de alta tonelagem, será a solução mais coerente e viável, que não causará danos aos ecossistemas, e substituirá o atual rodoviarismo transamazônico devastador e fracassado, estabelecido mercê de uma política governamental caolha, irrealista, imediatista e comprometida, executada por homens completamente divorciados da realidade amazônica.

A exeqüibilidade da utilização de dirigíveis de alta tonelagem está agora confirmada por experiências levadas a efeito pelo Centro Tecnológico Aeroespacial de São José dos Campos, onde já foram testados dirigíveis com capacidade de até 50 toneladas. Essas experiências já mostraram que é possível desenvolver dirigíveis de até 200 toneladas, e — o que é mais importante — com a utilização de um gás não inflamável, removendo-se, assim, a principal dificuldade que impediu a utilização dos dirigíveis no passado, que era a alta inflamabilidade do gás hidrogénio,

A interligação da Bacia Amazônica com as do Prata, do São Francisco e do Parnaíba, em território brasileiro; e com a do Orenoco, através do canal Cassiquiare, na Amazônia Venezuelana, será o meio mais conveniente e utilitário, não só de garantir um complexo viário transcontinental de alta funcionalidade e extrema economicidade, como também de assegurar a perene preservação dos ecossistemas originais, facilitando o escoamento da superprodução elaborada na mega-usina.

Quanto às fontes energéticas para suprir o macrossistema viário transamazônico aludido e para as outras necessidades infraestruturas da Amazónia como usina de alimentos para o Terceiro Milénio, há um amplo leque de alternativas, graças à abundância de recursos naturais existentes na Hiléia, sendo principais os seguintes:

HIDROGÉNIO COMBUSTÍVEL — cientistas afirmam que a água e a luz serão empregadas como matérias-primas para obtenção do combustível que substituirá a gasolina. O hidrogénio, muito abundante na natureza, submetido a elevadas pressões e baixas temperaturas, pode ser levado ao estado líquido, quando se torna um excelente combustível, com poder explosivo quase três vezes maior que o da gasolina. Atualmente, já é usado como combustível de foguetes espaciais. O químico Melvin Calvin, da Universidade da Califórnia, desenvolveu estudos que praticamente asseguram a produção industrial do hidrogénio; e este, quando queima, volta a combinar-se com o oxigênio e o produto é novamente a água. Elimina-se, pois, o problema da contaminação atmosférica e se obtém um bom rendimento energético.

Melvin Calvin estudou o processo de decomposição da água pelas plantas e verificou que as plantas decompõem as moléculas da água em seus elementos constitutivos, utilizando a ação da luz solar e com a presença de catalisadores químicos no cloroplasto, corpúsculo portador de clorofila existente no interior das células verdes. Dificuldades científicas foram superadas e agora as pesquisas pretendem a construção de sistemas em grande escala para colher facilmente quantidades industriais desses gases.

Pesquisadores italianos da Montedison descobriram um processo pelo qual o hidrogênio poderá brevemente substituir o petróleo, como combustível do ano 2000, renovável e não poluente. O dióxido de titânio e os complexos de rutênio estão em estudos visando à fotoeletrólise da água.

ENERGIA SOLAR — avançadas tecno-logias de captação da energia solar já possibilitam o seu uso racional como fonte de energia para os mais variados fins. Recentemente o mundo assistiu ao espetáculo de um avião movido a energia solar, o Solar Challenger, que atravessou o Canal da Man¬cha utilizando apenas a energia captada do sol. O sol é um imenso reator à fusão e as suas radiações sobre a Terra são as responsáveis pela formação, como causa primeira, de todas as formas de energia de que dispõe a natureza, incluindo-se a formação dos ventos, do calor, dos rios, da atividade biológica dos seres vivos e pela própria formação do carvão e do petróleo.

Agora, cientistas japoneses acabam de descobrir um meio de armazenar a energia proveniente do sol. O Professor Zemch Yoshida, da Universidade de Kyoto, desenvolveu uma substância sintética, capaz de absorver energia solar em altíssimo teor, sem se tornar aquecida. Essa maravilhosa substância pode ser produzida em grandes quantidades, a custos módicos e usada repetidas vezes. Pode ser produzida em diferentes formas e tamanhos, sólida ou liquida, facilmente transportável, sem perigo no seu armazenamento, ao contrário da energia nuclear.

ÁLCOOL — pode ser obtido a partir da cana-de-açúcar e da mandioca, que poderão imediatamente serem cultivadas em larga escala, nas várzeas altas e baixas ao longo da calha amazônica.

COMBUSTÍVEIS VEGETAIS — podem ser obtidos a partir de essências silvestres, como a copaíba, a andiroba e várias sementes oleaginosas amazônicas e do cultivo racional da mamona, do dendê etc., também nas várzeas, cujos projetos haverão de ser necessariamente subordinados aos ditames da ecologia.

COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS — podem ser obtidos a partir do gás natural, do carvão de pedra e do petróleo, cuja existência na bacia sedimentar amazônica (a maior do planeta) é fato comprovado, faltando apenas aprofundar as explorações e ativar a produção, especialmente das províncias de linhito do alto Solimões e de gás do rio Juruá.

ENERGIA HIDRELÉTRICA — pode ser gerada a partir do aproveitamento dos pequenos e médios potenciais hídricos localizados em todos os quadrantes da região. Também se pode obter energia pela utilização das chamadas "pontas dágua" e a partir da diferença térmica das águas dos rios, existente nos chamados "encontro das águas". Estudos do Conselho de Segurança Nacional calculam que só no encontro das águas do rio Amazonas com o rio Negro se poderiam obter cerca de vinte milhões de quilowatts.

VOCAÇÃO RIBEIRINHA

Os rios e suas margens, a exemplo dos mares, sempre foram e hão de ser os maiores pólos imagéticos a atrair o homem obediente à lição primeva e genesiaca de que o "espírito de Deus pairava sobre as águas". E foi exatamente da água do primeiro pântano que o homem evoluiu, de simples aminoácido ao metazoário sublime, à estatura atual do homo sapiens, ou homo loquens.

Bastaria um ligeiro escorço histórico para constatarmos a relação íntima entre os rios e as grandes civilizações do nosso planeta. As margens do Nilo, na África Setentrional, foram o berço da portentosa civilização egípcia; o Eufrates e o Tigre, no Oriente Médio, circunscreveram a Mesopotâmia, berço da civilização Sumeriana, razão de ser da Caldéia e da Assíria, como também da própria Hebréia, que atingira seu ápice às margens do Jordão; o Indos e o Ganges, o Hoang-Ho e Yang-Tse-Kyang e o Me-Kong, na Ásia; o Danúbio, o Reno, o Volga, o Rhódano, o Tejo na Europa, sem esquecermos o Mississipi-Missouri, na América do Norte; foram todos berços de grandes civilizações.

Somente o Amazonas — triste ironia — o maior de todos, ainda aguarda o seu momento histórico e místico para exibir a mais opulenta de todas as civilizações, que só acontecerá quando seus filhos sacudirem o jugo estúpido da macaqueação neocolonialista — da imitação de civilizações exóticas, cujos paradigmas agridem, depredam e saqueiam os fundamentos básicos, as plataformas da legítima civilização Amazônica, que é sobretudo aquática — impregnada de água.

Mesmo dominado pelo unilateralismo cultural e etnocentrista, em detrimento das culturas aborígenes, o descobridor europeu implantou uma colonização linear, ao longo dos rios da Amazónia, cujos baluartes constituíram as cidades ribeirinhas de hoje, entre as quais sobressaem Belém, Manaus, Rio Branco, Porto Velho, Santarém, Parintins, Tefé, Itacoatiara, Eirunepê, Cruzeiro do Sul, Óbidos, Manacapuru, Maués, Benjamin Constant e Marco-Tabatinga.

Os centros urbanos que proliferam na Amazónia constituem-se em verdadeiros "bolsões" de anticultura dentro do grande contexto da original cultura hiléica.

A nova perspectiva da Amazónia, como usina de alimentos para o Terceiro Milénio, preconiza uma civilização embasada nos parâmetros naturais. E os amazônidas deverão conscientizar-se desta destinação histórica.

VOCAÇÃO VARZEANA

É possível a produção de cereais e outras culturas de curto ciclo nas zonas ribeirinhas de inundação periódica do Amazonas/Solimões e seus principais afluentes, cujas várzeas colmatadas remontam mais de 30 milhões de hectares (cerca de 300 mil km2), do delta do Marajó aos confins fronteiriços com o Peru e a Colômbia. O aproveitamento pleno e potencializado das várzeas transformará a Amazónia no autêntico "celeiro do mundo" (como vaticinou Humboldt), no setor da produção agrícola, mediante a utilização racional de tecnologias ajustadas ao meio ambiente.

Além da produção agrícola alimentícia, a várzea amazônica poderá ser uma imensa base produtora de combustíveis energéticos, a partir da mandioca e da cana-de-açúcar para produção de álcool, assim como através do cultivo de certas plantas oleaginosas com a mesma finalidade.

VOCAÇÃO ICTIOLÓGICA

Peixes, mamíferos aquáticos, anfíbios, quelônios etc. podem ser cultivados no imenso caudal amazônico. Os milhares de rios, paranás, lagos, igarapés e igapós, que fazem da Amazónia a maior bacia de água doce do planeta, podem ser aproveitados para implantação de uma gigantesca cadeia de "fazendas aquáticas" em que a piscicultura e a aquacultura em larga escala, pela grandeza dos mananciais amazônicos, produzirão proteínas e energia para alimentar toda a Humanidade.

VOCAÇÃO HIDRELÉTRICA

Utilizando-se somente os pequenos e médios potenciais para instalação de usinas, com vistas ao abastecimento da macrousina proteica, assim como das grandes cidades, bem como todas as correntezas ou "pontas dágua" para implantação de milhares de microusinas flutuantes nos rios, para atender às cidades menores e aos povoados interioranos, ter-se-á resolvido o problema energético de força e luz na Amazónia, de forma absolutamente adequada às circunstâncias mesológicas, sem provocar grandes e devastadoras inundações, dentro da premissa de que a natureza amazônica não deve ser agredida.

VOCAÇÃO MINERALÓGICA

Deve ser desenvolvida a exploração intensiva, mas cuidadosa e racional das províncias mineralógicas, assim como dos mananciais petrolíferos e de outros hidrocarbonetos, mediante um plano piloto que obedeça aos ditames naturais do ambiente. A produção amazônica de minérios deverá ser voltada principalmente para a indústria nacional. Siderúrgicas e complexos manufatureiros serão montados nos principais centros urbanos amazônicos para absorver toda a matéria-prima regional e fornecer produtos acabados para o mundo.

VOCAÇÃO FITO-FARMACOLÓGICA

A utilização de essências silvestres, mediante estudos e exploração desenvolvidos a partir dos conhecimentos e das experiências dos índios amazônicos, cujas culturas ultramilenares detêm informações medicinais sui generis, muito contribuirá para o bem-estar de toda a Humanidade. As universidades amazônicas e os centros de pesquisa científica de todo o planeta voltar-se-ão para esta realidade, em programas integrados com os interesses mais legítimos das nações indígenas da Amazónia.

VOCAÇÃO GUMÍFERA E FITO-PROTÉICA

A exploração racional dos imensos seringais nativos e outras espécies da família euforbiácea deve ser realizada, seja como fonte alimentícia mediante desdobramento bioquímico do látex em proteínas para nutrição humana, de acordo com os mais avançados estudos científicos, seja como matéria-prirna para as indústrias manufatureiras de borracha.

VOCAÇÃO POMICULTURA SILVESTRE

Frutas, amêndoas e polpas são abundantes na floresta tropical densa, cujas zonas de maiores concentrações poderão sofrer manejos florestais com vistas à potencialização e cultivo sem grandes alterações no meio natural.

VOCAÇÃO ZOOSILVESTRE

Animais de grande, médio e pequeno portes, incluindo pássaros selvagens, constituirão grandes fontes de proteínas, mediante um plano científico de domesticação e tratamento genético visando a potencializar e melhorar os portes físicos das espécies e implantar extensos projetos de zoocultura.

VOCAÇÃO MADEIREIRA

Deve ser desenvolvido o aproveitamento racional, mediante um cuidadoso plano extrativista, das chamadas madeiras nobres de terra firme e madeiras brancas de várzea, as primeiras para carpintaria e marcenaria e as últimas para laminados e compensados. O cedro, o mogno, o acapu, a macaúba, a jacareúba, a maçaramduba, o louro, a ucuúba, a sumaúma, o capinuri etc., serão extraídos seletivamente, tendo em vista o ciclo vital das árvores e aplicando-se tecnologias e sistemas adequados de corte e remoção das toras, sem ofender a integridade natural da floresta. Não serão permitidos grandes complexos industriais madeireiros, mas sim pequenas e médias serrarias e laminadoras, assim como indústrias de aproveitamento de resíduos (fábricas de aglomerados), carpintarias e marcenarias sofisticadas e movelarias, absolutamente restritos à produção extrativista seletiva circunstancial. Não será permitida, em hipótese alguma, a exportação de madeiras em toras.

São estas as mais legítimas vocações económicas da Amazónia, cuja exploração, incontestavelmente, pode resultar em vantagens imediatas para o capitalismo não selvagem e consequente, com possibilidades de lucros talvez maiores e mais seguros para os investidores. Isto posto, deverá, incontinenti, ser providenciado um inventário científico intensivo e adequado, que resultará no aprimoramento de métodos e no conhecimento profundo da Biota Amazônica.

Por outro lado, impõe-se prioritariamente a transformação do Distrito Industrial da Zona Franca de Manaus em centro transformador e manufatureiro das matérias-primas regionais, em vez de permanecer beneficiando e favorecendo produtos e indústrias estrangeiras de "aparafusamento", num flagrante desprezo às verdadeiras vocações e aos interesses mais autênticos da Amazónia.

VISÃO POLÍTICA

O entendimento da Amazónia, não só como usina natural de alimentos, mas também como termostato do hemisfério (a floresta como fator de estabilidade térmica e climática), impõe-se como uma mística ecológica a nortear um possível projeto global de aproveitamento adequado e racional desta região. Urge a interpretação do universo amazônico dentro de uma projeção futurista, considerando o crescimento da população hominídea que não pode ser detido através de processos artificiais, sob pena de agredir o equilíbrio fisiológico de um dos gametas e desestabilizar o tropel da humanidade para desembarcar em outras galáxias.

Pode-se entender que, a longo prazo, o mais legítimo e conveniente processo económico da Amazónia não encontrará solução dentro das filosofias do capitalismo canibalesco, nem tampouco dentro do comunismo totalitário, que são dois sistemas sócio-econômicos dilapidadores do planeta Terra — predadores e destruidores da natureza e concentradores de riqueza e poder, contra os anseios e interesses mais legítimos da humanidade.

Os conceitos fundamentais do equilíbrio ecológico e do respeito aos princípios biológicos do nosso planeta não estão inseridos prioritariamente nas doutrinas políticas do comunismo nem do capitalismo, implicando isto na constante e intensiva determinação da qualidade de vida do homem e de seu ambiente de sobrevivência.

A Amazónia está a exigir uma outra compreensão da harmonia política, um novo sistema ou um novo regime social, que não seja nem capitalista "explorador do homem pelo homem" e concentrador de poder e riqueza, nem comunista totalitário e materialista ateu (insensível à Consciência Cósmica), negador da liberdade mais fundamental do homem, que é a persona — o direito à individualidade e à opção do destino político, económico, cultural, religioso, enfim, de decidir por si próprio se vive ou se morre.

A Amazónia carece de um sistema sócio-político solidarista, comunitário-cooperativista, harmónico, em que os seres se amem, sobretudo como se amam os animais, os pássaros e os insetos, os índios (os que ainda não foram contactados pelo branco), e todos os integrantes da natureza, exceto a chamada civilização.
Os índios amam a natureza e com ela convivem em intimidade profunda, sob os fluxos metafísicos do Grande Demiurgo.

Enquanto não formularmos um sistema que tenha por frontispício a seguinte legenda: "O homem é parte intrínseca da natureza"; e enquanto continuarmos a obedecer o sistema em que a natureza é que deve servir ao homem, em seus caprichos egocêntricos e hedonísticos, sem atentarmos concretamente à obrigação de não depredá-la, não engajaremos a Amazónia no seu verdadeiro destino.

Poderemos aproveitá-la, imediatamente, para abastecer o mundo, entendendo-a como a entende o índio, que com ela convive em harmonia desde tempos imemoriais. As culturas indígenas, hoje, desgraçadamente em acelerado processo de extinção, esmagadas barbaramente pelo branco ou civilizado, entenderam a Amazónia ao sabor dos milénios, e podem nos ensinar os princípios básicos de como aproveitá-la racionalmente e sustentavelmente, claro que de forma mais potencializada, aplicando-se, da civilização, o desenvolvimento científico e tecnológico aproveitável, e da indígena, os conhecimentos naturistas e o desenvolvimento espiritual.       
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Indubitavelmente, nesse ecletismo humanista estão os fundamentos da sociedade do futuro, para interpretação da Amazónia como usina proteica do Terceiro Milénio, e teremos projetadas as suas verdadeiras vocações.

CICLÓPICO DIVÃ PSICANALÍTICO

É impossível desarmar ou desativar toda a incomensurável e intrincada máquina, que o homem, mercê de uma lei biológica insopitável — a lei de sobrevivência do indivíduo —, urdiu ao sabor dos milénios de seu desenvolvimento anátomo-psíquico.

Foi a gana, a ânsia de sobrepujar todos os obstáculos, para garantir a sobrevivência da espécie humana no Planeta Terra que o levou ao paroxismo, ao impasse em que nos encontramos.

Aperfeiçoamos e sofisticamos de tal sorte os nossos primeiros utensílios, que hoje — suprema ironia —, eles se armam e se eriçam, ameaçando a destruição da mais soberba e sublime das criaturas, arrumada pela consciência cósmica — O HO¬MEM.

Necessitamos urgentemente encontrar soluções para dois angustiantes problemas, gerados pelo"STRUGGLE FOR LIFE": o cataclismo atómico e a destruição da natureza.

Para a solução do primeiro problema há dois encaminhamentos; um já funcionando — o medo do extermínio recíproco —, o outro em eterna fase de discussão — o acordo de desarmamento nuclear.

No entanto, para a solução do problema de destruição da natureza, não há nada que tenha funcionado, ou com possibilidades de vir a funcionar, enquanto prosseguir a corrida desabalada, inconsequente e irracional do homem e das nações, ao encontro de um falso mito, de uma quimera: o tão decantado e endeusado — PROGRESSO.

O polimento e aperfeiçoamento do instrumental primevo: a pedra de sílex, o fogo, a roda, a agricultura, a pecuária, a linguagem, o número, a imprensa, a máquina a vapor, a eletricidade, o avião, o rádio, a energia atómica, o transistor; tudo bem, e muito mais deve ser aperfeiçoado e desvendado, para garantir a segurança e perenidade da espécie humana, e se possível desembarcá-la, não apenas na Lua, Marte, Plutão, porém levá-la a outros sistemas solares, a outras galáxias, ao encontro do fim com o princípio do universo, mas sem perder o sentido, o objetivo da lei biológica insopitável — a sobrevivência da espécie humana —, não permitindo que nos percamos no nosso próprio enredo, virando o feitiço contra o feiticeiro.

Somente a preservação da floresta amazônica, tal como está, última página do génesis na expressão de Euclides da Cunha, e último vestígio de toda a ancestralidade biológica do planeta, poderá, através de uma programação turística diferente, agasalhar periodicamente todos os homens responsáveis pelo destino de todas as nações em todos os níveis; quando lições de ecologia seriam ministradas, despertando e imantando a consciência de todos, para o erro terrível que estamos cometendo, ao alimentarmos o processo de aceleração sem limites, dos mecanismos capitalistas de afirmação da lei de sobrevivência do indivíduo, mecanismos que representam o decantado e falso PROGRESSO, gerador da destruição da natureza e do antropofagismo citadino.

A floresta amazônica deverá ser o ciclópico divã psicanalítico da espécie humana, onde ela se deitará para repensar e analisar todos os conflitos de seu destino cósmico.
Brasil 1985.

¨Evandro Carreira, é Advogado, Amazonologo e foi Senador da República pelo Amazonas na década de setenta.

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