quarta-feira, 10 de julho de 2013

Voando com Evo

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José Ribamar Bessa Freire
07/07/2013 - Diário do Amazonas

Diga lá: quem informou aos americanos que Edward Snowden estava no avião de Evo Morales? Descobrimos, enfim, o mistério que tanto intrigou a opinião pública internacional. Mora em Manaus, no bairro D. Pedro, o blogueiro que fez essa denúncia. Esse é um furo que dou aqui no Diário do Amazonas, passando a perna no The Guardian e no The New York Times.
Tudo começou no Brasil, quando Glenn Greenwald, jornalista americano, residente na Gávea, Rio de Janeiro, entrevistou Edward Snowden, que revelou como a CIA controla diretamente a internet e as redes sociais em todo o planeta. A entrevista, feita há um mês em Hong Kong, teve repercussão na mídia do mundo inteiro.
Edward Snowden, 29 anos, ex-funcionário da Agência de Segurança Nacional (NSA) subordinada ao Pentágono e vinculada à CIA, é hoje o homem mais caçado do planeta. Ele denunciou corajosamente o governo americano, que criou um programa chamado PRISM para bisbilhotar a vida de qualquer cidadão em todos os recantos da terra. Esse esquema de vigilância monitora, além das contas telefônicas, informações do Yahoo, Microsoft, Google, AOL, YouTube, Apple, Skype, PalTakl, Facebook e The devil on four, ou seja, o diabo a quatro.
Foi justamente xeretando uma mensagem no facebook que os serviços de espionagem dos EUA tomaram conhecimento de que Snowden, estava no avião do Evo. Conto como foi. A coisa funciona assim. Uma simples mensagem familiar, como a que postei ontem, pode ser lida pelo Obama na Casa Branca. Escrevi: "Pão Molhado, não faz terrorismo com a Giza". A palavra "terrorismo" foi o suficiente para alertar os espiões que capturaram a postagem e, em um milionésimo de segundo, sabiam o que meu sobrinho, conhecido pela CIA como Wet Bread,fazia com sua esposa.
Um micropaís
Foi uma dessas mensagens, postada no facebook pelo paraense de Santarém, Onildo Elias Castro Lima, ex-Secretário Municipal de Finanças de Manaus, que alertou a CIA sobre a presença de Snowden. Ele escreveu:
"A Bolívia com seus "cocaleros" têm suas ações internacionais sob suspeição há muito tempo! Um país que exerce práticas produtivas à margem da legalidade pode exigir respeito de alguém?"
Os espiões americanos desconfiaram. Eles descobriram, bisbilhotando, que o economista Onildo é sócio proprietário na empresa Instituto de Consultoria e Pesquisa S/C Ltda - CEAG. Oferece consultoria na área de gestão empresarial como ele mesmo diz no seu perfil do face:
"Coloco-me à disposição dos organismos nacionais e internacionais com minha experiência profissional com mais de 30 anos na área da Micro e Pequena Empresa".
Ora, a CIA acredita que a Bolívia é um micropaís e, portanto, que Onildo tem legitimidade para opinar sobre o tema. Aproveitou a consultoria oferecida por Onildo, com mais de trinta anos de experiência, cruzando-a com outra informação proporcionada por Vicente Pinheiro, também do Amazonas, que postou colocando a mãe de Deus no meio da história:
"Mas não adianta. O Brasil não é, e nem NUNCA VAI SER mais uma republiqueta bolivariana, como a pobre Venezuela chavista, a Bolivia do índio cocalero e o Equador, assim que Deus e Nossa Senhora Aparecida continuem nos protegendo e livrando das garras desse pessoal.
A CIA matou a charada. O "índio cocalero" Evo Morales estava na Rússia, em uma reunião para celebrar um acordo bilateral com o presidente Vladimir Putin. Acontece que Snowden, caçado como ratazana pela CIA, por "pura coincidência" estava também no aeroporto de Moscou. Depois da reunião, o avião de Evo Morales decolou para a Bolívia. É evidente que Snowden entrou no avião do "cocalero à margem da legalidade".
Opinião hedionda
A partir daí aconteceu o que foi noticiado. Os americanos deram a ordem e os governos europeus, apesar de serem também vítimas da espionagem, botaram o rabinho entre as pernas e obedeceram. O avião de Evo, que precisava reabastecer para cruzar o Atlântico, não teve a permissão para aterrissar na França, em Portugal, na Itália, nem na Espanha, colocando em risco a vida do presidente da Bolívia e de seus colaboradores. Só não aconteceu uma tragédia, porque a Áustria concedeu um "pouso vigiado" da comitiva presidencial.Vasculharam o avião e Snowden havia se derretido.
A opinião pública internacional ficou indignada. A presidenta Dilma, em uma nota oficial, se solidarizou com Evo Morales e expressou "repúdio e indignação ao constrangimento imposto ao presidente. Considerou que a ação dos europeus "compromete o diálogo entre os dois continentes e possíveis negociações".
O que faltou dizer é que esses americanos são mesmo uns abestalhados. Gastam bilhões de dólares com serviço de espionagem e contra-espionagem para nada. São uns incompetentes. Dá vontade de rir na cara deles e gritar: - Otários, babacas! Também quem manda acreditar no Onildo e no Vicente.
Ora, o que Onildo entende do assunto, se Evo não é uma micro ou pequena empresa? O que é que ele sabe sobre a coca? De coca, só mesmo a cola, como consumidor, mas com o Evo não cola. Recentemente, Evo subiu à tribuna da Comissão de Estupefacientes das Nações Unidas, em Viena, com folhas de coca na mão e com amostras de vários produtos:
“Peço a todos os países, a todas as organizações internacionais que corrijam um erro histórico” - disse Evo Morales, apelando para excluir a coca da lista de entorpecentes proibidos: “Fabricantes de folhas de coca não são narcotraficantes, consumidores de folhas de coca não são viciados em drogas, e a folha de coca no seu estado natural não é cocaína”.
A coca vem sendo utilizada há milênios como planta sagrada, milagrosa, alimento cuja folha representa a força, a vida e que é oferecida aos deuses fazendo a ponte entre os homens e a divindade. De qual legalidade fala Onildo? Quem extraiu a cocaína da planta não foram os bolivianos, quem produz e consome cocaína também não são os bolivianos. Cocaleros são os outros.
O Senado, que aprovou projeto transformando a corrupção em crime hediondo, devia classificar algumas opiniões como "opinião hedionda, sórdida, nauseabunda",  como essa manifestada em relação a um presidente de uma nação soberana eleito pelo voto popular.
Como escreveu uma historiadora, em outra postagem: "Evo Morales tem que ser recebido porque é o presidente eleito de um país no caso a Bolívia. A Itália, a Áustria e a França faltaram com respeito ao povo boliviano. Criaram um problema diplomático. Em vez de se orgulharem de receber um Aymara que chegou a presidência do seu país ficam com preconceito. Isso é coisa de americanos que querem se meter na vida de todos os países. Por isso não consigo ter pena quando acontece alguma reação contra os EUA".
 P.S. - Ilustração do nosso parceirinho Fernando Assaz Atroz


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