domingo, 13 de janeiro de 2013

Doña Aurélia, a última sogra

0 comentários
José Ribamar Bessa Freire 
13/01/2013 - Diário do Amazonas

Cuando la muerte me lleve / por sus caminos de sombra...
 (Los Chalchaleros)

Cómo se humanizan los animales!

Ouvi essa frase milhares de vezes, mas a primeira foi numa ensolarada manhã de abril. Lembro ter sido em abril porque o jornal que forrava o piso da gaiola, que doña Aurélia limpava, exibia manchete sobre a Revolução dos Cravos em Portugal. Lá dentro, pisando uma foto de Grândola, vila morena, reinava todo empavonado “Itamar” - uma cacatua cujo penacho amarelo parecia com o penteado do ex-presidente da república. Com seu bico encurvado, levantou a crista, eriçou as penas e deu uma beliscada suave e amorosa na mão que lhe dava ração, água e asseio. Era uma forma de agradecimento. Foi aí que a dona das mãos, inspirada, criou a frase histórica:

 - Cómo se humanizan los animales!

Ela pronunciava “humaniçam”, com cedilha, mas “Itamar”, por supuesto, entendia, pois aprendera espanhol por imersão. A frase era repetida cada vez que o pássaro fazia alguma gracinha – foram muitas, incontáveis vezes. Nesses momentos, ele encontrava formas de demonstrar que estava enamorado, apaixonado por aquelas mãos que adentravam seu território, trazendo água fresca, alimento, afeto, vida.

Todas as manhãs, durante anos, cumpriram religiosamente, impajaritablemente, o mesmo ritual, com trocas de assovios, cantos, carinhos, beliscos e afagos. Nunca o uso do impajaritable foi tão apropriado como aqui. O pássaro, inteligente, alegre e brincalhão, aprendeu até a abrir a porta da gaiola para espanto de todos, menos de doña Aurélia, que não cansava de repetir o mantra cheio de energia e sonoridade:

- Como se humanizan los animales!

De tanto ouvi-la, acabei lhe dando razão! Considerando que o ser humano é um namorador inveterado, que abre portas e janelas para se comunicar com o outro, se um animal faz tudo isso é porque adquiriu, indubitavelmente, a humanidade. Nisso acreditava piamente doña Aurélia, autora da frase, uma criação própria, original, dela mesma, não copiou de ninguém, tirou de suas observações sobre o comportamento dos animais – foram muitos – com os quais conviveu nos seus 95 anos de existência. 

Frase memorável

Todo mundo na vida é autor de, pelo menos, uma frase de efeito, literária, filosófica ou histórica, que merece ser gravada em placa de bronze para a posteridade, incluindo pessoas anônimas, comuns, e não apenas escritores, políticos, filósofos. Shakespeare criou“to be or not to be, that is the question”.Antonio Machado nos deu “caminante no hay camino, se hace camino al andar”. Dom Pedro I, em tom solene, decidiu: “Diga ao povo que fico”. A frase memorável de doña Aurélia, uma pacata dona de casa, foi essa que humaniza inapelavelmente os animais.

Podia ter sido outra. Seria correto se ela se apropriasse, por exemplo, da já citada frase de D. Pedro I. Foi quando visitou a filha recém-casada. A filha, única. Ela, viúva. Chegou de mansinho assim como quem não quer nada, e foi ficando... ficando... ficando... e ficou... “para o bem de todos e felicidade geral da nação”. Ficou mais de quarenta anos, durante os quais moramos debaixo do mesmo teto, com curtos intervalos de tempo, em diferentes cidades e países – Lima, Paris, Manaus, Niterói e até umas férias em Imperia, na Liguria, berço de seu pai italiano. Convivemos numa relação de sogra e genro, o que - convenhamos - tem algo de heróico. Para ambos.

Por isso, não me surpreenderia se, em co-autoria com Shakespeare, ela manifestasse suas dúvidas: “To be or not to be mother-in-law?”. Essa é a questão. Te coloca no lugar dela, leitora! Quem, sendo mãe de filha única, aceitaria um genro hipponga, cabeludo, comunistóide, que veio sem o manual de instrução, que não tinha sequer passaporte e nem onde cair morto? Posto que o exilado está sozinho no país que o recebe, de qual buraco havia saído aquele “sem família”? A resistência inicial de doña Aurélia é, portanto, compreensível.

Tanta compreensão não me leva, no entanto, ao exagero de escrever aqui que ela foi minha segunda mãe, embora admita que só mãe é capaz de adivinhar o que a gente quer comer. E ela acertava. Sempre. Preparava um aji de gallina tão saboroso que nem o militante mais radical do PSOL botava defeito. Um velho comunista, Euclides, meu amigo de exílio, chegou a comer o delicioso cebiche feito por ela e esqueceu a revolução por algumas horas em que permaneceu jiboiando, em estado catatônico. “Se temos no Brasil peixe, limão, pimenta, milho, batata doce, cebola, porque não fomos nós os inventores do cebiche?” – lamentava-se ele, inconformado com o fato de o cebiche não ser brasileiro.

De qualquer forma, ainda que grato aos dotes culinários, me nego a usar aqui o termo ‘segunda mãe’, não porque seu proverbial ronco, à noite, não fosse um suave ronco materno – era um ronco de sogra - mas porque no presente contexto soaria como demagogia post-mortem. No entanto, se o usasse, não estaria de todo errado, seja lá o que isso signifique, para o bem e para o mal. Em contrapartida, não vou reforçar imagens estereotipadas, “folclóricas” e “clássicas”, dizendo que ela era uma jararaca peçonhenta, como qualquer sogra de piada, porque não era, embora os valores dela e os meus fossem diametralmente opostos.

Nem todos. Havia um momento em que rezávamos pela mesma cartilha, era quando eu me colocava de joelhos diante de um seco de cordero, de um cabrito en leche a la norteña, de umarroz chaufa, que ela preparava com condimentos e temperos trazidos de Lima. Seu tacu-tacu e sua sopa de feijão eram imbatíveis. A longa lista cobria diferentes regiões do Peru: causa limeña, ocopa arequipeña, papa a la huancayna, tamales de Supe, pepian de pavo de Huacho. Um dia, meu primo Djewry Power lacrimejou e subiu nas paredes, quando compartilhou comigo um rocoto relleno feito por ela. Foi aí que comprovou o ditado: "Não tem pescoço francês de peruano que aguente".

Língua de sogra

Modéstia à parte, este locutor que vos fala, hoje, é um expert na variadíssima culinária peruana, graças à Lela, como era chamada na família de quem herdou tal saber. Meu entusiasmo por seus quitutes era tão sincero que deixou minha mãe, dona Elisa, profundamente enciumada, por não entender que a língua do biculinário pode degustar duas gastronomias como a língua do bilíngue maneja dois idiomas: alternando o uso, mas mantendo sempre lealdade à língua de origem.

Lela me pegou, como a cacatua, pela boca. Confesso que foi uma rendição incondicional. Depus as armas. Bandeira branca, amor! Culinária não tem ideologia. Portanto, a César o que é de César. Mas, se ela não é mãe e tampouco jararaca, então é o quê?

Se eu fosse inglês, ela seria mãe apenas no plano legal: mother-in-law, mas sem direito a qualquer demonstração de afeto, como o alemão que, formal, também mete a mãe no meio - digo, no fim - quando chama sua sogra de schwiegermutter, um palavrão que assustaJá o francês é cheio de rapapé, sua mãe pode até ser feia, mas sogra é sempre belle-mère, não sabemos se por diplomacia, hipocrisia ou fina ironia. Quem alopra mesmo é o bielo-russo, cuja língua não tem papas e, com franqueza assaz atroz, denomina sogra de storvo. No idioma de Lela, sogra não é mãe coisa nenhuma, é apenas suegra, mas o genro - o yerno – é, paradoxalmente, hijo político, ou seja, um filho sem mãe ou um filho da mãe.

Diante do exposto, ficamos assim combinados: por ser seu hijo político, eu acabei me tornando um filho da mãe, que não era ela, com quem tenho outra dívida, além da culinária. É que graças à sua presença, aprendi a conviver com bichos, a entender a linguagem deles. Foram muitos: cacatua, canário, papagaio, tartaruga, gato, cachorro, uma fauna variada que passou a viver dentro de casa, trazida por ela ou pela neta, a quem ensinou a amá-los.

Começou, para não assustar, com um canarinho – o Tadeu, que entoava um canto metralha e que era alimentado a pão-de-ló como se fosse um hijo político: alpiste, biscoitinho, alface, fruta fresca, pão molhado no leite e iguarias mil. Esse safadinho também se “humaniçou” rapidamente, porque é sabido que nos humanizamos através da degustação. Depois vieram outros, a casa vivia sempre lotada de várias espécies de animais de estimação, de quem passei a gostar e em quem encontrei parte de minha humanidade sequestrada. Todos eles ficaram carecas de ouvir:

Cómo se humanizan los animales!

 Anunciada várias vezes ao dia, com certo estardalhaço, a frase era saboreada por ela, sempre, como se fosse o “o” do borogodó. Cada vez que a repetia, parecia que estava descobrindo a pólvora ou fundando uma nova escola de filosofia. Os animais se humanizavam até nos ditados guardados nos fiapos de memória preservada pelos cuidados do geriatra Norberto Boechat e pelos desvelos de enfermeira da Paulina Ayma. “El último mono se ahoga” dizia à neta que demorava em sentar-se à mesa para almoçar ou “Estás buscando tres pies al gato, sabiendo que tiene cuatro”, usado para quem discutia sem argumento. 

Na relação da humanidade com os bichos, os termos podiam, porém, ser invertidos. Quando víamos telejornal em família e apareciam imagens de Pinochet, Garrastazu, Idi Amin, Fujimori, Bush - tanto o Bushão como o Bushinho - ou outro assassino, eu glosava:

Cómo se brutalizan los hombres!

De todos eles, só o mais sanguinário – o Bushinho – vivia com um cachorro, um terrier escocês, de nome Barney, que tinha até espaço exclusivo no site da Casa Branca, mas não no coração de seu dono, a quem não conseguiu educar, ao contrário de doña Aurélia que a seu modo percebeu nessa oposição de humanos x não-humanos uma canoa furada. Talvez tenha se ido sem saber que, na realidade, foi ela que se deixou humanizar pelos animais. Foram os bichos que nos humanizaram, contribuindo para tornar mais afetuosas as relações historicamente tensas entre sogra e genro.

A gente pensava que ela era imortal, uma Niemeyer longeva, embora já não arquitetasse mais nada ultimamente depois que sua razão se aposentou. Ainda criança chorou a morte prematura da mãe, depois do pai, do marido, de sobrinhos. Primogênita, enterrou duas irmãs mais novas, o irmão, também mais novo, e um filho-enteado, dele sim, ela foi a segunda mãe, devido à orfandade em que cedo ficou. Além disso, enterrou cacatua, canário, vários papagaios, duas tartarugas e uma cambada de cachorros. Enterrou minha mãe e TODAS as sogras e sogros de minhas nove irmãs e de meus dois irmãos. Era a ultima sogra da família.

Aurélia Magdalena Lagorio Viuda de Alfaro (1918-2013), a Lela, partiu aos 95 anos, brigando com o alemão Alzheimer, depois de tourear um câncer. Levou com ela lembranças de uma longínqua infância: o óleo de fígado de bacalhau que era obrigada a ingerir cedinho, em jejum, antes de dar um mergulho no mar frio do Pacífico, os cachorros “humaniçados” que fizeram parte de sua matilha amorosa e as imagens em branco-e-preto da farmácia do seu pai cheia de histórias dos personagens que por lá passaram.

Talvez tenha relutado em dizer adeus, porque não queria deixar o que deixou: uma herança única e singular. Deixou uma única filha, uma única neta, uma única bisneta, um único genro, um gato e um cachorro. E uma única frase. De plural, só os sobrinhos espalhados pelo Brasil, Peru, Argentina, Venezuela, Colômbia, Espanha, Itália, Bélgica, Suíça, Canadá e Estados Unidos, todos eles devidamente “humaniçados”.

Quando ela partiu de casa, nessa quarta-feira calorenta de janeiro, León, o gato, que dormia na sua cama, enrolado a seus pés, acusou a ausência, indagando por ela, insone, arregalando seus olhos verdes e desorbitados de Nonato. E Patife, o cachorro, ficou choramingando pelos cantos. Efetivamente, é impressionante “cómo se humanizan los animales”. Ah, os genros também! Eu acho.                                                      

Versión en español Taquiprati  -  Diário do Amazonas     
José R. Bessa Freire – 00/01/2012

DOÑA AURELIA, LA ÚLTIMA SUEGRA

Cuando la muerte me lleve / por sus caminos de sombra: 
(Los Chalchaleros) 

- Cómo se humanizan los animales! 

Oí esa frase miles de veces, pero la primera fue en una clara mañana de abril. Recuerdo que fue en abril porque el diario que forraba el piso de la jaula que doña Aurelia limpiaba, exhibía titulares sobre la Revolución de los Claveles en Portugal. Allí adentro, pisando una foto deGrandola, vila morena, reinaba todo empavonado “Itamar” - una cacatúa cuyo penacho amarillo parecía el peinado del ex-presidente de la república de Brasil. Con su pico curvo, levantó la cresta, erizó las plumas y le dio un picotón suave y amoroso en la mano que le daba ración, agua y limpieza. Era una forma de agradecimiento. Fue ahí que la dueña de las manos, inspirada, creó la frase histórica:

 - Cómo se humanizan los animales!

Pronunciaba “humanizan”, seseando, pero “Itamar”, por supuesto, entendía, pues había aprendido español por inmersión. La frase era repetida cada vez que él hacía alguna gracia – fueron muchas, incontables veces. En esos momentos, encontraba formas de demonstrar que estaba enamorado, apasionado por aquellas manos que entraban en su territorio, llevando agua fresca, alimento, afecto, vida.

Todas las mañanas, durante años, cumplieron religiosamente, impajaritablemente, el mismo ritual, con intercambio de silbidos, cantos, cariños, picotones y caricias. Nunca el uso deimpajaritable fue tan apropiado. El pájaro, inteligente, alegre y juguetón, aprendió a abrir la puerta de la jaula para asombro de todos, menos de doña Aurelia, que no se cansaba de repetir el ‘mantra’ cargado de energía y sonoridad: 

- Como se humanizan los animales! 

De tanto oírla, acabé dándole razón! Considerando que el ser humano es un enamorado inveterado, un abridor de puertas y ventanas, capaz de comunicarse con el otro, si un animal es capaz de hacer todo esto es porque adquirió, indudablemente, la humanidad. Por lo menos en eso creía piamente doña Aurelia, autora de la frase, una creación propia, original, no la copió de nadie, la obtuvo de sus observaciones sobre el comportamiento de los animales – fueron muchos – con los cuales convivió en sus 95 años de existencia.

Frase memorable

Todo el mundo en la vida es autor de por lo menos una frase de efecto, literaria, filosófica o histórica, que merece ser grabada en placa de bronce para la posteridad. Pero no es un privilegio exclusivo de escritores, políticos, filósofos. Shakespeare creó“to be or not to be, that is the question”. Antonio Machado nos dio“caminante no hay camino, se hace camino al andar”. Don Pedro I, emperador portugués de Brasil, cuando lo llamaron a volver a Portugal, decidió en tono solemne: “Diga al pueblo que me quedo”. La frase memorable de doña Aurelia, una ama de casa, fue esa que humaniza inapelablemente los animales.

Podría ser otra, inclusive la citada de D. Pedro I, por ejemplo, muy apropiada a la primera visita que ella, viuda, le hizo a su única hija, recién-casada. Llegó despacito y se fue quedando... quedando... quedando... y se quedó “para el bien de todos y felicidad general de la nación”. Se quedó más de cuarenta años, durante los cuales vivimos bajo el mismo techo  en diferentes ciudades y países – Lima, Manaus, Paris, Niteroi, unas vacaciones en Imperia, en la Liguria, cuna de su padre italiano. Convivimos en una relación de suegra y yerno, que tiene algo de heroico. Para ambos.

Por eso, no me sorprendería si, en coautoría con Shakespeare, manifestase sus dudas, declamando: “To be or not to be mother-in-law?”. Esa es la cuestión. Te coloca en el lugar de ella, lectora! Quien, siendo madre de hija única, aceptaría de buen grado un yerno hippie, pelucón, comunistón, que ni siquiera tenía pasaporte ni donde caer muerto? Considerando que el exilado está solo en el país que lo recibe; de que techo había caído ese “sin familia”? La resistencia inicial de doña Aurelia es por lo tanto comprensible.

Tanta comprensión no me lleva a decir aquí que fue mi segunda madre, aunque admita que solo una madre sea capaz de adivinar lo que uno quiere comer. Y ella acertaba. Siempre. Preparaba un ají de gallina tan sabroso que ningún militante radical colocaría defecto. Un viejo comunista, Euclides, mi amigo de exilio, llegó a comer el delicioso cebiche preparado por ella y se olvidó de la revolución por algunas horas en que permaneció saboreando, en estado catatónico. “Si tenemos en Brasil pescado, limón, ají, maíz, camote, cebolla, porque no fuimos nosotros los inventores del cebiche?” – se lamentaba, insatisfecho por el hecho de que esta maravilla no sea brasileña. 

De cualquier forma, aunque grato por los dotes culinarios, me niego a usar aquí el término ‘segunda madre’, no porque su proverbial ronquido, de noche, fuese de suegra y no de madre, sino porque en el presente contexto sonaría como demagogia post-mortem. Sin embargo, si lo usase, no estaría completamente equivocado cualquiera que sea su significado. Por otro lado, no puedo reforzar imágenes estereotipadas, “folclóricas” y “clásicas”, diciendo que era una serpiente venenosa, como la suegra de los chistes, porque no le corresponde, aunque los valores que profesábamos eran diametralmente opuestos.

Pero no siempre. Había un momento en que rezábamos la misma oración, era cuando yo me arrodillaba ante un seco de cordero, un cabrito en leche a la norteña, un arroz chaufa, que preparaba con condimentos y aderezos que venían de Lima. Su tacu-tacu y su sopa de frejoles eran antológicos. La larga lista cubría diferentes regiones del Perú: causa limeña, ocopa arequipeña, papa a la huancaína, tamales de Supe, pepián de pavo a la huachana. Un día, mi primo Djewry Power lagrimeó y subió por las paredes, cuando compartió conmigo un rocoto relleno hecho por ella.

Lengua de suegra

Modestia aparte, este locutor que les habla, hoy por hoy, es un verdaderoexpert en la variadísima culinaria peruana. Gracias a Lela, como la llamaban en familia, de quien heredó ese saber. Mi entusiasmo por sus platos era tan sincero, que despertó en doña Elisa, mi madre, una chispa de celos. Pero al César lo que es del César. Era irreversible, acabó agarrándome, como a la cacatúa, por la boca. Confieso que fue una rendición incondicional. Entregué las armas. Bandera blanca. La culinaria no tiene ideología. Entonces, si no es madre ni serpiente, ¿qué es lo que es?

Si yo fuera inglés, seria madre, solamente en el plano legal: mother-in-law, pero sin derecho a cualquier demostración de afecto, así como el alemán que menta a la madre cuando llama a la suegra schwiegermutter, que parece una palabrota asustadora. En cambio el francés es lleno de delicadezas - la madre puede inclusive ser fea - pero suegra es siempre belle-mère, no sabemos si por diplomacia, por hipocresía o por fina ironía. Ya el bielo-ruso es más radical, de una franqueza atroz, en esa lengua suegra es storvo. En el idioma de doña Aurelia, suegra no tiene nada de madre, es simplemente suegra, pero yerno es yerno e hijo político, o sea, un hijo sin madre.

Ante lo expuesto, combinamos lo siguiente: ella no era mi madre, pero yo era su hijo político, con quien tengo otra deuda además de la culinaria. Es que gracias a su presencia, aprendí a convivir con animales, a entender su lenguaje. Fueron muchos: cacatúa, canario, papagayo, tortuga, gato, perro, una fauna variada que pasó a vivir dentro de casa, llevados por ella o por la nieta, a quien le enseñó a amarlos. 

Para no asustar, comenzó con un canario - Tadeo, que entonaba un canto metralla y que era alimentado con lo mejor, como si fuese un yerno, digo, un hijo: alpiste, galletitas, lechuga, fruta fresca, pan mojado en leche y mil golosinas. Ese individuo también se “humanizó” rápidamente. Después vinieron otros, la casa vivía siempre llena de varias especies de animales de estimación, de quienes pasé a gustar y en quien encontré parte de mi humanidad secuestrada. Todos ellos se cansaron de oír:

- Cómo se humanizan los animales!

Cada vez que saboreaba la frase repitiéndola, parecía que estaba descubriendo la pólvora o fundando una nueva escuela de filosofía. Los animales se humanizaban hasta en los refranes, que fue lo que le sobró de la memoria cuando el Alzheimer estaba avanzado. “El último mono se ahoga” decía frente a la demora de la nieta para sentarse a la mesa para almorzar o “Estás buscando tres pies al gato, sabiendo que tiene cuatro”,  usado para quien discutía sin razón. Eran los hilos finos de la memória preservada por los cuidados del geriatra Norberto Boechat y el cariño de enfermera de Paulina Ayma.

Cuando asistíamos telediario en familia y aparecían imágenes de Pinochet, Garrastazu, Idi Amin, Fujimori, Bush, tanto Bushão padre como Bushinho hijo, u otro asesino de turno, yo invertía los términos y glosaba:

- Cómo se brutalizan los hombres!

Tal vez doña Aurelia haya partido sin saber que fue ella que se dejó humanizar por los animales, fueron ellos que nos humanizaron, contribuyendo para volver más afectuosas las relaciones históricamente tensas entre suegra y yerno.

Llegamos a pensar que era inmortal, una Niemeyer longeva, aunque ya no arquitectaba nada últimamente. Cuando estaba en la activa, lloró la muerte de su padre, del marido, de un hermano, de un sobrino que para ella era especial y de una hermana. En los últimos tiempos, ya jubilada de la razón, la de la hermana menor yde un entenado que quiso como a un hijo, para quienes, sí fue una verdadera segunda madre, debido a una orfandad temprana. Enterró la cacatúa, el canario, varios papagayos, dos tortugas y tres perros. Enterró a mi madre y todas las suegras y suegros de mis nueve hermanas y de mis dos hermanos. Era la última suegra de la familia.

Aurelia Magdalena Lagorio Viuda de Alfaro (1918-2013) partió a los 95 anos, luchando con el alemán Alzheimer, después de torear un cáncer. Lleva con ella los recuerdos de infancia, del aceite de hígado de bacalao que era obligada a tomar en ayunas, antes de ir a la playa, jugueteando con Tiber, Po y tantos otros perros que hacen parte de su manada amorosa. Las historias de juventud en los paseos bucólicos a la chacra de los Bisso en Mazo, conservadas en bellísimas fotos que guardó hasta cuando sus ojos no veían más, así como el aroma de la guinda huachana. Lleva también imágenes en blanco y negro de la farmacia de su padre, llena de historias de personajes que pasaron por allí. Memorias que quedaron más nítidas y se volvieron presente en los últimos tiempos.

Doña Aurelia dejó una frase, una hija, una nieta, una bisnieta, un yerno, un gato, un perro. La tia Lela deja una imagen protectora para muchos sobrinos, sobrinos nietos, ahijados y amistades  muy queridas de toda la vida en algunos lugares del mundo, en Brasil, Perú, Argentina, Venezuela, España, Bélgica, Italia, Suiza, Canadá, Estados Unidos, todos debidamente “humanizados”. 

León, el gato que dormía en su cama, acurrucado a sus pies, sintió su ausencia, abriendo de par en par sus hermosos ojos verdes, preguntando por ella. Y Patife, el perro, se puso a lloriquear por los rincones. Efectivamente, es impresionante “cómo se humanizan los animales”. Y... los yernos también!  Creo yo.

LEIA MAIS...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A soberba elétrica

0 comentários
Imagem: Humor Politico

Heitor Scalambrini Costa
Professor da Universidade Federal de Pernambuco

Já é de conhecimento notório a relação (in)existente entre os gestores públicos do setor elétrico e a patuléia (como diria o respeitado jornalista Elio Gaspari quando se refere ao povo). A arrogância, a prepotência, a falta de ética destes servidores públicos são evidentes, quando tem que dar explicações sobre os erros na condução deste setor, de vital importância para os destinos do país, e principalmente de sua população.

A perda de reputação e de credibilidade só aumenta quando lemos, escutamos e vemos estes senhor@s tentarem explicar o inexplicável. Que mais uma vez, depois de 12 anos do inesquecível desabastecimento ocorrido em 2001/2002, os mesmos erros se repetiram, e a luz amarela acendeu. Estamos novamente discutindo se haverá ou não falta de energia. Se será, para “amanhã”, ou em 2014/2015.

A semelhança da situação que chegamos em 2013 com relação a 2001 é que em ambos casos houve falta de planejamento e gerenciamento, falta de investimentos no setor, período de estiagem prolongada comprometendo assim os níveis dos reservatórios de água. Vale aqui o ditado popular, memória de maus dias, “tudo como dantes no quartel de abrantes”, no que se refere a negação, por parte das autoridades da existência de risco de ocorrer o desabastecimento de energia elétrica. Parece validar o ditado siciliano de que “o pior nunca tem fim”.

Há também diferenças que permitem afirmar que a falta de energia não é para agora, mas que existe risco a partir dos próximos anos, caso não haja uma mudança radical no que concerne à diversificação da matriz elétrica, incorporando substancialmente as novas fontes renováveis, geração solar (o uso em larga escala do aquecimento solar e a micro geração fotovoltaica) e eólica. Chega de retórica. A contribuição destas fontes tem que ser rapidamente elevada para níveis de 15 a 20% da capacidade total instalada.  Além de ser levado mais a sério, ou seja, priorizar investimentos no uso eficiente de energia. Evitando assim desperdícios em processos industriais obsoletos; sistemas de refrigeração, aquecimento e iluminação inadequados; utilizando sistemas de automação, por exemplo, que permite o desligamento automático quando não há pessoas presentes no local.

Mas voltando a soberba dos dirigentes do setor elétrico, duas entrevistas recentes corroboram esta afirmativa. A primeira (6/1) foi com o diretor de engenharia da Companhia Hidroelétrica do Rio São Francisco, que em um programa nacional de grande audiência, declarou diante da pergunta da repórter em tom de deboche, que era correto a estratégia da empresa em participar de vários leilões para a construção de linhas de transmissão, e depois não poder atender os prazos de construção (desculpando com a demora em obter licenças ambientais, etc, etc...). Assim sistemas de geração eólicos (mais de 600 MW) estão prontos para funcionar no Nordeste, há mais de 6 meses, mesmo antes das linhas de transmissão. Portanto não poderem ser interligados ao sistema nacional. O que acarreta prejuízos ao consumidor que tem que pagar a conta. Além de outras respostas que só assistindo para se ter uma idéia do desprezo com a rafaméia.

Outra “pérola” que merece destaque foi a entrevista coletiva (9/1) após reunião do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) em Brasília, com o Ministro de Minas e Energia, e principais dirigentes do setor. Estas autoridades, com ênfase o ministro de estado, responderam o que quiseram. Muitas vezes desdenhando as perguntas dos jornalistas presentes. Afirmativas vazias sem comprovação técnica do que estavam falando foram comuns nos pouco mais de 40 minutos de entrevista. Sem que em nenhum momento admitissem que muita coisa poderia ter sido feita entre 2001 e 2012, e que a situação atual é de risco. Só vendo e ouvindo para crer.

Bem enquanto isto, para a população que infelizmente ainda é mera espectadora, resta rezar aos deuses, e se possível, praticar a dança da chuva. O carnaval esta ai.
LEIA MAIS...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

2013: sob uma nova ofensiva do capital

0 comentários

ESCRITO POR VALÉRIA NADER, DA REDAÇÃO    
Correio da Cidadania, janeiro de 2013

O ano de 2013 começa bastante embaraçado.

Olhando para fora, como amplamente avaliado na edição especial retrospectiva deste Correio, este ano se inicia sob a persistência e intensificação da crise econômica mundial, que se arrasta desde a sua eclosão entre 2007 e 2008. Uma crescente perda de autonomia nacional, através da ingerência de órgãos supranacionais, tais como Banco Central Europeu, União Europeia, FMI, Banco Mundial, é a face mais visível dessa crise, face a movimentos de resistência que não têm conseguido ultrapassar propostas cosméticas de enfrentamento da crise capitalista.

Internamente, 2013 começa à sombra do que se pode concluir serem duas categorias de acontecimentos do ano anterior. Por um lado, aqueles que apenas reforçaram mais do mesmo, tais como a criminalização e repressão de movimentos sociais em um ano marcado por fortes protestos populares. Por outro lado, fatos como o chamado mensalão e os resultados das eleições municipais trouxeram à cena política situações que, para muitos, pareceram inusitadas e peculiares.

Ao mesmo tempo, como ressalta o Editorial desta edição prospectiva, não se pode pensar em 2013 sem levar em conta 2014 – ano de Copa e eleições presidenciais. Episódios que certamente farão retroagir para 2013 a inevitável pressão que exercerão sobre os orçamentos públicos e os direitos sociais.

O historiador Mário Maestri é o nosso entrevistado para esta edição especial prospectiva. Em sintonia com a voz geral dos colunistas e colaboradores desta edição, o historiador faz eco à noção de que, no plano interno, a grande aposta para 2013 é a retomada do investimento privado - que foi uma grande decepção em 2012, ano no qual se apresentou de modo cabal a desindustrialização do país. Segundo avalia Maestri, “no início do governo Dilma Rousseff, devido ao perigo inflacionário, aumentaram-se os juros, negou-se qualquer aumento dos salários públicos e mínimo e cortou-se o orçamento. A presidenta foi aplaudida pelo conservadorismo pela nova forma de governar, diferenciada do populismo lulista. Com a regressão da economia, inverteu o passo: retomou o programa de gastos públicos, desonerou segmentos da produção, exportação e comércio, com forte incidência nos ingressos públicos (...),  empreendeu desvalorização relativa e limitada do real (...), impulsionou lentamente a queda da taxa básica de juros (Selic) para 7,25%”.

O que, no entanto, ressalta como essencial das avaliações prospectivas nesta edição do Correio é a limitação de visão estrutural e o limitado arco de ação redistributiva nos quais se enquadram medidas tais como as acima citadas. E que, certamente, e infelizmente, deverão dar o teor predominante de um ano que, conforme ressaltado, será de corrida contra o tempo em face dos eventos esportivos e eleitorais que se avizinham para 2014.

Conforme ressalta o economista Guilherme Delgado, “em resposta à crise do crescimento externo, o sistema econômico recalibra suas estratégias de defesa, agora cada vez menos encadeadas com uma política social distributiva e cada vez mais concentradas com os segmentos do setor primário-exportador. Aposta-se demasiado numa fantasia verbal – ‘o espírito animal do empresários’ – em detrimento do argumento da igualdade social”.

No que diz respeito a uma reação mais orgânica e efetiva a esta lógica, Maestri não se mostra otimista: “no Brasil e no mundo, grupos e movimentos que se propõem como revolucionários afastam-se da influência do mundo do trabalho e estabelecem espaços de colaboração com o grande capital”. Quanto ao Brasil especialmente, são também lembrados pelo historiador os efeitos nefastos do “lulismo”, “efeito e causa da fragilidade do movimento social brasileiro”, assim como as consequências das políticas lulo-petistas, “que procuram manter o controle estatal e político sobre enorme lúmpem-proletariado, em geral jamais realmente incorporado à produção”.

Leia a seguir entrevista exclusiva.

Correio da Cidadania: Qual a sua visão da situação mundial, nesse início de 2013?

Mario Maestri: Vivemos sob o peso da derrota histórica do mundo do trabalho de fins dos anos 1980, que permitiu a imposição das políticas neoliberais nos países capitalistas e a destruição das sociedades de economias nacionalizadas e planejadas no Leste Europeu. A vitória mundial da contrarrevolução destruiu-recuperou partidos, organizações, sindicatos operários e impôs aos trabalhadores a descrença no programa socialista e revolucionário para a solução do capitalismo.

A crise cíclica de subconsumo de 2008 foi postergada pela antecipação/criação fictícia de renda. Quando de sua eclosão, ela vergastou fortemente o coração tradicional do capitalismo, Estados Unidos e Europa, sem atingir, no entanto, o mundo inteiro. A fragilidade do mundo social permitiu radicalização do confisco de direitos (precarização do trabalho) e dos salários (diretos e indiretos) que, na Grécia, Espanha, Portugal, Itália etc., alcançam níveis altíssimos.

Na Europa, essa expropriação dá-se através da crescente perda de autonomia nacional, por meio do governo do grande capital exercido por órgãos supranacionais – Banco Central Europeu, União Européia, FMI, Banco Mundial. Esse super-governo supranacional começa já a ser institucionalizado, em superação tendencial das formas tradicionais da democracia burguesa.

Correio da Cidadania: Como os trabalhadores têm resistido? Qual a importância de movimentos como o ‘Occupy’ e outros semelhantes?

Mario Maestri: Não apenas na Europa, movimentos de resistência à ofensiva do capital diluíram-se e diluem-se porque os trabalhadores não vislumbram superação político-programática do caos social. Ou seja, não lutam pela nacionalização dos bancos, da grande indústria, da distribuição e dos serviços e, sobretudo, pela organização supranacional dos Estados, na ótica do mundo do trabalho, programa já perfeitamente factível na Europa.

Em sentido contrário, consolidaram-se transitoriamente propostas pequeno-burguesas do tipo Occupy, Indignados etc., que ampliam o apoliticismo e propõem modificações cosméticas e utópicas do capitalismo. Destaque-se a recente primeira tentativa européia de greve geral, bastante seguida na Espanha e na Itália, e fortemente sabotada pelo sindicalismo alemão.

Correio da Cidadania: Qual o peso, nesse processo geral, de acontecimentos como a chamada “Primavera Árabe”, a invasão da Líbia, a guerra na Síria?

Mario Maestri: Mantendo-se o dinamismo econômico na China e em regiões do Oriente, fortalece-se a contradição entre os polos capitalistas emergentes e o coração tradicional do capitalismo em crise. O capital imperialista tradicional mobiliza-se para superar a crise de acumulação e recuperar a hegemonia através da redução dos trabalhadores a escravos modernos e reconfiguração da ordem mundial, em processo semelhante ao que levou à superação da crise de 1930 com a hecatombe de 1939-40.

Essa reconfiguração mundial encontra-se em desenvolvimento através da submissão neocolonial de regiões produtoras de energia, como o Iraque e a Líbia, já concluída, ou o Irã e Síria, em realização.

Estrategicamente, o grande capital tradicional almeja vitória sobre a China, para transformá-la em enorme área de consumo de mercadorias, e sobre a Rússia, devido aos seus recursos naturais e poder militar. A submissão da Venezuela constitui também parte dessa política de ampla abrangência. O Brasil é peça fundamental dessa reorganização mundial.

As sublevações na Tunísia e no Egito registraram lutas populares por melhores condições de existência, em sociedades fortemente esgarçadas pelas políticas neoliberais. No Egito, mas também na Tunísia, os trabalhadores desempenharam papel importante, porém, não hegemônico nas mobilizações.

A falta de uma direção operária sólida permitiu a recuperação eleitoral daqueles movimentos pelo fundamentalismo islâmico, em clara aliança com o imperialismo, em reconfiguração do cenário político com fortes repercussões na Palestina. Nos últimos meses, no Egito e na Tunísia, trabalhadores e segmentos populares enfrentam-se diretamente contra os governos islâmico-burgueses, exigindo o cumprimento de pauta social e política.

Entretanto, essas lutas fundamentais, para a sorte do mundo, se dão em forma isolada, com a relativa estabilização nos demais Estados da região, sob o forte avanço do imperialismo na Líbia e, agora, na Síria. A enorme fragilidade política e ideológica da esquerda mundial se expressa também na escassa oposição e no literal apoio, comumente quase histérico, à submissão neocolonial das nações agredidas por grupos políticos que se reivindicam da revolução.

No Brasil e no mundo, grupos e movimentos que se propõem como revolucionários afastam-se da influência do mundo do trabalho e estabelecem espaços de colaboração com o grande capital, ao abraçarem a cínica retórica imperialista da luta contra ordens ditatoriais naqueles países.

Correio da Cidadania: Como esse processo se reverbera nos ditos países em desenvolvimento na América Latina e, entre eles, o Brasil?

Mario Maestri: As nações semicoloniais respondem à ofensiva do imperialismo, segundo a força e os interesses das classes nacionais, antagonizadas internamente. Na América do Sul, governos como o argentino, venezuelano, boliviano, equatoriano etc. disputam, sem romper com o imperialismo, parte dos ganhos permitidos, sobretudo, pela valorização das commodities, sob a pressão de população que viveu surtos revolucionários recentes, sem propor a superação da ordem capitalista, sob o peso da descrença assinalada no seu programa.

O Brasil tem papel central no continente, pela dimensão do território, da população, dos recursos e da economia. Porém, é enorme o atraso-fragilidade histórica do seu movimento social. No passado, o peso do escravismo e o pacto nacional-unitário das classes dominantes para defendê-lo (1822) consolidaram a fragilidade das classes subalternizadas. Apenas em 1888, dezessete anos após a Comuna de Paris, chegou ao fim o trabalho escravizado no Brasil!

No século 20, o colaboracionismo do PCB e PCdoB com a dita burguesia progressista contribuiu para a frustração de projeto autonômico entre os explorados. Nos anos 1950, a burguesia industrial abandonou projeto de autonomia nacional, para melhor manter o domínio sobre os trabalhadores, aceitando submissão crescente ao imperialismo. A partir de 1964, sob o tacão da ditadura militar, o mercado externo superou o interno como principal espaço de realização da produção nacional, reduzindo-se a participação relativa da população na renda do país.

Por alguns anos, o PT e a CUT avançaram o programa classista e tendencialmente anticapitalista, antes de serem domesticados, cada um ao seu modo e grau, sob a ação deletéria da maré neoliberal e dos golpes da reestruturação da produção nos anos 1980 e 1990. No início do novo milênio, o grande capital entregou o governo do país a Lula da Silva e à direção social-liberal petista, no final do ciclo depressivo da economia nacional.

Em 2002-2008, anos dourados do capitalismo, de forte valorização das commodities, o lulismo-petismo consolidou sua submissão ao capital e ao imperialismo. Essa submissão registrou-se nas baixas taxas de expansão da economia e de distribuição direta e indireta da riqueza do Brasil, as menores dos países ditos emergentes. Submissão permitida pela fragilidade política e orgânica dos trabalhadores, consolidada e ampliada pelos governos petistas.

Correio da Cidadania: Talvez por isso, os anos Lula sejam avaliados como de forte desmobilização social, através de hegemonia fortalecida por benesses sociais superficiais.

Mario Maestri: O lulismo é efeito e causa da fragilidade do movimento social brasileiro. Ele prosseguiu as privatizações diretas e indiretas, com destaque para o petróleo, aeroportos, portos, ferrovias etc., e manteve a sangria de capitais por pagamento de juros, dividendos, royalties... Essa política assegurou-lhe a benevolência e o apoio do grande capital. Ocupado em outras regiões do mundo, o imperialismo lhe subempreitou igualmente a neutralização do chavismo, a ocupação do Haiti etc.

Nos governos lulo-petistas, manteve-se e se ampliou a captação relativa e absoluta de sobre-trabalho, através da expansão do emprego, no geral de baixa qualidade, e a manutenção relativa do arrocho salarial, com remunerações médias em torno de um salário mínimo e meio. Devido aos escassos investimentos, prosseguiu a degradação geral das infraestruturas e serviços públicos na educação, saúde, segurança, lazer, saneamento e meios viários.

Esse processo foi acompanhado pela cooptação estatal de partidos, sindicatos, centrais e dirigentes sociais, através da remuneração milionária dos parlamentares; da licença à corrupção; de imposto e prebendas sindicais; de remuneração focalizada em segmentos organizados do movimento popular – cotas raciais; indenização de presos políticos; ONGs; fundos de pesquisa e cultura etc.

Nessa cooptação social, desempenhou forte papel a distribuição de renda pelo governo entre setores mantidos à margem da produção ou vivendo fortemente do nível médio de subsistência. Uma política que procura manter o controle estatal e político sobre enorme lúmpem-proletariado, em geral jamais realmente incorporado à produção.

Correio da Cidadania: Como o senhor vê a esquerda brasileira, no contexto das políticas e das medidas trabalhistas, sindicais e sociais dos governos Lula da Silva e Dilma Rousseff?

Mario Maestri: No contexto de longos anos de colaboracionismo e desmobilização social e forte metamorfose da sociedade, partidos e movimentos como o PT, PCdoB, PSOL, PSTU, MST etc., que no passado propuseram organizar a luta dos trabalhadores e do movimento social, viveram modificações profundas. Essa metamorfose produziu estranhos monstrengos, como a transformação de Aldo Rebelo, deputado comunista, em queridinho da Kátia Abreu e defensor do latifúndio, dos transgênicos e do agronegócio!

A política de submissão ao capital internacional, no contexto da expansão das exportações das commodities, associou elevadas taxas de juro, valorização perversa do real, crescente desnacionalização da indústria, regressão relativa da industrialização, em favor do agronegócio, dos interesses mineradores etc. Nos anos 1970, o peso da indústria de transformação no Brasil era pouco mais de 30%; hoje está abaixo dos 20%.

Correio da Cidadania: Neste contexto, o que pensa da conduta do governo Dilma na condução da política econômica interna, sobretudo no que diz respeito ao caráter das medidas tomadas para evitar uma desaceleração ainda maior da economia?

Mario Maestri: A manutenção das exportações de commodities amorteceu relativamente os efeitos da crise mundial no Brasil, apresentados pelo governo como fenômeno patológico chegado do exterior. Essas sequelas foram combatidas com liberalidades para o sistema bancário; por enormes renúncias fiscais; por subvenção do crédito para a indústria; pela expansão de modalidades de crédito popular etc. Através dos bancos públicos, estendeu-se o crédito por muito acima da expansão da economia, em indiscutível produção de renda fictícia.

Dilma Rousseff avançou um pouco mais o neodesenvolvimentismo lulista, mantendo o tradicional respeito canino às exigências do grande capital financeiro: câmbio livre, expatriação de juros e dividendos, livre entrada e saída de capitais, privatização dos bens públicos, internacionalização da economia e abertura do petróleo ao capital internacional. Serviu-se e segue servindo-se de medidas erráticas e contraditórias, ao sabor dos acontecimentos.

No início do governo Dilma Rousseff, devido ao perigo inflacionário, aumentaram-se os juros, negou-se qualquer aumento dos salários públicos e mínimo e cortou-se o orçamento. A presidenta foi aplaudida pelo conservadorismo pela nova forma de governar, diferenciada do populismo lulista. Com a regressão da economia, inverteu o passo: retomou o programa de gastos públicos, desonerou segmentos da produção, exportação e comércio, com forte incidência nos ingressos públicos.

Com a forte desindustrialização da economia nacional e correspondente crescimento das importações, empreendeu desvalorização relativa e limitada do real, para detê-la a seguir. Com a depressão econômica, impulsionou lentamente a queda da taxa básica de juros (selic) para 7,25%, sem jamais a colar à inflação, nem avançar tabelamento real e geral dos juros praticados no país.

Ainda que medíocre em relação aos países ditos emergentes, a expansão da produção dos últimos anos reduziu o desemprego, permitiu recuperação parcial e tímida dos salários, ampliou a formalidade do emprego, mesmo relativamente. Em forma paradoxal, aprofundou a rotatividade do trabalhador como estratégia de conquista individual de melhores salários. No contexto da enorme despolitização e do monopólio da mídia, a expansão vegetativa da renda popular tem garantido ao governo altas taxas de apoio.

Sob o lulismo, o salário mínimo teve uma recuperação relativamente maior, mantendo-se, porém, fortemente abaixo do mínimo necessário para a reposição normal da força de trabalho, sobretudo em sociedade dominantemente urbanizada e com forte socialização. Em verdade, não superou em muito o aumento da produtividade do trabalho. Manteve-se, portanto, a forte exploração geral dos trabalhadores, em favor do capital nacional e internacional.

Correio da Cidadania: O ano de 2012 foi de embate para várias categorias públicas e privadas. O que teria a dizer quanto ao atual patamar das lutas trabalhistas e sindicais?

Mario Maestri: O passado crescimento do emprego, em geral de baixa qualidade, fortaleceu a capacidade de barganha dos trabalhadores, sobretudo dos setores especializados e semiespecializados. A partir de 2008, o movimento grevista cresceu em qualidade e quantidade, com destaque para os anos 2011 e 2012.  Em 2011, tivemos 554 greves contabilizadas – 24% a mais do que em 2010.

Destacaram-se as greves espontâneas da construção civil, sobretudo nas grandes obras do PAC. Em geral, movimentos contra situações de trabalho semi-servil, registrando a verdadeira ditadura do capital no Brasil. As greves foram comumente reprimidas pelas forças policiais e pela ação dos sindicatos e centrais. Nas greves de 2011, destacaram-se a qualidade da luta e a vitória dos trabalhadores da Volks paranaense.

Em 2012, com a manutenção do emprego, aceleraram-se as greves no setor privado e público, federal e estadual. Novamente, destacaram-se as paralisações na construção civil. O setor público estadual conheceu duros movimentos das polícias militares, dos bombeiros e dos trabalhadores da saúde e da rede pública de ensino.

Destacaram-se as greves nacionais dos Correios, bancários e a enorme paralisação dos funcionários públicos federais, mais de 350 mil grevistas, com destaque para os professores universitários, que se encerraram, no geral, com a concessão de reajuste, em três anos, que sequer supera a inflação esperada.

Em geral, essas lutas mantiveram-se isoladas e voltadas sobre si, obtendo, quando muito, tímidas vitórias. Frustração devida em boa parte à colaboração da burocracia dos sindicatos e das centrais, que preferiram não enfrentar o capital e o governo para manter posições e privilégios. A forte greve dos metroviários de São Paulo foi abortada pela direção um dia após a eclosão.

Em nenhum momento as direções das centrais sindicais avançaram objetivamente a pauta de reversão mínima da correlação de forças em favor do mundo do trabalho: reajuste substancial do salário mínimo; retorno da estabilidade no trabalho; diminuição da jornada de trabalho sem redução do salário; liberdade plena do direito de greve; fim da redução tendencial das aposentadorias etc.

Correio da Cidadania: O ano de 2012 foi também de eleições municipais. O que os resultados dos pleitos enunciaram, a seu ver, quanto às forças políticas do país?

Mario Maestri: A fragilidade do mundo do trabalho expressou-se na enorme despolitização das eleições municipais, nas quais o bloco governista saiu vencedor, com redistribuição interna das posições, avançando em número de vereadores o PSB e o PT, recuando o PMDB. No geral, a direita tradicional (PSDB, DEM) recuou, sem se desorganizar.

A dessemantização final do PT foi registrada pela vitória do candidato de Lula da Silva para a prefeitura de São Paulo, abraçado ao malufismo; na humilhação eleitoral de Porto Alegre, a cidade símbolo da outra forma de governar; na vitória em apenas quatro capitais, menos do que as cinco do PSB, registro da perda do consenso do eleitor mais consciente.

O avanço e a consolidação de siglas fisiológicas e de aluguel (PT do B, PRTB, PTC, PSC etc.), que elegeram milhares de vereadores e centenas de prefeituras, foram fenômenos pouco assinalados nas passadas eleições e registro da despolitização crescente do país.

Avançou significativametne o número de vereadores e de prefeitos declaradamente evangélicos. Fortalecida pelas importantes metamorfoses conhecidas pela sociedade, essa corrente político-ideológica impõe fortemente sua pauta conservadora ao parlamento e ao executivo, com o apoio do capital.

A votação de Russomanno para a prefeitura de São Paulo aponta a possibilidade de, em médio prazo, prefeitos de capitais, governadores de estados e, quem sabe, algum dia, presidente da República, declaradamente evangélicos. Não há resistência à maré evangélica pela esquerda operária e democrática. Há poucos anos, a ex-senadora Heloísa Helena concorreu à presidência apoiada por partidos de esquerda, negando-se a defender, devido a suas convicções fundamentalistas, parte do programa democrático da sociedade.

Os fundamentalismos evangélico e católico romano impuseram aos governos petistas de Lula da Silva e, sobretudo, de Dilma Rousseff a crescente legalização do escorcho da população alienada e a sua pauta social-obscurantista (oposição à interrupção voluntária da gravidez; direito de matrimônio civil para todos; legislação e ensino anti-homofóbicos; caráter laico do Estado etc.).

Foram pífios os resultados da esquerda não governista, no geral sob o império do eleitoralismo. O PSOL aumentou seus vereadores de 25 para 49, abraçando-se em Belém e Macapá, onde tinha esperança de vitória, ao PCdoB, PPS, PV, PMN, PTC e PRTB, com programa codinzente às alianças.

Em Belém, concorreu com candidato já duas vezes prefeito pelo PT! No segundo turno, nessa cidade, contou com a presença de Lula da Silva e Dilma Rousseff na propaganda eleitoral oficial. Para a vitória em Macapá, o condidato derrotado do DEM e outras facções da direita regional deram uma mãozinha para sustentar o andor eleitoral psolista, em contubérnio jamais visto, aprovado e elogiado pela direção nacional daquele partido.

Após quase 35 anos de sua implantação no Brasil como Liga Operária, o PSTU repetiu seu tradicional jejum eleitoral. Mesmo assim, soltou fogos de artifício, pois passou de nenhum vereador para dois, um deles eleito em Belém, no trenzinho eleitoral do PSOL, justificado pomposamente pela direção nacional. O PCB teve queda de 13 para 5 vereadores.

Nessas eleições, um dos partidos mais votados foi o anti-eleitoral, conquistando o voto nulo, branco e a abstenção quase 36 milhões de eleitores. Ou seja, praticamente 26% dos votantes não votaram, sem ser tal proposta defendida por qualquer agremiação política, à exceção de pequenos núcleos anarco-sindicalistas e marxista-revolucionários sem maior audiência

Correio da Cidadania: O ano de 2012 foi ainda incontestavelmente marcado pelo chamado Mensalão. Quais as lições e decorrências que emanam desse episódio?

Mario Maestri: Certamente o grande acontecimento político de 2012 foi o julgamento do Mensalão. Apesar de não ter rendido os dividendos eleitorais esperados, ele mostrou-se como operação de amplo fôlego da direita orgânica brasileira, com repercussões e sequelas ainda difíceis de prever.

O Mensalão foi parido pela ilusão petista de que tudo lhe seria permitido, desde que ao serviço do grande capital. Embriagada pelo poder, a direção petista não compreendeu que o capital lucrava com Lula da Silva e o PT no governo, como lucraria igualmente ao jogá-lo na valeta da corrupção, achincalhando não o que é ele hoje, mas o que significou no passado.

O julgamento do Mensalão tem igualmente explicitado a disputa sem princípios no interior do PT, entre o dilmismo, apoiado hoje pelo grande capital, e a proposta de retorno do lulismo, em 2014, apoiada no aparelho petista, no qual a presidenta aterrissou tardiamente sem jamais integrá-lo.

Após a sucessão de quedas ministeriais do primeiro ano de governo, Dilma abandonou totalmente os mensaleiros petistas e o próprio PT, facilitando, através da operação Porto Seguro, da Polícia Federal, o ataque direto a Lula da Silva, já fragilizado pela luta contra o câncer.

Para domesticar qualquer ensaio de resistência do aparato petista, a presidenta acenou com o eventual, mas pouco provável, retorno ao PDT, enviando como vanguarda o ex-marido, que encontra naquele partido a oposição de Carlos Lupi, ex-ministro do Trabalho, presidente nacional do PDT, aliado de sempre do lulismo, por ela defenestrado.

Na arapuca política em que caiu o núcleo histórico do PT, a grande surpresa foi Joaquim Barbosa. Histriônico e pouco equilibrado, hiper-midiatizado como o “novo caçador de corruptos”, o juiz serviu-se do julgamento para tentar exorcizar a pecha de menino de recados do petismo e cotista excelente de Lula da Silva no STF, insuportável para sua conhecida vaidade.

Teleguiado pela grande mídia, Joaquim Barbosa comandou torção da lei com condenações por convicção que descartam a necessidade de provas materiais. Dirigiu, igualmente, a tentativa de transformar o STF em superpoder, capaz de depor deputados e senadores e, quem sabe, proximamente, governadores e presidentes! Transformou-se em trunfo político eventual da direita e em literal e mina vagante no STF, por longos anos. Joaquim Barbosa foi apenas mais um registro da improvisação e aproximação administrativa do PT no governo federal.

Correio da Cidadania: Podemos esperar um ‘saco de maldades’ governamentais em 2013, para ‘sanear’ o orçamento a ser aliviado em 2014, ano da Copa e das eleições presidenciais?

Mario Maestri: O ano de 2013 deve ser de fortes investimentos públicos e renúncia fiscal, para contrabalançar a provável fraca atividade econômica, que pode se aprofundar no caso de recuo da economia chinesa. Vai certamente prosseguir o arrocho salarial da área pública e se fortalecer a tendência a uma ainda maior intransigência patronal na área privada. Tudo isso em ciclo expansivo da atividade grevista. As escassas concessões da administração Dilma Rousseff já causam tensões entre as direções pelegas sindicais, saudosas do governo passado. Tudo aponta para que 2013 seja um ano tenso, ainda que dificilmente positivo para o mundo do trabalho.

Correio da Cidadania: O senhor vê alguma diferença entre Lula e Dilma em suas respectivas conduções política, econômica e social da nação?

Mario Maestri: O grande capital entregou o governo do país a Lula da Silva, sobretudo devido ao prestígio e ligações orgânicas e simbólicas que ele ainda mantém com o mundo do trabalho, por ter comandado, no passado, as greves históricas dos fins dos anos 1970 e a construção de partido e confederação classistas e anticapitalistas nos anos 1980. Mesmo sendo hoje espectro do passado, verdadeiro gigolô de sua biografia, Lula da Silva não pode romper totalmente os fios de Ariadne que o ligam com o movimento social.

Dilma Rousseff foi guindada ao poder por Lula da Silva, precisamente por não possuir vínculo com as classes trabalhadoras e populares. Em verdade, tem poucas possibilidades de estabelecer tais vínculos e não se interessa essencialmente por eles. Com as rédeas do governo na mão, o que lhe permite manter sob seu controle os grandes partidos fisiológicos da base do governo (PT, PC do B, PDT, PSB, PMDB), Dilma transformou-se em candidata ideal do capital para 2014.

Dilma Rousseff significa para o capital o lulismo sem Lula e sem o PT, em clara torção elitista. Entretanto, no caso de manter-se o jejum de 2012 na economia, tudo será possível em 2014.

Valéria Nader, economista e jornalista, é editora do Correio da Cidadania.
LEIA MAIS...