segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O PT com medo de peido

0 comentários
José Ribamar Bessa Freire
24/11/2013 - Diário do Amazonas

- Menino, tua camisa está com medo de peido.
Foi assim que a Elita, filha da dona Nêga, nossa vizinha lá no beco, em Manaus, saudou minha passagem em frente à sua casa no meu primeiro dia de aula, há 60 anos, quando era eu ainda analfabeto. A expressão criada pela sabedoria popular era muito usada, pelo menos no Amazonas, para denominar uma camisa muito curta. Eis o que eu queria dizer: foi essa "camisa com medo de peido" que vários amigos meus do PT vestiram depois da prisão de Dirceu, Genoíno e Delúbio.
Por que este modelo medroso de camisa? No meu caso, é fácil explicar. Sem dinheiro para comprar a farda do Colégio Aparecida - calça marrom e camisa branca - minha mãe fabricou, ela própria, o uniforme, em uma antiga máquina de costura Singer que tinha pedal gradeado de ferro, gabinete e gavetas. Para isso, transformou os restos de uma batina velha do meu tio, mas o pano era insuficiente e a camisa ficou acima da cintura, deixando meu umbigo de fora. Nunca mais esqueci a gozação da Elita.
E no caso do PT, qual o receio? Na abordagem das recentes prisões, alguns companheiros vestiram simbolicamente a camisa do PT, mas um modelo curto, deixando a descoberto o bumbum, que ficou mais por fora que umbigo de vedete. Eles juram de pés juntos que Dirceu, Genoíno e Delúbio são inocentes, foram injustiçados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), podem ser considerados presos políticos e devem ser tratados como heróis e mártires. Em consequência, execram o presidente do STF, Joaquim Barbosa, como alguém "vingativo", "ressentido" e "mesquinho". Esse é o resumo da ópera.
Dirceu crucificado
Confesso que aqui, neste espaço semanal, tenho me omitido pela mesma razão que levou o Dedé, hoje no Cruzeiro, a não querer jogar neste sábado contra o Vasco, seu time do coração. Não sou um craque como o zagueirão, mas fui presidente do PT-AM e delegado ao encontro nacional em fevereiro de 1980, no Colégio Sion, quando votamos o programa, o estatuto e o plano de ação do partido. Por isso, me recuso a fazer coro com vozes, algumas delas tenebrosas, que se rejubilam com este episódio. Acho que um PT enfraquecido não é bom para o Brasil.
A prisão de Genoíno, a quem admiro, me dói pelos sonhos compartilhados. No entanto, me dói igualmente a reação irracional de companheiros que, de camisa curta, defendem o indefensável. Zombam de nossa inteligência. Intimidam. Um sindicalista, com formação católica, chegou ao cúmulo de dizer num exagero exorbitante que "Dirceu foi condenado, como Jesus, por ousar desafiar os poderosos". Juro que ele escreveu isso: tem registro e testemunhas. O "argumento" me foi repetido nesta quinta-feira por um amigo com quem casualmente encontrei no Aeroporto de Confins.
- Isso é uma heresia. Quando morrer, você vai pro inferno - eu lhe disse, brincando, mas ele não gostou. Acrescentei que esta não era uma forma eficaz de defesa dos condenados pelo STF, além de expô-los ao ridículo. Argumentei:
- A comparação é descabida. Dirceu foi condenado não por haver lutado contra a ditadura há quase meio século, mas pelo que fez recentemente, quando, deslumbrado, já estava no exercício do Poder. O Crucificado nunca esteve no poder, não comprou votos do Grande Sinédrio, não nomeou os membros da Suprema Corte Judaica, não escolheu Caifás, Pilatos, Herodes e Dias Tóffoli. A comparação só seria pertinente se o crucificado fosse outro, aquele a quem Jesus de Nazaré prometeu: "Em verdade, em verdade te digo, que hoje mesmo estarás comigo no Paraíso".
Mas muitos petistas, felizmente, não vestiram a "camisa com medo de peido", escolheram outro modelo.  É o caso de um dos fundadores do PT, ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-ministro do Lula, Olívio Dutra, para quem Dirceu, Genoíno e Delúbio não são presos políticos: "Com todo o respeito que essas figuras têm, mas não é o passado que está em jogo, é o presente, e eles se conduziram mal" - disse o bigodudo gaúcho.
O ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, embora declarando que estava "de coração sangrando por companheiros presos", reconheceu que "o PT foi induzido a práticas condenáveis de corrupção por conta do financiamento privado de campanha".
A salvação do PT depende agora de militantes capazes de fazer autocrítica e não daqueles que, de camisa curta, querem legalizar uma prática condenada por lei e pelo programa do Partido. Esses últimos estão mais comprometidos com o aparelho partidário do que com os destinos do Brasil. Quando questionados, tentam desqualificar quem pensa diferente deles, acusando-nos de "janista", "udenista", "moralista", "inocentes úteis".
Medo de pagar
Desde sua fundação, o PT lutou contra a corrupção e ganhou o apoio da parte sadia da nação. Agora, que pela primeira vez na história do país banqueiros são presos por crimes financeiros, alguns militantes acham isso uma arbitrariedade, porque junto com os banqueiros foram punidos também sócios do núcleo político. É estranho que militantes fanáticos busquem desmoralizar o STF, cujos membros foram em sua maioria nomeados por Lula e Dilma por seus méritos profissionais. Trata-se de um tiro no próprio pé, que compromete o avanço da democracia.     
Parem com isso! Henrique Pizzolato não é um exilado político, é um foragido da Justiça. Chega a ser patético afirmar que Dirceu é um preso político, quando se trata de um político preso, e aqui a ordem dos fatores altera o produto. O Brasil não vai acabar porque transgressores da lei foram encarcerados.Não é correto falar de "golpe". Essa história que anuncia "depois de mim, o Delúbio" não se sustenta. Quem errou, tem que pagar pelo que fez. Afinal, quem tem medo de pagar, não come.
Os condenados não foram a quadrilha de banqueiros e o núcleo político que com ela operou. O pecador não interessa, mas o pecado sim. O que se condena, mais do que pessoas, é um tipo de prática que não podemos aceitar, justificar e defender. Reconhecer isso nos dá força moral para lutar por uma reforma política e para cobrar julgamento do valerioduto do PSDB em Minas Gerais, que contou com a participação de Eduardo Azeredo, causando prejuízos de R$3,7 milhões ao Estado de Minas Gerais.
Denúncias pipocam sobre a corrupção no governo paulista em licitações do setor metroferroviário, envolvendo políticos do PSDB e do DEM que receberam propinas de várias empresas. As vozes tenebrosas, oriundas do fundo das cavernas, que demonstraram júbilo com as prisões de Genoíno, Dirceu e Delúbio, agora se calam. Como cobrar a apuração desses crimes, se, como eles, usamos "camisa com medo de peido" e exibimos medo de algo muito mais consistente do que uma mera ventosidade?


LEIA MAIS...

25 de novembro - Dia Internacional da não-Violência contra a Mulher

0 comentários
25 de novembro
Dia Internacional da não-Violência contra a Mulher

No dia 25 de novembro foi lançada a CAMPANHA MUNDIAL DE COMBATE A VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES e se estenderá até o dia 10 de dezembro, "Dia Internacional dos Direitos Humanos".

A data de 25 de novembro de 1960 ficou conhecida mundialmente por conta do maior ato de violência cometida contra mulheres. As irmãs Dominicanas Pátria, Minerva, e Maria Teresa, conhecidas como “Las Mariposas”, que lutavam por soluções para problemas sociais de seu país foram perseguidas, diversas vezes presas até serem brutalmente assassinadas.

A partir daí, 25 de novembro passa a ser uma data de grande importância, principalmente para aquelas que sofrem ou já sofreram violência.

Violência ocorre nos espaços públicos e privados e não é só agressão física é também psicológica e moral. Agressões verbais reduzem a auto-estima e fazem as mulheres se sentirem desprezíveis.  Causam danos à saúde: geram estresse e enfermidades crônicas. A violência interfere na vida, no exercício da cidadania das mulheres e no desenvolvimento da sociedade em sua diversidade.

25 de novembro como o “Dia da Não Violência Contra a Mulher”, foi decidido por organizações de mulheres de todo o mundo reunidas em Bogotá, na Colômbia, em 1981 em homenagem as irmãs, que responderam com sua dignidade à violência, não somente contra a mulher, mas contra todo um povo. A partir daí, esta data passou a ser conhecida como o “Dia Latino Americano da Não Violência Contra a Mulher”.

Em 1999, a Assembléia Geral da ONU proclama essa data como o ”Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra a Mulher” a fim de estimular que governos e sociedade civil organizada nacionais e internacionais realizem eventos anuais como necessidade de extinguir com a violência que destrói a vida de mulheres considerado um dos grandes desafios na área dos direitos humanos.

A violência contra a mulher passa a ser um problema mundial que não distingue cor, classe social nem raça: é maléfica, absurda e injustificável!! Essa Campanha tem como objetivos revelar a dimensão do feminicídio e denunciar o aumento do número de casos de mortes de mulheres por razões de gênero. Chamar a atenção sobre índices e ausência de registros confiáveis; estimular a informação sobre o feminicídio e atuar contra a impunidade.

 A violência contra as mulheres é uma questão social e de saúde pública, pois:
- Revela formas cruéis e perversas de discriminação de gênero;
- Desrespeita a cidadania e os direitos humanos;
- Destrói sonhos e viola a dignidade.

Tem se mostrado como expressão mais clara da desigualdade social, racial e de poder entre homens e mulheres, tornando visível a opressão social, em que se materializa nas marcas físicas e psicológicas ao segmento que perfaz mais da metade da população brasileira.

Dia 25 de novembro será um dia importante para manifestar, lembrar, protestar e mobilizar a sociedade e o estado contra a violência à mulher.

Essa luta é nossa e de todos que se comprometem pela defesa Direitos Humanos. A CAEFE em parceria com o Grupo de Gênero de Furnas vem discutindo esse tema e se faz presente nessa importante Campanha.


Fonte: CAEFE
LEIA MAIS...

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Os punhos fechados de Dirceu e Genoíno

1 comentários
Preso por corrupção não é preso politico. É corrupto mesmo!
por Juazeiro*

No dia 15/11 dois ex-militantes de esquerda e socialistas voltaram à prisão. Zé Dirceu e Zé Genoíno ao serem conduzidos à cadeia, ergueram os punhos fechados, símbolo de resistência da esquerda, aquilo que eles já foram um dia.

Honestamente, não entendi o porquê da alusão à esquerda num momento desses. Se Dirceu e Genoíno estão atrás das grades hoje, uma das razões foi, justamente, o afastamento progressivo daquilo que eles já defenderam um dia.

Para nós da esquerda o punho erguido e fechado simboliza a resistência, a firmeza e a combatividade. Resistência aos opressores, a resistência daqueles que se recusam a aceitar o mundo do jeito que está e lutam por dias melhores. Firmeza nos princípios e ideais que defendemos; de que apenas a superação desse sistema será capaz de acabar com a barbárie e toda a desigualdade do mundo. Combatividade contra aqueles que se locupletam com todo o horror que temos hoje, identificando nossos inimigos de classe e os combatendo, jamais nos aliando ou servindo de qualquer maneira a eles.

A mais emblemática cena de punhos fechados que sintetiza tudo isto acima ocorreu nas olimpíadas de 1968, quando os atletas negros Tommie Smith e John Carlos, que ganharam as medalhas de ouro e bronze (respectivamente) nos 200 metros rasos e, durante a execução do hino estadunidense, ergueram os punhos fechados, que era a saudação do Partido dos Panteras Negras, partido este que lutava contra a política segragacionista que existia nos EUA naquele período. Após o marcante gesto, ambos foram expulsos da delegação dos EUA, bem como das olimpíadas.

A primeira vez que Dirceu e Genoíno foram presos foi durante a ditadura, nos anos 60/70. Naquela época eles tanto fizeram, como também se identificavam com toda a simbologia do punho cerrado descrita acima. Dirceu foi preso no congresso da UNE em Ibiúna, quando tentava organizar a resistência à ditadura dentre os estudantes, sendo libertado em troca do embaixador estadunidense 2 anos depois. Foi pra Cuba, fez treinamentos onde se aperfeiçoou na guerrilha urbana e voltou ao Brasil na clandestinidade. Genoíno foi preso e barbaramente torturado, quando tentava construir a guerrilha que resistiria à ditadura pelo campo, a famosa Guerrilha do Araguaia. Amargou todos os horrores dos porões da ditadura que, como admitiu o mesmo, até hoje lhe trouxeram consequências de ordem psíquicas e de saúde.

Aquelas prisões apenas atestam o quanto o passado dos mesmos era de lutas. O quanto eles foram importantes para a história do Brasil, da resistência da esquerda àquele regime nefasto. Ocorre que, passado de lutas não é salvo conduto para ninguém justificar seus erros e desvios no presente.

Mais estarrecedor do que vê-los preso hoje, foi a militância socialista e revolucionária observar a profunda mudança ideológica de ambos e ver no que eles se transformaram.

Os mandatos de Dirceu e Genoíno a frente do PT foram marcados pela consolidação daquele partido à ordem e a sua domesticação ao sistema. Dirceu perseguiu com mão de ferro a antiga esquerda do PT, esmagou os adversários internos, deu início à implementação de um programa que abriu o arco de alianças aos partidos da ordem de direita (alguns deles, inclusive, oriundos da ditadura militar que prendeu Dirceu, torturou Genoíno e matou inúmeros companheiros de ambos), composição governamental e governabilidade por dentro das estruturas, o que excluiu o povo e acabou por desaguar no mensalão.

O mandato de Genoíno à frente do PT, quando este partido já demonstrava que o caminho traçado por Dirceu era sem volta, além de consolidar aquele projeto, foi responsável também pela expulsão dos radicais Babá, Luciana Genro e Heloísa Helena. Prova cabal que não havia mais espaço para um pensamento divergente ao do campo majoritário, e que aqueles que não seguissem sua cartilha acabariam por ter o mesmo fim. Stalinismo à moda antiga!

Portanto, após isso tudo, ver Dirceu e Genoíno levantarem os punhos cerrados é de causar indignação e estranheza a todos aqueles que se mantiveram coerentes com os seus princípios. Aparenta mais ser uma jogada de marketing pitoresca, com o objetivo de se vitimarem para tentarem iludir o que ainda resta de militância petista de esquerda. Atualmente não há nenhuma autoridade para que ambos se utilizem de um símbolo de resistência da esquerda.

Enquanto o governo que Dirceu e Genoíno apoiam estava preocupado em retirar direitos da classe trabalhadora, com aquela reforma da previdência comprada pelo mensalão, os trabalhadores cerraram os punhos e foram às ruas lutar contra ela. Enquanto o governo que Dirceu e Genoíno apoiam estava preocupado em implementar uma reforma universitária que enfraquecia as universidades públicas e precarizava ainda mais o ensino, a pesquisa e a extensão, os estudantes também cerraram os punhos e foram às ruas lutar pelo ensino público, gratuito e de qualidade. Enquanto o governo que Dirceu e Genoíno apoiam estava preocupado em enfraquecer os sindicatos com a horripilante proposta de reforma sindical, a classe trabalhadora cerrou os punhos e foi às ruas lutar. Enquanto o governo que Dirceu e Genoíno apoiam estava preocupado em favorecer os interesses especulativos de gente como Eike Batista, e começou o processo de privatização do nosso petróleo com os leilões das bacias petrolíferas, o povo cerrou os punhos e foi às ruas exigir o fim desse crime contra a nossa soberania e lutar para que o petróleo voltasse a ser nosso.

Diante de todos esses ataques, onde estavam e a quem serviam Dirceu e Genoíno? Seus punhos estavam fechados em solidariedade àqueles que lutavam e ainda lutam? Definitivamente, não!

É muito mais revoltante vermos as prisões dos black blocs, dos estudantes, dos trabalhadores, dos sem-terra, dos índios e dos líderes quilombolas (estes últimos, quando não morrem pela ação truculenta da polícia, com a omissão do judiciário e com a leniência do governo que Dirceu e Genoíno apoiam, haja vista que tal governo não se empenha em demarcar as terras indígenas e quilombolas, como também não implementou a reforma agrária) quando sabemos que eles estão lutando contra tudo aquilo que Dirceu e Genoíno vêm apoiando nós últimos anos.

Não vamos entrar no oba-oba na mídia corrupta, que é capaz de elogiar o governo que Dirceu e Genoíno apoiam no momento que lhes é oportuno, e dizer que eles estão sendo presos porque são corruptos. O papel daqueles que levantam as mãos e cerram os punhos honestamente, todos os dias, é dizer que a corrupção é inerente a opção de governo que ambos tiveram.

Pouco importa o julgamento da justiça burguesa. O que temos certeza em relação a Dirceu e Genoíno é que a história não os absolveu.

*Juazeiro é Advogado e militante do PSOL 
LEIA MAIS...