segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Meio milhão de assinaturas contra Belo Monte serão entregues ao governo amanhã

Indígenas, ribeirinhos e atingidos por barragem farão manifestação contra a usina em Brasília para entrega de petições

Mais de 500 mil pessoas dizem não a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. As petições, organizadas pela Avaaz e Movimento Xingu Vivo para Sempre, serão entregues à Presidência da República nesta terça, dia 8 de fevereiro, em um ato contra a usina na Explanada dos Ministérios, em Brasília.

A manifestação, convocada pelo Movimento Xingu Vivo para Sempre, Conselho Indigenista Missionário, Movimento dos Atingidos por Barragens, Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, Instituto Socioambiental e AVAAZ, contará com a presença de cerca de 150 ribeirinhos e indígenas Kayapó, Juruna, Arara e Xipaya de Altamira, do Sul do Pará e do Mato Grosso, além de cerca de 50 componentes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e dezenas de lideranças sociais e militantes ambientalistas.

Entre as presenças confirmadas estão o cacique Megaron Txucarramãe, liderança kayapó do Mato Grosso; Sheyla Juruna, liderança juruna de Altamira; cacique Ozimar Juruna, da aldeia Paquiçamba, em Altamira; Josinei Arara, liderança da aldeia Arara, de Altamira; e Antonia Melo, coordenadora do Movimento Xingu Vivo para Sempre.

Apoios

A cantora e compositora Marlui Miranda deverá participar da manifestação com apresentações artísticas, e atores como Marcos Palmeira, Letícia Spiller e Dirá Paes enviaram manifestações de apoio.

Agenda

O objetivo dos movimentos sociais, articulados na Aliança dos Rios da Amazônia (que reúne as organizações das bacias do Xingu, Madeira, Teles Pires e Tapajós), é entregar as petições e uma agenda de discussão sobre as hidrelétricas na Amazônia e o programa energético brasileiro para a presidente Dilma Rousseff, em audiência já solicitada. De acordo com a Aliança, desde Balbina e Tucuruí, historicamente as usinas na região têm sido desastrosas do pont o de vista social e ambiental, fato reconfirmado pelos inúmeros problemas que atualmente cercam as obras de Santo Antonio e Jirau no rio Madeira.

O pedido de revisão dos projetos hidrelétricos nos rios da Amazônia e a proposta de uma nova agenda energética para o país já foram apresentados pela Aliança dos Rios da Amazônia à Secretaria Geral da Presidência, em audiência realizada na última sexta, dia 4.

Serviço:

Manifestação contra Belo Monte e entrega de petições
Data: Terça feira, 8 de fevereiro
Onde: Brasília
Local: concentração no gramado em frente ao Congresso Nacional
Horário: 9h30

Contatos para imprensa:

Verena Glass – (11) 9853-9950
Tica Minami – (11) 6597 8359
Cleymenne Cerqueira - (61) 9979-7059
Maíra Heinen - (61) 9979-6912

Fonte: http://xingu-vivo.blogspot.com

Ir. Dorothy, uma sagrada herança a ser defendida!

Aproxima-se a data em que recordamos o 6º ano de martírio de Ir. Dorothy Stang. Recordar é trazer novamente ao coração (re+cordar), é fazer memória viva e afetiva de algo ou de alguém que soube intuir o coração da existência, que soube colocar seu projeto nas estrelas, que penetrou no mistério mais profundo do ser e do fazer.


Nessa caravana de pessoas significativas da história, Ir. Dorothy certamente foi uma madrugadora de novos tempos. Seu olhar rompeu fronteiras e transpôs horizontes perceptíveis somente por pessoas revestidas de uma mística evangélica, própria de grandes profetas.


Em tempos de sedução pelo lucro, de ganância voraz, de demolição do planeta terra, de ilimitada cobiça pela Amazônia, de consumo insustentável, Ir. Dorothy intuiu a presença divina à ‘brisa do dia’(Gn 3,8) da floresta, apostou no manejo inteligente da riqueza natural, acreditou na harmonia originária da obra do Criador com o ser humano, este como cultivador do jardim criado. Ir. Dorothy mergulhou no mistério de Deus que concede ao ser humano usufruir de todos os frutos do jardim, como nos relata o livro do Genesis, sendo-lhe vedado o acesso à árvore da vida (Gn 2,17), ou seja, é negado ao ser humano o acesso à manipulação da vida. A vida não pode ser violada, pois é da esfera divina.


Ir. Dorothy compreendeu tal ordem divina de forma muito concreta. A vida das pessoas, das florestas, dos animais, toda a biodiversidade do planeta terra deve ser preservada. Traduzindo em ação concreta, deixou-nos como herança o PDS – Projeto de Desenvolvimento Sustentável, projeto este que se tornou referência para quem busca propostas alternativas de vida neste chão. Pela intuição e sonho do projeto, o PDS poderia ser traduzido, não mais como Projeto de Desenvolvimento Sustentável, mas como Plano Divino de Salvação da Amazônia.


Nessa sua sedutora trajetória, Ir. Dorothy deixou-nos uma herança sagrada que sofre constantes ameaças de dilapidação, depredação, destruição. A ordem divina de não aproximação da árvore da vida continua sendo violada. Derruba-se florestas, cobiça-se terras, destrói-se sonhos.


A herança de Ir. Dorothy necessita de anjos postados as portas do paraíso (Gn 3,24), para proteger e defender o jardim da voracidade depredadora das serpentes de todos os tempos. Cabe a cada pessoa de boa vontade defender esta sagrada herança.


Por: Ir. Zenilda Luzia Petry – IFSJ

O Xingu do século 21 ameaçado

Por: CARLOS HAMBURGER

Se nossos dirigentes tivessem interesse em entender a cultura dos indígenas, abortariam qualquer projeto que os ameaçasse, como Belo Monte


Em 2011, o Parque Indígena do Xingu está fazendo 50 anos. Algo profundo mudou na minha percepção de mundo enquanto conhecia o parque e sua história durante a produção do filme "Xingu".

Sem dúvida, é um dos maiores patrimônios do Brasil -e nós, brasileiros, não temos a menor ideia do que ele representa e do que está protegido ali. Criado em 1961, é a primeira reserva de grandes proporções no Brasil.

Abriga povos de cultura riquíssima e filosofia milenar, que vivem em equilíbrio, preservando seu modo de vida, sua dignidade, sua cultura e vasta sabedoria, assimilando só o que vale a pena do "mundo de fora", sempre em sintonia com a natureza exuberante. Um verdadeiro santuário social, ambiental e histórico no coração do Brasil.

Mas não estamos falando só de preservação do passado e da natureza. O que está sendo protegido ali é o futuro. Não o futuro visto com os óculos velhos, sujos e antiquados que enxergam o progresso da mesma maneira como enxergavam nossos bisavós na Revolução Industrial, mas o futuro do século 21.

Esse talvez seja o maior patrimônio do Brasil hoje. Mais valioso que todo o petróleo, soja, carne, ferro que tiramos do nosso solo, ou todo automóvel, motocicleta, geladeira que fabricamos.

O que está protegido ali é um novo paradigma de como o ser humano pode e deve viver. Não estou dizendo que precisamos morar em ocas, dormir em redes, tomar banho no rio e andar nus. Falo de algo mais profundo.

Algo novo para nós, ditos civilizados, que nascemos e fomos criados como os donos do planeta. Arrogantes e prepotentes, nos transformamos no maior agente destruidor do nosso próprio habitat.

Um exército furioso de destruição. Um vírus que se multiplica e ataca, transformando e destruindo tudo o que encontra em seu caminho na presunção de que estamos construindo um mundo melhor, mais seguro, mais confortável, mais rentável. No Xingu, progresso tem outro significado.

No Xingu, homens e mulheres não vivem como donos do mundo, não foram criados com essa arrogância. Vivem como parte da cadeia de vida do planeta, e essa cadeia é interligada e interdependente. O "progresso" e o bem-estar dos homens está ligado ao equilíbrio dessa cadeia. Para os índios, homem e natureza evoluem juntos.

Golpe baixo

Mas a megausina de Belo Monte quer represar o rio Xingu. O rio que é a alma e a base da vida das comunidades indígenas da região.

Um golpe baixo, em nome do progresso. Progresso com os velhos parâmetros dos séculos 19 e 20, que tem levado o mundo ao colapso social e ambiental.

É isso que queremos?

Se nossos dirigentes e a sociedade como um todo se interessassem em entender a filosofia, a cultura e a inteligência dos povos indígenas, abortariam qualquer projeto que os ameaçasse. E poderíamos inaugurar novo paradigma de progresso.

O progresso do equilíbrio. Seríamos a vanguarda mundial do século 21. Essa é a demanda. Essa é nossa chance. Sejamos corajosos, ousados, visionários. Como foram os que lutaram pela criação do Parque do Xingu há 50 anos.

Fonte: Folha de São Paulo

Salve o dia nacional do Gráfico - viva Tércio Miranda

Hoje sete de fevereiro é o Dia Nacional do Gráfico, a data comemorativa tem sua origem em 1923 em São Paulo com o movimento grevista por melhores salários e condição de trabalho. Foi a partir desse vitorioso movimento que os trabalhadores criaram o Sindicato da Categoria - União dos Trabalhadores Gráficos sendo seu primeiro Presidente o linotipista João da Costa Pimenta.

Em Manaus destacamos a luta do primeiro editor do jornal Operário Lucta Social Trércio de Miranda que comandava na cidade a luta dos desempregados na sua grande maioria seringueiros que perambulavam pelas ruas vitimas do declínio da borracha nas primeiras décadas do século passado. Anos mais tarde podemos destacar a grande liderança do linotipista Jamacy Sena Bentes de Souza Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Gráficos, entidade fundada em 1913 com o nome de União das Artes Gráficas do Amazonas que, em 1914 passa a ser denominado de Sindicato. Jamacy Bentes é o pai do renomado escritor amazonense Márcio de Souza.

Foi da Luta do Sindicato dos Trabalhadores Gráficos que saiu o Coordenador do Comando Geral dos Trabalhadores - CGT no Amazonas, Aviz do Amaral Valente no inicio da década de 60, essa organização foi duramente reprimida pelo golpe militar de 31 de março de 1964, tendo a maioria dos seus lideres sofrido com prisões, torturas e morte!

Saudamos nesta data todos os Trabalhadores Gráficos, de modo especial homenageamos o criador deste instrumento de luta dos oprimidos e desamparados o jornal Operário Lucta Social, trata-se do Tipógrafo Tércio de Miranda, cujo maior honra é sermos continuadores de sua Luta.

Os Editores

domingo, 6 de fevereiro de 2011

"Meu julgamento é político"

Política

Maria Mello e Vinicius Mansur

Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, o refugiado italiano Cesare Battisti (FOTO), preso no Brasil desde março de 2007, ressalta que seu julgamento fugiu da esfera jurídica depois que virou moeda de troca da política internacional e munição para atacar o governo federal, a ponto de colocar em xeque a soberania nacional e as competências da Presidência da República. Politização às escondidas, demonização midiatizada. A seguir, Battisti relata os impactos do sensacionalismo e da descontextualização dos fatos.


Brasil de Fato – Como é sua relação com os demais presos?


Cesare Battisti – A ala onde estou é especial para ex-policiais, mas tem também gente com curso superior, que são uns 10%. Tenho relações com todo mundo tranquilamente. A cadeia é um micromundo, se reproduzem as mesmas relações que existem na rua. Tem pessoa de todo tipo, você se relaciona mais com umas, menos com outras. Felizmente não tem problema de violência e não é muito bagunçado como outros pavilhões, que são um inferno, como o local onde me colocaram na cadeia da Polícia Federal, onde fiquei um ano e quatro meses, e também em Cascavel [PR], onde estive alguns dias.


Todo mundo lhe conhece na prisão?


Claro. Todo mundo sabe, quando tem visita, parentes de presos ficam surpreendidos, porque a mídia fala que eu sou terrorista, assassino. O psicólogo de um preso já perguntou: "E esse Cesare Battisti, onde está?". E o preso disse, "está aí conosco". E ele respondeu: "Sério? Está aí? E não está acorrentado? Como?".


Como o senhor tem visto a repercussão do seu caso na Itália e no Brasil?


É difícil falar disso, essa é a razão pela qual fiquei traumatizado e precisei de um psiquiatra. Só de ver alguma coisa que não tem muito diretamente a ver comigo eu já fico... meu coração dispara, já não me controlo, fico em um estado semi-consciente. Ontem, por exemplo, passou no SBT uma informação do Berlusconi com suas prostitutas. Só com o anúncio da notícia "Itália", eu fiquei assim [trêmulo].


Fabricaram um monstro que não tem nada a ver comigo.


Qual é o interesse nisso?


Me perseguem porque sou escritor, tenho imagem pública. Se eu não fosse isso, seria mais um, como vários italianos que saíram do país pelo mesmo motivo. Sou perseguido pelo Estado italiano e pelo Judiciário brasileiro. Essa perseguição não é grátis. Não se desrespeitaria por nada uma decisão do presidente da República. Não existe um país no mundo onde a extradição não é decidida pelo chefe do Executivo. Imagina se essa decisão tomada pelo Judiciário brasileiro acontecesse em outro país, como na França, por exemplo. Seria um absurdo, impensável. E quando eu virei um caso internacional, virei uma moeda de troca para muitas coisas. Se o Lula desse essa decisão antes iam em cima dele, porque me derrotar também é derrotar o Lula. Agora, o objetivo principal da direita brasileira, nesse caso, é afetar o governo Dilma.


Como o senhor recebeu a decisão do Lula?


Foi ato de coragem. Por ser chefe de Estado do tamanho do Lula, com a responsabilidade que tem, envolvido na geopolítica. Claro que a escolha do momento não foi por acaso. O caso Battisti foi usado com outras razões políticas.


Sua extradição abriria que precedentes?


Mudaria a história, porque até hoje os italianos nunca foram extraditados. Então prejudicaria muito. E não só italianos.


O senhor acha que se consumada a não-extradição, a Itália retaliará o Brasil?


A Itália nunca teve força para estar entre os países mais ricos do mundo. Já teve por causa da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte] e da máfia que enche os cofres dos bancos do mundo. A Itália sempre foi um blefe. É a Itália quem precisa do Brasil. O que a mídia passa é muita mentira. Na Itália tem muita gente que me defende. Se eu for para lá vai ter bagunça e o Berlusconi sabe disso.


Qual seu sentimento hoje pela Itália?


Já não é meu país. Eu me formei como cidadão do mundo. Quando abandonei a Itália eu ainda era muito jovem. Então, para mim essa coisa da pátria não cola. Não cheguei a isso intelectualmente, como anarcocomunista. Foi pela vida mesmo, pela maneira como eu vivi, por escolha e por obrigação também. Para mim, essa coisa da pátria não tem sentido. Perdeu sentido, digamos.


Quem são seus inimigos na Itália?


Meus inimigos são os que querem esconder os anos de chumbo. A mídia faz de tudo para não colocar o contexto histórico. Governo e oposição são os mesmos dos anos de chumbo: democracia cristã e PCI, Partido Comunista Italiano. O PCI era partido mais stalinista, mas que não podia controlar o poder. Eles foram os mais cruéis para nós. Torturadores. E hoje eles seriam a oposição ao Berlusconi. Mas não existe oposição, o PCI não tem nenhum programa político. Quando Berlusconi, que sabemos quem é, fala que a oposição quer ganhar as eleições com um golpe do Judiciário, está falando a verdade. Como já aconteceu uma vez. Eles chegaram uma vez, entre dois mandatos do Berlusconi, com um golpe. Porque o Judiciário era controlado pelo PCI, o PCI controlava os magistrados italianos. Nos anos de chumbo, os melhores magistrados eram do PCI e continuaram sendo, alguns deles são candidatos. Na ditadura eles organizavam e assistiam sessões de tortura. Torturavam o movimento revolucionário, desde as Brigadas Vermelhas até a autonomia, os PAC. Um deles era Armando Spataro, que não era filiado, mas tem relações com o PCI. Ele era o torturador de Milão. Na Anistia Internacional tem documentação sobre isso. E ele é o procurador que hoje me persegue. Ele é o procurador geral de Milão e ainda é o procurador europeu-italiano de terrorismo.


E qual é o seu vínculo com o Brasil?


Se existe um recanto de patriotismo, ele seria o Brasil. Pode parecer um pouco oportunista isso, mas cheguei aqui, não conhecia ninguém e se criou um movimento a meu favor. Isso acalenta muito o coração.


Quem o senhor procurou quando chegou?


Quando cheguei já tinha minha foto por todos os lados. Sabia que estava sendo monitorado, então, não tomei nenhum contato com os italianos refugiados aqui, nem com nenhum movimento. Tentava preservar a eles e a mim. Mas como eu não posso ficar longe de problemas, subia os morros todos os dias. Sentava no boteco, tomava uma cervejinha e a dona do boteco tinha um filho preso. Ela era analfabeta e me pedia para ler as cartas do filho e também responder. E assim, eu estava aí em três morros, tinha contato excelente com todo mundo.


Quais morros?


Santa Marta, Tabajara e Cantagalo. No Cantagalo, Pavão, Pavãozinho, tudo isso aí. Virei o escrivão dos morros. E eu sempre trabalhei com isso. Na França eu tinha permissão do Ministério da Polícia e do Ministério do Interior para fazer oficinas de redação. Para mim foi natural e todas as viaturas da PM me conheciam, porque em todo morro do Rio tem uma viatura lá embaixo. "Aí vai o gringo", falavam. Subia o morro para poder me sentir vivo.


Mas quando o senhor chegou, de quem recebeu apoio?


De muita gente, do PT até o PSDB. Quando eu fui preso, o Fernando Gabeira chegou com alguns deputados do PSDB. Claro, eles não sabiam muito bem o que estava acontecendo e logo se afastaram, inclusive o Gabeira. Ele me recebeu no Brasil, me ajudou, mas não como um sujeito político pensante. Me recebeu como um detido dos anos 70, que achava que não iria representar perigo para ninguém, porque já tinha italianos aqui nessa condição. Quando ele se deu conta de quem era eu, ou melhor, do que a mídia fez de mim, ele tomou distância.


Como o senhor se define politicamente?


Sou anarcocomunista desde sempre, por considerar leninismo acabado. Mas sou do anarquismo organizado, um anarcomarxista, porque existe um outro núcleo forte do anarquismo que é individualista.


E como vê o socialismo no mundo hoje?


Acredito que estamos criando condições para o socialismo. A socialdemocracia no norte da Europa, com políticas de bem estar social, avançou. Mas está caindo porque o bloco liderado pelos Estados Unidos, de liberalismo selvagem, que não tem custo com seguridade social, é uma concorrência muito difícil, cruel. A Venezuela está fazendo o melhor que pode. Não avançou mais porque o país não permitia. Era quase feudal. Não se pode achar que trocando de presidente o país vai mudar do dia pra noite. E Cuba, se não fosse o embargo, poderia ser a melhor democracia do mundo.


Qual é a sua avaliação sobre a luta armada?


O Estado nos empurrou para a luta armada porque só assim poderia derrotar o fortíssimo movimento cultural que havia. O movimento revolucionário italiano chegou a ter mais de um milhão de pessoas. Mas caímos na armadilha e acabamos fazendo o jogo do poder. Eu não posso dizer que a luta armada não é viável no mundo inteiro, mas no mundo que eu conheço não é mais. Acho que a revolução é eliminar as classes, mas não passa pelas armas, mas pela cultura e educação.


Saindo da prisão, o que pretende fazer?


Não sei fazer outra coisa além de escrever e trabalhar com coletividades. Pretendo fazer um trabalho social a partir da escrita. Talvez não tenha o direito de fazer política, mas vou fazer cultura. A fronteira aí é tênue, mas como eu gosto de discutir, tudo bem.


O senhor vê riscos se solto?


Há abaixo-assinados de agentes carcerários contra mim, é preocupante. Se acontecer algo comigo, Berlusconi terá de prestar contas.


02.02.2011

[Entrevista concedida a Maria Mello e Vinicius Mansur em Brasília (DF), do jornal Brasil de Fato]


Soltura imediata de Battisti: prisão sem objeto


Dalmo de Abreu Dallari


Jurista Dalmo Dallare

A legalidade da decisão do Presidente Lula, negando a extradição de Cesare Battisti pretendida pelo governo italiano, é inatacável. O Presidente decidiu no exercício de suas competências constitucionais, como agente da soberania brasileira e a fundamentação de sua decisão tem por base disposições expressas do tratado de extradição assinado por Brasil e Itália. É interessante e oportuno assinalar que as reações violentas e grosseiras de membros do governo italiano, agredindo a dignidade do povo brasileiro e fugindo ao mínimo respeito que deve existir nas relações entre os Estados civilizados, comprovam o absoluto acerto da decisão do Presidente Lula.


Quanto à prisão de Battisti, que já dura quatro anos, é de fundamental importância lembrar que se trata de uma espécie de prisão preventiva. Quando o governo da Itália pediu a extradição de Battisti teve início um processo no Supremo Tribunal Federal, para que a Suprema Corte verificasse o cabimento formal do pedido e, considerando satisfeitas as formalidades legais, enviasse o caso ao Presidente da República. Para impedir que o possível extraditando fugisse do País ou se ocultasse, obstando o cumprimento de decisão do Presidente da República, concedendo a extradição, o Presidente do Supremo Tribunal Federal determinou a prisão preventiva de Battisti, com o único objetivo de garantir a execução de eventual decisão de extraditar. Não houve qualquer outro fundamento para a prisão de Battisti, que se caracterizou, claramente, como prisão preventiva.


O Presidente da República acaba de tomar a decisão final e definitiva, negando atendimento ao pedido de extradição, tendo considerado as normas constitucionais e legais do Brasil e o tratado de extradição firmado com a Itália. Numa decisão muito bem fundamentada, o Chefe do Executivo deixa claro que teve em consideração os pressupostos jurídicos que recomendam ou são impeditivos da extradição. Na avaliação do pedido, o Presidente da República levou em conta todo o conjunto de cirscunstâncias políticas e sociais que compõem o caso Battisti, inclusive os antecedentes do caso e a situação política atual da Itália, tendo considerado, entre outros elementos, os recentes pronunciamentos violentos e apaixonados de membros do governo da Itália com referência a Cesare Battisti. E assim, com rigoroso fundamento em disposições expressas do tratado de extradição celebrado por Brasil e Itália, concluiu que estavam presentes alguns pressupostos que recomendavam a negação do pedido de extradição. Decisão juridicamente perfeita.


Considere-se agora a prisão de Battisti. Ela foi determinada com o caráter de prisão preventiva, devendo perdurar até que o Presidente da República desse a palavra final, concedendo ou negando a extradição. E isso acaba de ocorrer, com a decisão de negar atendimento ao pedido de extradição. Em consequência, a prisão preventiva de Cesare Battisti perdeu o objeto, não havendo qualquer fundamento jurídico para que ele continue preso. E manter alguém preso sem ter apoio em algum dispositivo jurídico é abolutamente ilegal e caracteriza extrema violência contra a pessoa humana, pois o preso está praticamente impossibilitado de exercer seus direitos fundamentais. Assim, pois, em respeito à Constituição brasileira, que define o Brasil como Estado Democrático de Direito, Cesare Battisti deve ser solto imediatamente, sem qualquer concessão aos que tentam recorrer a artifícios jurídicos formais para a imposição de sua vocação arbitrária. O direito e a justiça devem prevalecer.


Dalmo de Abreu Dallari é jurista e professor emérito da USP

Fonte: Caros Amigos

Os cabelos e as mulheres da Amazônia



Questões de Gênero e Orientação Sexual

Mauricio Santos Matos


Em novembro/2009, após aparar meus cabelos e deixá-los à altura dos ombros, tomei conhecimento de uma campanha de doação de cabelos para a confecção de perucas para mulheres que sofreram escalpelamento nos rios da Amazônia.


Àquela época, tomei a decisão de deixá-los crescer, sem aparar um milímetro sequer. Pretendia cortá-los no meio do ano, em junho ou julho/2010. Mas achei que não estavam em um bom tamanho. No último dia 06/01/2011 cortei meus cabelos. No dia seguinte levei ao Espaço Acolher, da Santa Casa do Pará.


Anos atrás, quando conheci o drama vivido por ribeirinhas, que tinham o couro cabeludo arrancado pelo eixo do motor de pequenas embarcações, fiquei indignado em saber que havia uma solução, simples e barata, que impediria por completo que esse tipo de acidente voltasse a acontecer.


Infelizmente vivemos em um mundo capitalista, onde a sede de lucro comanda as ações dos donos do poder. Infelizmente vivemos em um mundo capitalista, onde a imensa maioria dos governantes, ou faz parte de uma ínfima minoria, proprietária dos meios de produção, ou faz parte de uma casta subserviente a seus desmandos. E as mulheres escalpeladas da Amazônia não fazem parte desse minúsculo círculo. Na verdade, a maioria delas está excluída por completo dos centros de decisão.


Há um ditado que diz: "se fosse o homem quem engravidasse, o aborto não seria considerado crime". A lógica é similar, no caso dos escalpelamentos, pois se fosse um acidente que atingisse ricas damas da sociedade, certamente os governantes já teriam, há muito tempo, determinado uma solução definitiva ao problema.


E a solução é tão absurdamente simples, que chega a ser inacreditável que muitas mulheres – crianças, jovens, adultas, idosas – sejam vítimas de tal crueldade: basta cobrir o eixo do motor, com um assoalho de madeira ou com uma carenagem metálica. Mas as frágeis vítimas estão lá, no meio da Amazônia. No interior de rios e igarapés que correm distantes dos grandes centros urbanos. Distantes dos olhos e ouvidos do mundo. E isso faz toda a diferença.


Em 2009 foi promulgada a Lei 11.970, que altera a Lei 9.537/97, e torna "obrigatório o uso de proteção no motor, eixo e quaisquer outras partes móveis das embarcações que possam promover riscos à integridade física dos passageiros e da tripulação". Na verdade, a lei de 1997 nem precisaria de reforço, pois o seu artigo 4º, inciso V, determina que é atribuição da autoridade marítima "estabelecer a dotação mínima de equipamentos e acessórios de segurança para embarcações e plataformas". Talvez, se fossem os homens – ou as autoridades marítimas – que tivessem seus cabelos arrancados...


Esta "pequena" mudança, que foi colocada em prática graças aos conselhos existentes nas comunidades ribeirinhas, aliada a uma campanha de conscientização, foram as responsáveis – ao que tudo indica – pela redução nos casos de escalpelamento. Em 2009, 21 mulheres (boa parte crianças) tiveram seus cabelos arrancados, no Pará. E às vezes, foram junto com orelhas e a pele do rosto e pescoço. Em 2010, somente 07 casos foram registrados na Santa Casa.


Isso sem falar dos casos não informados, dos óbitos não contabilizados...


Se, de fato, a promulgação da nova Lei e a campanha de esclarecimento foram determinantes para essa drástica diminuição dos acidentes, há de se comemorar. Mas, também, há de se questionar: se era tão simples, porque não foi feito antes?


Confirmando a decisão tomada a pouco mais de um ano, cortei e doei meus cabelos.


Sei que é um pequeno gesto, minúsculo. Sei que não trará de volta a felicidade em poder observar o simplório ciclo de crescimento e queda de fios de cabelo. Sei que não trará de volta o prazer em banhar-se nas águas dos rios sem sentir dor na fina pele transplantada para o crânio. Sei que não trará de volta a saudável vaidade de pentear e acariciar os cabelos.


Mas sei que, de alguma maneira, essa pequena doação colocará um sorriso no rosto de alguém que já passou por muitos sofrimentos, mas não desistiu de lutar. E não desistiu de ser feliz.


E sei, também, que se quisermos baixar a zero a quantidade de vítimas, será preciso botar a boca no mundo. Gritar. Berrar o mais alto que puder. Para que acordem os responsáveis pela fiscalização e cumprimento de mais uma lei. Apenas o silêncio pode impedir a felicidade das mulheres dos rios da Amazônia. Não nos calemos, jamais!


sábado, 5 de fevereiro de 2011

Transporte Coletivo de Manaus a maldição continua: A concorrência dos que já estão!

Sobre a batuta do Senador Acir Marcos Gurgacz PDT-RO., um dos controladores da Eucatur Transporte, a Prefeitura de Manaus abriu ontem os envelopes da concorrência que vai selecionar as mesmas empresas que há tempos estão massacrando a população da cidade que um dia foi sorriso! Trata-se de um Faker patrocinado dessa vez pelo Capitão Cavalcante Presidente do IMTT e o Prefeito Amazonino Mendes.

Qual será o custo dessa manobra? Infelizmente a população já sabe! É a permanência dos atuais e outros ônibus pau de arara trafegando pelas ruas esburacadas da cidade. Para o Prefeito será a confirmação de sua mudança para as fileiras do PDT, que já é dado por todos como favas contadas pela cúpula do Partido a nível Nacional. Se isso vai agradar os Dirigentes locais, certamente somente o Vereador Mário Frota deve torcer o nariz.

Para um Prefeito que quando era candidato, qualificava e quantificava o transporte coletivo como sua meta principal de intervenção radical, parece que esqueceu do sonho quando chegou no palácio da Compensa. Contenta-se em cooptar os Dirigentes do Sindicato dos Trabalhadores do sistema, tendo como interlocutor o Deputado Paulhinho-PDT/SP., da Força Sindical, um dos principais articuladores de sua ida para o PDT do Amazonas.

Para os que pensavam que pelo menos nos anos em que antecedem a realização da Copa do Mundo, nossa população poderia desfrutar de um sistema de transporte coletivo eficiente e novo, vão ter que conviver com a desesperança e a super lotação dos ônibus velhos, sujos, podre, caindo os pedaços. Da mesma forma que não verão as carretas com internet banda larga, as creches e a transparência na administração municipal.

A população de Manaus parece que foi amaldiçoada e condenada a ser vitima de Prefeitos e Presidentes dos IMTT..., da vida, foi assim com gestão Serafim & Marcelo Ramos, que criaram a Transmanaus e agora com Amazonino & Capitão Cavalcante que estão apresentando esse Faker!


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