domingo, 3 de julho de 2011

Partidos esvaziados, ruas inflamadas

Partidos de esquerda e direita
Em que resultará essa dissonância, só o tempo dirá

Há relação muito cruel (ao Estado de Direito) entre duas reportagens, publicadas em veículos considerados antagônicos em suas linhas editoriais, mas que se atentam, cada qual à sua forma, a um mesmo problema: o do esfacelamento da política nacional, cada vez mais dissonante entre o que há de quente nas ruas e o que existe de burocrático em seus âmbitos superiores.

De um lado, a revista semanal Carta Capital publicou em sua capa “#protesto – convocados pela internet e sem a mediação de partidos ou sindicatos, manifestações explodem de Norte a Sul”, em que aponta os diversos movimentos populares, recentemente pipocados no Brasil, onde é inexistente a participação de entidades representativas, sejam elas quaisquer tipos de agrupamentos.

Assinada pelos repórteres Matheus Pichonelli e Rodrigo Martins, a matéria da Carta Capital informa que, por torpedos de celular, operários da usina hidrelétrica de Jirau (Rondônia), se organizaram para protestar contra condições de trabalho; três meses depois, também sem lideranças formais, bombeiros no Rio de Janeiro fazem motim por melhores salários em frente ao quartel da corporação; e, na mesma semana, estudantes organizaram no Twitter e Facebook manifestações contra a prefeita Micarla de Sousa (PV), de Natal, com cerca de 2 mil pessoas.

Há muitos aspectos sociais a serem esmiuçados por este fenômeno – acompanhando, é bom pontuar, a recente tendência árabe –, mas, grosso modo, há relação intrínseca com a matéria da edição de ontem do jornal O Estado de S. Paulo, assinada pelas repórteres Christiane Samarco e Eugência Lopes, sobre o processo de formação do Partido Social Democrático (PSD), “nascido de iniciativa pessoal do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM)” e que reúne caciques regionais, de petistas a tucanos, para colher as 500 mil assinaturas necessárias para a formalização da legenda.

Ainda em formação, nenhum dos deputados, vice-governador ou mesmo o prefeito Kassab saíram de seus partidos de origem, já que aguardam os prazos legais para aderirem à nova legenda. Independente de qualquer negociação obscura, nos porões de uma política pouco transparente, fica cada vez mais evidente que o PSD chega para ser a morada de uma “nova geração” de políticos que esmurram pontas de facas em suas atuais legendas, já nas mãos certas, e que oferecem pouca possibilidade ascensão partidária.

O PSD e as manifestações pela internet são sinais do tempo. O primeiro, um partido formado mais para atender estratégias de uma cúpula que vê a política como um balcão de negócios onde as trocas acontecem a bel prazer, sem qualquer lastro ideológico ou social; o segundo, resposta à primeira, declarando em alto e bom som que não há dependência para se mobilizar por uma causa.

No meio de tudo isso, um abismo cada vez mais distante e profundo de um Estado de Direito onde suas ferramentas legítimas (leiam-se: partidos e sindicatos) tornam-se hospedeiros de burocratas que não conseguem representar os anseios das ruas. Em que resultará essa dissonância, só o tempo dirá.


Bombeiros do Rio promovem passeata para comemorar anistia


Por redação, com ABr - do Rio de Janeiro
Os 439 bombeiros que invadiram o quartel central da corporação, no centro da cidade, no dia 3 do mês passado, conseguiram esta semana a anistia administrativa e criminal. Para marcar a conquista e também o Dia do Bombeiro, que se comemora hoje,  os integrantes da corporação promovem uma passeata na Avenida Atlântica, em frente ao Hotel Copacabana Palace.
bombeiros
Passeata feita na Praia de Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro no dia 12 de junho
Um dos líderes do movimento, o cabo Benevenuto Dacíolo, disse que a liderança do movimento está há dois meses tentando falar com o governo do estado, sem sucesso, mas que a luta da categoria por melhores salários continua.
“As nossas reivindicações são o término de gratificação, um piso salarial líquido de R$ 2 mil e o vale-transporte. Até o momento, o governo do Estado não sentou conosco para dar a solução. Tivemos a vitória com a anistia criminal e administrativa, mas, em pleno século 21, temos um governo ditatorial e autoritário.”
Dacíolo disse ainda que não há avanço nas negociações, mesmo com a intermediação da Assembleia Legislativa do Estado. O governo está antecipando de dezembro para julho os 5,58% de reajuste para osbombeiros, policiais militares, civis e agentes do sistema penitenciário. “É bom frisar esse valor de 5,5%. Isso dá menos de R$ 70 no contracheque de soldados, cabos e sargentos. Queremos o término de gratificação, até porque não é salário. O militar que, por exemplo, se machuca, perde a gratificação. Ao passar para a reserva ele também a gratificação. A nossa reivindicação primordial é o fim da gratificação e o reajuste de salário”.
Os militares vão sair em passeata da Avenida Atlântica até o Leme, onde o movimento Rio de Paz promove uma manifestação de apoio às reivindicações dos bombeiros.
Na areia, foi estendido um grande varal e colocadas 439 camisas dos bombeiros, em forma de cruz, simbolizando a prisão dos militares durante a invasão do quartel central.
O presidente do Rio de Paz, Antonio Carlos Costa, disse que esse é o apoio que a sociedade civil está dando à categoria. “Quando sentimos que não havia um vínculo político-partidário no movimento dos bombeiros, decidimos apoiar e nos juntar a eles porque acreditamos que, além da causa ser justa, eles estão fazendo algo de natureza didática, porque isso está ensinando o povo brasileiro a lutar pelos seus direitos com perseverança.”
O movimento conta com apoio de outras categorias do estado, como os professores que estão em greve desde o dia 7 de junho, além dos policiais civis e militares.

Dilma afasta cúpula do Ministério dos Transportes envolvida em esquema de propina

Ministro Alfredo Nascimento
Presidente Nacional do - PR
Mais uma para o Amazonas, a decantada escola política do Amazonino, vira escândalo no Ministério dos Transporte, que tem como titular da pasta o Senador que nunca assumiu o mandato Alfredo Nascimento (popular Cabo Pererira), o esquema foi revelado por uma reportagem da revista veja, para os amazonenses lúcidos, esse fato não causa espanto, basta ver como esse Senhor deixou Manaus após dois mandatos como Prefeito desta capital. 

Confira a repercussão do escândalo envolvendo o Ministério dos Transportes do Senador Alfredo Nascimento e do Deputado Ficha Suja Valdemar Costa Neto. Que mal pergunte! Será que é para esconder essas mutretas que a Presidente Dilma e a  Câmara Federal querem sigilo nos gastos com a Copa e Olimpíada? Fique de olho nas movimentações do Senador João Pedro!

Eis a Integra da matéria de sábado da revista Veja.

Após revelação de VEJA, quatro servidores serão desligados do cargo. Por enquanto, Alfredo Nascimento continuará à frente do ministério

Luciana Marques
A presidente Dilma Rousseff decidiu neste sábado afastar do cargo os representantes do Ministério dos Transportes envolvidos em denúncia apontada em matéria de VEJA desta semana. A reportagem revela um esquema de pagamento de propina para caciques do PR, Partido da República, em troca de contratos de obras.

Dilma conversou com o ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, neste sábado e acertou o afastamento dos envolvidos. São eles: Mauro Barbosa da Silva, chefe de gabinete do ministro; Luís Tito Bonvini, assessor do gabinete do ministro; Luís Antônio Pagot, diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit); e José Francisco das Neves, diretor-presidente da Valec. O desligamento dos funcionários será formalizado a partir da próxima segunda-feira, pela Casa Civil.

"Para garantir o pleno andamento da apuração e a efetiva comprovação dos fatos imputados aos dirigentes do órgão, os servidores citados pela reportagem serão afastados de seus cargos, em caráter preventivo e até a conclusão das investigações", diz o Ministério dos Transportes, em nota.

Por enquanto, Nascimento continuará à frente do cargo. O ministro disse que vai instaurar uma sindicância interna para apurar "rápida e rigorosamente" o envolvimento de dirigentes da pasta e seus órgãos vinculados nos fatos mencionados pela revista.

"Além de mobilizar os órgãos de assessoramento jurídico e controle interno do Ministério dos Transportes, o ministro decidiu pedir a participação da Controladoria-Geral da União (CGU). As providências administrativas para o início do procedimento apuratório serão formalizadas a partir da próxima segunda-feira", diz a nota.

O ministro rechaçou qualquer ilação ou relato de que tenha autorizado, endossado ou sido conivente com a prática de quaisquer ato político-partidário envolvendo ações e projetos do Ministério dos Transportes.

Oposição - Representantes da oposição ameaçam tentar colher assinaturas para a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as denúncias envolvendo o Ministério dos Transportes. Também querem convocar o ministro Alfredo Nascimento para prestar esclarecimentos no Congresso Nacional.

Senadores da oposição ouvidos por VEJA neste sábado exigiram uma postura mais firme da presidente Dilma sobre ao caso.

Caso - A edição de VEJA mostra que, no último dia 24, a presidente Dilma Rousseff se reuniu com integrantes da cúpula do Ministério dos Transportes no Palácio do Planalto para reclamar das irregularidades na pasta. Ao lado das ministras Gleisi Hoffmann (Casa Civil) e MÍriam Belchior (Planejamento), ela se queixou dos aumentos sucessivos dos custos das obras em rodovias e ferrovias, criticou o descontrole nos aditivos realizados em contratos firmados com empreiteiras e mandou suspender o início de novos projetos. Dilma disse que o Ministério dos Transportes está sem controle, que as obras estão com os preços “inflados” e anunciou uma intervenção na pasta comandada pelo PR — que cobra 4% de propina das empresas prestadoras de serviços.

A presidente também cobrou explicações sobre a explosão de valores dos empreendimentos ligados ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Na nota, o ministro Alfredo Nascimento disse que desde janeiro vem tomando as providências para redução dos custos de obras.

"Tal preocupação atende não apenas a necessidade de efetivo controle sobre os dispêndios do ministério, mas também a determinação de acompanhar as diretrizes orçamentárias do governo como um todo. Característica de sua passagem pelo governo federal em gestões anteriores e, obedecendo à sua postura como homem público, Alfredo Nascimento atua em permanente alinhamento à orientação emanada pela presidente".

Reunião - Com planilhas e documentos sobre a mesa, Dilma elevou o tom no encontro com representantes da pasta: “O Ministério dos Transportes está descontrolado”. A presidente chamou de “abusiva”, por exemplo, a elevação do orçamento de obras em ferrovias, que passou de 11,9 bilhões de reais, em março de 2010, para 16,4 bilhões neste mês — salto de 38% em pouco mais de um ano. Dilma também se irritou em especial com a Valec, estatal que cuida da malha ferroviária, e com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), responsável pelas rodovias.

O secretário-executivo do ministério, Paulo Sérgio Passos, o diretor-geral do DNIT, Luiz Antonio Pagot, e o diretor de Engenharia da Valec, Luiz Carlos Machado de Oliveira, também estavam na reunião em que Dilma mais falou do que ouviu.

“Vocês ficam insuflando o valor das obras. Não há orçamento fiscal que resista aos aumentos propostos pelo Ministério dos Transportes. Eu teria de dobrar a carga tributária do país para dar conta”, disse Dilma, quando a reunião caminhava para o fim. Ela deu o diagnóstico: “Vocês precisam de babá. E terão três a partir de agora: a Míriam, a Gleisi e eu”.

Deputado Costa Neto/PR
Nas últimas semanas, VEJA conversou com parlamentares, assessores presidenciais, policiais e empresários, consultores e empreiteiros. Ouviu deles a confirmação de que o PR cobra propina de seus fornecedores em troca de sucesso em licitações, dá garantia de superfaturamento de preços e fecha os olhos aos aditivos, alvo da ira da presidente na reunião do dia 24.

O esquema seria encabeçado pelo deputado Valdemar Costa Neto, que em 2005 foi obrigado a renunciar a uma cadeira na Câmara abatido pelo escândalo do mensalão. E também pelo ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, que aliás faltou ao encontro com Dilma alegando “compromissos pessoais”.

MARIA PUCÚ, A MILITANTE FIEL

Ribamar  Bessa
José Ribamar Bessa Freire

Eu prometi, fiel serei por toda a vida (Hino das Filhas de Maria)
De pé, oh vítimas da fome, de pé famélicos da terra (Hino da Internacional)

A mistura do evangelho com materialismo histórico e dialético costuma dar samba, mambo, rumba, carimbó. No caso de Maria Pucú Campello, nascida em Manaus no dia 12 de março de 1927, deu toada de boi, já que em sua vida ela percorreu um caminho caprichosamente garantido: começou viajando no azul infinito, como filha de Maria, mas depois, como militante comunista, vermelhou no curral. Conto como foi. Foi assim.

Maria morava ali na Rua Manicoré, 225, no bairro da Cachoeirinha, com seus pais Raimundo Nery Pucú e Domingas Meirelles e com seus quatro irmãos – Amélia, Alberto, Evaristo e Arthur Cezar. Era um daqueles casarões, com quintal, árvores, pássaros e galinhas ciscadoras. De lá só saía para o Colégio Santa Dorotéia, onde estudou. Em 1939, com 12 anos, as freiras a recrutaram como aspirante da Pia União e alguns anos depois lhe deram a fita azul e o diploma de filha de Maria.

Foi com a fita azul no pescoço que Maria participou do Congresso Eucarístico, realizado em Manaus, em 1942, trajando o uniforme da Pia União das Filhas de Maria. Podemos imaginá-la com vestidinho branco de manga comprida, véu cobrindo a cabeça, larga faixa azul na cintura com uma ponta tocando o joelho, rosário na mão e duas medalhas – de Nossa Senhora das Graças e de Santa Inês, virgem e mártir. Na ocasião, cantou os hinos oficiais? Um deles diz: “A fita azul, será nossa bandeira, penhor de vosso puro e santo amor”. O outro: “Eu prometi, fiel serei por toda a vida”.

É como se hoje estivéssemos vendo Maria Pucú, mocinha, nos encontros das Filhas de Maria, nos retiros espirituais, novenas, missas, rezas, ofícios, hora santa de adoração ao Santíssimo Sacramento e na festa da coroação de Nossa Senhora, no mês de maio. Ela cumpria todas as obrigações: organizava no dia 21 de janeiro de cada ano a festa de Santa Inês, padroeira da Pia União, comparecia assiduamente às reuniões mensais, respeitava e obedecia ao diretor espiritual, portava-se dentro das normas de conduta cristã, demonstrava fervor eucarístico, piedade e vida interior. Enfim, seguia fielmente os estatutos da irmandade. Já era uma militante disciplinada.

Mas aí houve uma reviravolta no Brasil e em sua vida. No pós-guerra, o País se democratizou e Maria deixou o Colégio Santa Dorotéia. Concluiu o 2º grau no Barão do Rio Branco. Lá fez leituras nada religiosas dos romances de Jorge Amado: Cacau, Suor, Jubiabá. Formou-se. A disciplina e o fervor antes dedicados à Pia União das Filhas de Maria foram canalizados em outra direção. Passou a dar aulas para alunos carentes do curso primário, numa escola que ela mesma abriu na Cachoeirinha, com o nome de Humberto de Campos – autor que curtia - e também na Casa do Trabalhador do Amazonas.

Vermelhou no curral

Foi lá, na Casa do Trabalhador, que Maria trocou a fita azul da Pia União das Filhas de Maria pela bandeira vermelha do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Seu irmão Alberto Meirelles Pucú, participante da Revolta Vermelha, no Rio de Janeiro, em novembro de 1935, foi anistiado em 1946, com o fim do Estado Novo e da ditadura Vargas. Maria se engajou, então, de corpo e alma na campanha de Iedo Fiúza, candidato a presidente da República pelo PCB, recém legalizado.

Fiúza perdeu, mas o PCB elegeu Luis Carlos Prestes senador e uma bancada de 14 deputados para a Assembléia Constituinte, entre os quais Jorge Amado, Carlos Marighela e Claudino Silva, o único constituinte negro. Na crista dessa onda, influenciada pelo irmão, Maria entrou no Partidão, ocupando logo um lugar de direção, no Amazonas, ao lado de Geraldo Campello, Aldo Moraes, Jacobina, Percival e Chico.

Maria Pucú, a militante comunista, transgrediu as regras então dominantes e enfrentou preconceitos daquela Manaus dos anos 1940. Saía sozinha ou acompanhada por amigos – em sua maioria homens. Fumava na rua, freqüentava barzinho, discutia com a macharada de igual para igual, enfim, um escândalo. Foi aí que, em 1947, o marechal Dutra cassou os parlamentares do PCB, cancelou seu registro, perseguiu e prendeu os comunistas, entre eles quase toda a direção no Amazonas, fechou a sede do Partido e reprimiu à bala qualquer manifestação. O PCB entrou na clandestinidade. A polícia vigiava permanentemente a casa de Maria, na Rua Manicoré.

Na organização da resistência, Maria Pucu continuou ativa. Visitava os presos, apoiava os dirigentes sindicais que tinham dificuldade de escrever, dava assistência às bases, redigia atas das reuniões, contabilizava as parcas finanças do Pecebão – o “ouro de Moscou”, que era como a repressão se referia aos tostões arrecadados pelos trabalhadores. Com outras companheiras, criou a Associação Feminina, em cujas reuniões se discutia matérias dos jornais comunistas que chegavam clandestinamente a Manaus: Voz Operária, Novos Rumos e documentos do Comitê Central.

Quem pesquisar a história das lutas dos trabalhadores em Manaus vai se surpreender com a quantidade de abaixo-assinados dos moradores do bairro da Cachoeirinha. Era Maria Pucú que encabeçava a luta por água encanada, esgoto, luz elétrica, pavimentação de rua, reclamações contra as linhas de bonde. Toda semana tinha um abaixo-assinado.

Mas não se limitou às reivindicações imediatas. Ela e outras mulheres de comunistas presos iniciaram a luta pela anistia, pela campanha “O Petróleo é Nosso!”, realizando manifestações contra a bomba atômica e contra o imperialismo americano. Sua casa da Manicoré passou a ser referência obrigatória para as lutas populares.

No meio da luta, além de aprender e ensinar o exercício da cidadania, Maria tinha ainda de construir sua vida afetiva. Contava com vários pretendentes, um deles, apenas simpatizante do PCB, era ciumento, terrivelmente machista e implicava com a amizade dela com o Chico, dirigente do Partido, com quem ficava horas conversando na varanda. “Naquela época a coisa mais difícil numa cidade como Manaus era uma mulher ter a liberdade que eu tinha”- ela diz em depoimento à historiadora Judite Rodrigues Pucú.

Um dos freqüentadores da Casa da Manicoré – uma espécie de Vaticano dos comunistas amazonenses – era Geraldo Campello, com quem acabou se casando em 1957. “Eu brigava muito com o Geraldo, eu não aceitava, calada, suas provocações”, lembra Maria, que ia com os dois – ele e Chico - ao bar do Quintino na Rua Itamaracá, freqüentado por prostitutas, onde tomava um “cafezinho barato e vagabundo”. Ela confessa:

- “O meu casamento com o Geraldo foi um casamento político e ele sabia disso. Eu jamais me casaria com um homem que não fosse do Partido. Não houve paixão, mas achei que daria certo. Ele era secretário do Comitê Estadual. Cada um respeitava o outro. Eu saía e ele não perguntava aonde eu ia. Ficava até de madrugada em reuniões do partido e voltava sozinha. Eu gostava muito dele. Nosso casamento durou até sua morte, em 20 de janeiro de 1994”.

Filhos de Maria

O casal teve um papel importante na eleição de Almino Affonso como deputado federal pelo Amazonas, em 1960, junto com Belarmino Marreiro, figura histórica do Partidão. “Almino chegou até nós trazido pela Alidéia. Ele era estudante, excelente orador, nacionalista, progressista, não tinha dinheiro, faltavam dois meses para a eleição e nós, comunistas do Amazonas, conseguimos elegê-lo”.

Maria relata que no período de 1955-1964, no Amazonas, o Partidão penetrou no movimento secundarista, intelectual, feminino e até no meio rural, com o trabalho realizado por seu irmão Alberto no Japiim, que ficava fora do perímetro urbano. Foi nessa época que ela recrutou Thomaz Meirelles, assassinado depois pela ditadura militar. Thomazinho era um filho político de Maria, entre outros que transitaram pela casa da Manicoré como Antenor Caldas, Felix Valois, Paivinha, Edi Monte Conrado, Anastácia, Catarino, todos eles filhos de Maria, da nossa Maria. A cada 3 de janeiro festejavam no quintal o aniversário de Prestes.

Logo após a vitória de Fidel e Che em Cuba, numa reunião onde ela era a única mulher presente, surgiu uma discussão sobre um documento do Partidão, recomendando aguardar os acontecimentos antes de se manifestar sobre a Revolução Cubana. “Eu não agüentei, dei um soco na mesa e disse que eu dava meu apoio total e irrestrito a Cuba. Eu era assim: não deixava que me dobrassem”.

O golpe militar de 1964 – segundo Maria – instaurou um “clima de incerteza e de pânico. Foi uma devassa geral, uma verdadeira caça aos comunistas. O Geraldo caiu na clandestinidade, muitos companheiros foram presos de madrugada, entre eles meu irmão Alberto, já com uma úlcera avançada. Invadiram nossa casa. O capitão Amazonas esqueceu os óculos de grau sobre a mesa, eu peguei o martelo e quebrei todinho e joguei na privada, que era de fossa seca. Quando ele voltou, procurando, eu disse: pode revistar a casa, seus óculos não estão aqui”.

Maria e Geraldo Campello se mudaram pra Niterói, onde ela continuou o trabalho de militância política organizando a luta das mulheres até a derrubada do muro de Berlim, em 1989, o que aprofundou a crise no movimento comunista. “Depois que o partido estava se reorganizando, vem Roberto Freire, que eu admirava, e nos dá uma facada no meio do coração. Eu estava muito gripada, mas mesmo me arrastando, estive em São Paulo para erguer meu braço e dizer não ao PPS”.

Depois disso, ela e Geraldo ainda participaram de duas reuniões do Comitê Central no Rio, tentando impedir a liquidação do PCB: “Eu só sinto não poder militar como antes, mas se eu tivesse mil vidas, em todas elas eu seria uma eterna comunista”.

Ela fez sua opção preferencial pelos pobres antes da teologia da libertação. Começou sua militância cantando o hino da Pia União e terminou entoando a Internacional: “De pé, oh vítimas da fome, de pé famélicos da terra”. Faleceu em Niterói no último dia 2 de junho, depois de uma trajetória de 84 anos em que cumpriu ao pé da letra o hino oficial das filhas de Maria: “Eu prometi, fiel serei, por toda a vida”.

Maria Pucú Campelo (1927-2011), uma das nossas, foi fiel por toda a vida à luta pela transformação da sociedade. Ela “não pediu licença, apenas foi embora, dessa vida espora”, como poetou Luiz Pucu.

Maria querida, taquiprati o nosso carinho e a nossa homenagem por tua passagem pelo planeta. Daqui, do Diário do Amazonas, nós te saudamos.

P.S. 1 – A coluna agradece as informações da historiadora Judite Rodrigues Pucú no seu texto “Mulheres Memória e o PCB (Histórias de Vida)”, apresentado nas aulas do prof. Jorge Ferreira, no curso de História da UFF no final de 2000 e debatido nos dois anos seguintes.

P.S.2 – O antropólogo Gilton Mendes do Santos, da UFAM, organizou o “Álbum Purus”, editado agora pela EDUA, com ensaios sobre as etnias daquela região. Merece uma resenha.

sábado, 2 de julho de 2011

Morre Itamar Franco, o Presidente que debelou a inflação no Brasil

O senador e ex-presidente Itamar Franco, 81, morreu neste sábado no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, onde estava internado desde o dia 21 de maio, quando foi diagnosticado com leucemia. 

O Brasil perde um dos políticos contemporâneo mais importante do País, Vice de Collor, Itamar assumiu o Governo após impeachment do ex- caçador de marajá. Foi no seu Governo que a inflação foi debelada através do Plano Real.

Itamar se licenciou do Senado poucos dias depois para realizar o tratamento contra a doença e, segundo os médicos, vinha respondendo bem às sessões de quimioterapia.

No dia 27 de junho, porém, boletim médico mostrou que o senador havia contraído uma pneumonia grave e foi transferido para a UTI (Unidade de Tratamento Intensiva) do hospital. A leucemia havia sido detectada após o ex-presidente realizar exames devido a uma forte gripe.

O ex-presidente, que governou o país de 1992 a 1994, após a renúncia de Fernando Collor de Mello, completou 81 anos no último dia 28 de junho. Itamar também governou o Estado de Minas Gerais entre 1999 e 2003 e foi eleito senador no ano passado, com 5.125.455 votos.

PERFIL
O engenheiro Itamar Augusto Cautiero Franco nasceu em 28 de junho de 1930 a bordo de um navio. Ele foi registrado em Salvador (BA). Sua carreira política teve início no MDB (Movimento Democrático Brasileiro), legenda pela qual foi eleito prefeito de Juiz de Fora em duas gestões, entre 1967 e 1971 e entre 1973 e 1974.

Também representando o MDB, Itamar chegou a Brasília para seu primeiro mandato como senador em 1974. Ele se reelegeu em 1982, já como militante do PMDB.

Quatro anos depois, Itamar migrou para o PL, após divergências com o diretório mineiro do PMDB. Ele chegou a concorrer ao governo de Minas, mas perdeu a disputa para a antiga legenda.

Em 1989, durante as primeiras eleições diretas para presidente depois da ditadura militar, Itamar foi eleito vice-presidente do Brasil pelo PRN, na chapa de Fernando Collor de Melo. Collor recebeu 20 milhões de votos no primeiro turno e 35 milhões no segundo turno, contra o petista Luiz Inácio Lula da Silva.

PRESIDÊNCIA
Itamar Franco assumiu a Presidência da República em 2 de outubro de 1992, depois da renúncia de Collor e do processo que levou ao seu impeachment. O mineiro nascido na Bahia permaneceu no cargo de comandante em chefe da nação durante dois anos, três meses e 29 dias.

Seu governo foi marcado por uma coalizão de partidos com o objetivo de garantir a governabilidade e a estabilidade democrática após o processo de impeachment que mobilizou a sociedade e os crescentes problemas econômicos, como a escalada da inflação.

Entre os feitos de Itamar como presidente está a aprovação do IPMF (Imposto Provisório sobre Movimentação Financeira) que, em 1996, passou a se chamar CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira).

Em 1993, o governo realizou um plebiscito previsto na Constituição de 1988 para escolher a forma e o sistema de governo brasileiros. O resultado confirmou o regime republicano e o sistema presidencialista.

Ainda durante a gestão de Itamar, em 1993, Fernando Henrique Cardoso foi nomeado ministro da Fazenda, e incumbido com a tarefa de combater a inflação. No mesmo ano, o Brasil adotou o Cruzeiro Real, e foi lançado o Plano de Estabilização Econômica, que preparava o país para a introdução de uma nova moeda.

Em julho de 1994, o real começou a circular.

A estabilidade econômica do Plano Real garantiu a FHC a vitória na disputa presidencial daquele ano.

VIDA PÚBLICA
Desde que passou a faixa de presidente a FHC, em 1º de janeiro de 1995, Itamar seguiu na vida pública. Ele se tornou embaixador do Brasil em Portugal entre 1995 e 1996 e, depois, representou o país na OEA (Organização dos Estados Americanos) de 1996 a 1998.

Neste ano, depois de não ter conseguido a indicação do PMDB para disputar a Presidência, Itamar venceu as eleições para o governo de Minas Gerais.

Ele tentou concorrer nas eleições presidenciais de 2002 e 2006, mas perdeu a indicação do partido novamente para outros candidatos. Em 2009, Itamar anuncia sua filiação ao PPS e, no ano seguinte, disputa as eleições para o Senado.

O ex-presidente foi eleito senador por Minas com 5.125.455 votos. Seu primeiro suplente é José Perrela de Oliveira Costa. (Da Folha Online)

QUE CACIQUES SÃO ESSES?!

Patxon Metuktire
Patxon Metuktire, combativo estudante de direito e neto de Raoni Metuktire, referência moral para lideranças indígenas em todo mundo, contesta em carta enviada em lista a fala do representante da Eletronorte, "senhor Walter", que afirmou no Evento Internacional sobre Indústrias de Barragens que "os principais líderes indígenas concordam e apoiam o projeto e a Funai está apoiando todo o processo". É hora de fazer coro e obrigar a Eletrobrás e a Funai a tirar dos seus armários as lideranças fantasmas para expô-las à luz (na carta declarando "não haver óbice" para construção da UHE Belo Monte da Fundação Nacional do Índio não havia um só nome indígena, onde estão as lideranças?!, que Caciques são esses?!, de quais comunidades?!)

QUE CACIQUES SÃO ESSES?!

Comprimentando os informo que estive participando do congresso mundial da industria de barragens, no qual eu assisti a apresentação do Projeto Belo Monte pelo entao Diretor da Eletrobrás Sr. Valter.

Na apresentação dele ele mostrou no slide que teve respeito aos povos indigenas e que foram realizado 4 audiencias publicas, ainda mostrou as fotos dos indigenas kaiapós e outros.

No fim a apresentação a Sheila Juruna contestou a fala, e inclusive ela falou mais sendo que nao tenho direito de expor oque ela falou, e a apresentação do Diretor Valter, dizendo que a apresentação é mentirosa em seguida eu também disse que a audiência publica nao quer dizer que houve consulta aos povos indígenas e como eles estavam falando muito da construção do BELO MONTE eu lhes disse que é preciso que a Eletrobrás faça uma audiência pública especificamente aos povos indígenas para que haja entendimento dos dois lados e possíveis esclarecimentos pois o meu povo Kaiapó e junto com outros povos estão se preparando para brigar. E disse ainda que é importante haver diálogo para que esse projeto não termine em violência e envolvendo ainda os índios e operários inocentes. No fim convidei todos os empresários estrangeiros presentes para ficarem atentos aos telejornais e outros meios de comunicação pois pode haver conflito, violência entre indígenas, operários e policia. Ou resultado do projeto do GOVERNO FEDERAL BRASILEIRA.

No fim da fala do Diretor da Eletrobrás, ele disse que PRINCIPAIS LIDERES INDÍGENAS CONCORDAM E APÓIAM O PROJETO E QUE A FUNAI ESTARIA ACOMPANHANDO TODO O PROCESSO.

Eu pergunto QUE CACIQUES SÃO ESSES ? QUE LÍDERES SÃO ESSES ?

Algumas pessoas me perguntaram sobre o papel da Funai e eu respondi que a FUNAI ultimamente não representa o índio diante do governo mas representa mais o governo diante do índio pois desta forma o índio não dialoga diretamente com o governo. RESUMINDO A FUNAI POR SER UM ÓRGÃO DO GOVERNO FEDERAL NÃO ESTA NOS REPRESENTANDO DE FORMA CORRETA E EFICIENTE E ELA SÓ CEDE ÀS PRESSÕES DOS SEUS SUPERIORES.

AGORA PRECISAMOS SABER QUEM SÃO ESSES LÍDERES ? QUEM SÃO ESSES KAIAPÓS XIKRIN, KAIAPÓ DO GOROTIRE E OUTRAS ALDEIAS, QUEM SÃO ESSES INDÍGENAS ARARAS, OU INDÍGENAS JURUNAS DA REGIÃO DE ALTAMIRA ?

Patxon Metuktire
Indigena Mebengokre Metuktire


sexta-feira, 1 de julho de 2011

Ex-guerrilheira pede participação de familiares em buscas de corpos no Araguaia

As cenas de tortura eram comuns 
na época da ditadura militar, no 
Araguaia
Por Redação, com ACS/Câmara - de Londres

A presidente da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos de São Paulo, Criméia de Almeida, pediu a participação efetiva de familiares nas buscas do grupo de trabalho do Ministério da Defesa por restos mortais dos integrantes da Guerrilha do Araguaia. Criméia, que sobreviveu à guerrilha e tem três parentes desaparecidos, disse nesta quinta-feira que os familiares querem ter liberdade de movimento na região onde ocorrem as buscas, inclusive com o recebimento de mapas e informações geográficas.

Segundo Criméia, o Ministério da Defesa já reconheceu que a presença dos familiares é legítima nas buscas, mas não efetivou essa participação. Ela lembrou que os restos mortais de Maria Lúcia Petit e Bérgson Gurjão Farias (guerrilheiros cujas ossadas foram identificadas) foram descobertos com alguma ajuda do Estado, mas fundamentalmente pelo esforço dos familiares.

Criméia de Almeida participa neste momento de audiência pública da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara.

Decisão da OEA

Ao falar sobre a proposta de criação da Comissão da Verdade, Criméia disse que essa medida não vai substituir a sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) sobre a Guerrilha do Araguaia, que considerou dever do governo brasileiro investigar, julgar e punir torturadores.

No final do ano passado, a corte culpou o Brasil pelo desaparecimento de 62 integrantes da guerrilha, que foi organizada pelo PCdoB no início dos anos 70 na região do Bico do Papagaio (divisa dos estados de Tocantins, Pará e Maranhão) e classificou o fato como crime contra a humanidade.

Postagem em destaque

DESAFIOS ÀS FORÇAS PROGRESSISTAS EM 2025

Frei Betto*         Meu primeiro impulso foi intitular este texto de “desafios à esquerda”. Logo me dei conta de que, hoje em dia, resta pou...