No ombro do caboclo: fardos pesados transportam a riqueza de
Manaus.
Valter Calheiros (*)
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| Carregadores subindo as escadarias dos Remédios (Foto: Valter Calheiros) |
Registrar
com lentes da máquina fotográfica o cotidiano de nossa gente proporciona observar
maneiras e práticas que inquestionavelmente nos levam a afirmar que há verdadeiramente
em nossa cidade um grande número de pessoas que possuem a esperança de um dia
vencer na vida e que apesar das dificuldades estão nas ruas, escadarias e
feiras sem desanimar!
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| Mercadoria do barco a caminho da feira. (Foto: Valter Calheiros) |
Para os manauaras bem sucedidos financeiramente e incluídos
no grupo daqueles que gozam das riquezas produzidas no Polo Industrial, esta
terra faz parte de um paraíso conquistada como herança. Nota-se, também, que a
maioria deles é detentor do poder político e econômico, tornando-os ainda mais
responsáveis pelos destinos do povo. Mas, é oportuno lembrar que para muitos
deles lhes falta à capacidade de partilhar as riquezas aqui produzidas. Para essa
parcela da sociedade, benefícios fiscais são religiosamente distribuídos, enquanto
isso a maioria da população paga altíssimos impostos ao comprar um pão ou um kg
de feijão.
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| Carregador transportando um saco de macaxeira. (Foto: Valter Calheiros) |
Os
registros do IBGE-2010 mostra a capital amazonense entre as seis cidades
brasileiras com os maiores índices na produção da riqueza nacional. Segundo o
IBGE a capital amazonense participa com 1,3% de toda a riqueza produzida no
Brasil, sendo a maior parte do índice proveniente da produção do Pólo
Industrial de Manaus.
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| Tambaqui: da canoa para a feira. (Foto: Valter Calheiros) |
Esses
dados deixam evidentes que vivemos sob uma brutal concentração de renda,
fazendo surgir programas sociais compensatórios ou complementar como é o caso
do Bolsa Família municipal, que segundo a Prefeitura no ano de 2012 mais de 66
mil famílias foram beneficiadas com o complemento de renda no valor de R$ 60,00
mensais. Fica a pergunta: é assim que vamos recuperar a história de tanta
gente? Será que não estamos escondendo a realidade vivida por centenas de
famílias que historicamente foram excluídas na divisão de nossas riquezas?
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| Um forno de farinha para o interior (Foto: Valter Calheiros) |
Com
o olhar direcionado aos trabalhadores que ganham seu sustento nas redondezas do
Porto da Escadaria dos Remédios, temos como resultado a constatação que estamos
diante de um diagnostico preocupante “existe
ali trabalhadores exercendo atividades em condições degradantes”. Em alguns
casos a cena chega a ser desumana, mesmo assim, a sociedade assiste passivamente
o trabalho de centenas de caboclos que aqui chegaram em busca de emprego,
educação e saúde para suas famílias.
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| E mais um saco de macaxeira no ombro do trabalhador. (Foto: Valter Calheiros) |
Diante
da paisagem que assistimos diariamente, não é difícil realizar uma aferição e quantificar
em centenas as famílias que aqui chegaram e ainda possuem a esperança de
conquistar vida nova na capital, mas constata-se que aos poucos a prostituição,
a bebida e outras drogas estão se somando aos fardos e caixotes pesados, capazes
de fazer o homem esquecer seus sonhos e trocá-los por minguados trocados, sendo
esta a única forma de participar do pulsante progresso de nossa rica terra.
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| Do barco para a feira, mais dois fardos. (Foto: Valter Calheiros) |
Constatação
feita, os registros fotográficos dão a dimensão de nossa incompetência política
em não proporcionarmos alternativas que nos leve a partilhar esta herança
milenar que é a Amazônia. Para o novo prefeito e aos novos vereadores fica o
alerta: necessitamos com urgência de políticos com capacidade afetiva e
administrativa, com compromisso ético e visão do todo. Basta de cumpridores de
rasas e pontuais promessas de campanha! A superação destas práticas parece está
na promoção de uma educação recheada de vida e gestos concretos, onde cidadania
seja fruto colhido e apreciado por nossas crianças e jovens!
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| Carregador com mais uma entrega. (Foto: Valter Calheiros) |
Em
seu artigo 5ª a Constituição Federal de 1988 declara que “Todos são iguais perante a lei,
sem distinção de qualquer natureza”, destacando também que “ninguém
será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante”. No
entanto, o que afirma a lei não é o que se constata na Escadaria dos Remédios e
no entorno da Feira Manaus Moderna! Neste espaço publico o problema se
apresenta sem pudor na porta de entrada de nossa cidade. A sociedade necessita
encontrar novos caminhos dando prioridade a essa gente que carrega alimentos e
estivas, sujeitando-se a transportar nos ombros peso além do limite que a
capacidade do corpo humano aguenta, como se o ombro humano fosse uma carroceria.
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| Carregador subindo as escadarias com três fardos no ombro (Foto: Valter Calheiros) |
Os
protagonistas da brutal condição imposta aos trabalhadores são sem dúvida os
nossos governantes, que banalizam o dinheiro publico quando pagam um bilhão
para construir uma ponte, deixando de lado a opção da estrada natural - o rio
negro; quando gastam milhões para construir um novo estádio de futebol, numa
cidade que possui carência de novos prédios públicos destinados à educação e
saúde; quando destinam milhões de reais a prazeres culturais restritos a poucos
como o festival de cinema, ópera e tantos outros, para tais espetáculos
destinados a uma minoria privilegiada de cidadãos não há restrições
orçamentarias. Enquanto isso, centenas de trabalhadores, empilham nos ombros o
peso do fardo e das injustiças da vida!
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| Carregador entregando tucumã na feira. (Foto: Valter Calheiros) |
Mudar
esta realidade passa em primeiro lugar pelo reconhecimento da sociedade de que
as pessoas submetidas a esse sofrimento possuem os mesmos direitos que assiste
às demais categorias de trabalhadores. A maior metrópole do norte brasileiro não
pode considerar este fato como fenômeno natural, pois a existência e aceitação
desta realidade demonstra que somos uma sociedade detentora de baixíssima
capacidade política e humana, pois não conseguimos diferenciar o homem de um
fardo.
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| Cena diária – na cheia ou na vazante do rio negro. (Foto: Valter Calheiros) |
Em nome da esperança que se renova a cada ano novo, temos
que repudiar e reagir, pois há uma centena de trabalhadores esperando por um
olhar humanizado que os vejam! Não é possível mais ficarmos calados, precisamos
fazer ecoar as palavras de Jesus proclamadas no evangelho de Mateus 23,1-4:
Jesus falou às multidões
e aos seus discípulos:
“os doutores da Lei e os
fariseus tem autoridade para interpretar a Lei de Moisés. Por isso, vocês devem
fazer e observar tudo o que eles dizem. Mas não imitem suas ações, pois eles
falam e não praticam. Amarram pesados fardos e os colocam no ombro dos outros,
mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem sequer com um dedo”.
(*) Educador Salesiano,
pesquisador e fotografo do Movimento Socioambiental SOS Encontro das Águas.
Pós-Graduado em Pesquisa e Ação Social pela Faculdade Tahirih – Manaus /
Amazonas.
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