terça-feira, 19 de julho de 2011

Da indignação à revolução: os desafios de um novo movimento

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por Joel Sans


Os acampamentos se espalharam como rastilho de pólvora. Em quase 100 praças em todo o Estado espanhol vivencia-se uma impressionante explosão de envolvimento que continua após as eleições de 22 de maio. Esta explosão, no entanto, não veio do nada. Soma-se aos exemplos de lutas por toda a Europa que vivemos nos últimos dois anos e tem uma conexão com as revoluções no mundo árabe, lideradas por jovens desempregados e sem futuro.

Não estamos somente diante de uma revolta social devido à crise e aos ataques do governo do Partido Socialista Obrero Espanhol (PSOE). É também uma revolta política que se opõe precisamente à política oficial e institucional e à reduzida democracia atual.

Os acampamentos surgidos em diferentes cidades da Espanha são um verdadeiro desafio ao quadro institucional espanhol. Até agora, confrontaram com êxito a proibição de acampar durante a jornada de reflexão eleitoral (24 horas antes das eleições ocorridas em 22 de maio). Podem alcançar muito mais se ampliarem suas forças.

Esta revolta tem elementos de grande importância. Em primeiro lugar, rompeu com o pessimismo generalizado; criou, por exemplo, um novo ambiente, mostrando que as pessoas podem e querem lutar. Em segundo lugar, demonstra a capacidade de envolvimento, criatividade e organização coletiva daqueles a quem a crise mais atinge. Ao mesmo tempo, os acampamentos, com suas assembleias, estão apontando o que pode ser uma verdadeira democracia, organizada a partir de baixo. Mostrando na prática que existem alternativas ao parlamento e ao "voto de quatro em quatro anos." E por último, tem um alto conteúdo de reivindicações anticapitalistas, exigindo alternativas concretas e abrangentes para o atual sistema. A palavra "revolução" se tornou parte do vocabulário cotidiano de milhares de ativistas.

Houve muitos movimentos ao longo da história que cresceram enormemente, mas depois foram se esvaziando. Como está acontecendo nos acampamentos, em um primeiro momento o movimento cria um impacto, rompe os limites estabelecidos e criar um novo marco para a mobilização. Seu impulso inicial faz com que mais e mais pessoas participem, dando mais impulso ao movimento. Esta dinâmica, muito positiva, pode ser mantida por algum tempo, mas não indefinidamente. O movimento encontrará obstáculos. A ausência de vitórias pode levar o movimento a estagnar e se reduzir drasticamente. Isso já aconteceu muitas vezes ao longo da história. A mais recente foi no movimento estudantil contra Bolonha há dois anos. Depois de três ou quatro meses de turbulência, com ocupações de faculdades e reitorias, o movimento não alcançou seus objetivos, não conseguiu manter o rumo e, em seguida, as universidades retornaram à normalidade.

O Maio de 68 é outro exemplo de um boom e uma grande queda. Apesar de sua rápida ascensão, o movimento criativo e revolucionário da juventude nas universidades e o movimento operário, mais influenciado pela esquerda institucional e sindicatos moderados, não se uniram completamente. As propostas e as energias dos alunos não conseguiram fundir-se com os trabalhadores em greve. Após três semanas, a maior greve da história foi cancelada por grandes sindicatos e o movimento terminou em troca de pequenas concessões salariais. As propostas de transformação radical da sociedade foram frustradas.

É por isso que é importante pensar o movimento atual para além dos primeiros dias e estabelecer diretrizes que permitam fortalecer ao máximo o movimento e, ao mesmo tempo, conquistar algumas vitórias para mantê-lo. Isso significa falar de estratégia: o que podemos fazer para parar com os cortes sociais, que tipo de mobilização pode causar danos ao sistema, como passamos de um movimento de dezenas de milhares de pessoas para centenas de milhares ou milhões. Embora os acampamentos tenham ainda uma grande força de sua fase inicial, é preciso considerar essas questões para continuar quando essa força for reduzida.

Da praça à cidade

Os acampamentos são um grande espaço de organização, aprendizado, consciência e visualização de idéias. No entanto, ainda que se ocupe uma praça, falta o resto da cidade. Por esta razão, é importante evitar a tentação de pensar que partir de uma só praça podemos construir a sociedade que queremos. As praças não devem ser um fim em si mesmo, mas um foco para que a luta se estenda para além de seus limites. Em várias cidades, como Madri e Barcelona, já se deu um passo que pode ser chave: organizar assembleias e atividades nos bairros. Isso permite levar a mensagem do movimento a muito mais pessoas e que muito mais pessoas possam se envolver, com assembleias em que possam atuar e participar com mais facilidade.

A extensão geográfica ajuda a ter um apoio social para manter os acampamentos em pé. Ainda assim, é preciso que saibamos que as ocupações das praças, as concentrações e panelaços não têm força material para colocar pressão sobre os poderosos além de seu simbolismo e suas mensagens. É por isso que, além de manter o acampamento, devemos planejar como prejudicar os poderosos onde dói mais: na economia.

Das ruas aos locais de trabalho

Na economia encontramos um ponto fraco do sistema capitalista. A maioria das pessoas que estão acampadas nas praças e fazendo reuniões são trabalhadores. Os poderosos insistem que são os chefes que fazem as coisas funcionarem. Mas tudo o que existe e tem valor na sociedade de hoje é produto do trabalho. Se os trabalhadores e as trabalhadoras deixam de trabalhar, o sistema para. Precisamos, portanto, mover a energia dos acampamentos para os locais de trabalho, onde a classe trabalhadora produz tudo o que o sistema precisa para acumular vorazmente mais e mais lucros.

Se conseguirmos generalizar as assembleias das praças para assembleias nos locais de trabalho, se conseguirmos que as concentrações de rua virem greves, estaremos dando um grande passo. A enorme energia, coragem e criatividade demonstrada nos acampamentos precisa se unir com a grande força material que tem a classe trabalhadora e que já demonstrou, embora apenas pontualmente, na última greve geral em 29 de setembro.

A ideia da greve geral está começando a surgir em muitos acampamentos. Mas como chegamos a ela?

No momento, os acampamentos não têm ligações diretas com os locais de trabalho. Se conseguirmos estabelecer essas ligações teremos mais capacidade de organizar greves. Para fazer isso, devemos também buscar alianças com sindicatos combativos que existem para além das Comisiones Obreras (CCOO) e da Unión General de Trabajadores (UGT). Sindicatos como a Confederación General del Trabajo (CGT), o Sindicato Andaluz de Trabajadores (SAT) na Andaluzia, a Intersindical Alternativa de Catalunya (IAC) na Catalunha, a Euzko Langileen Alkartasunaren (ELA) e a Langile Abertzale Komiteak (LAB) no País Basco, que se opuseram ao pacto das aposentadorias e têm defendido uma linha de ação contra os cortes sociais e os efeitos da crise. Além disso, também é importante forjar alianças com todos os sindicalistas combativos, estejam em qual sindicato estiverem.

Esta necessidade de convergência entre os acampamentos e o movimento dos trabalhadores está mais adiantada na Catalunha, onde os agressivos cortes sociais do governo de direita da Convergència i Unió (CiU) levaram a fortes protestos dos trabalhadores da saúde já antes dos acampamentos. Nos últimos dias, várias marchas de trabalhadores e trabalhadoras (de hospitais, da telefonia e bombeiros) terminaram na Praça Catalunya ocupada. O acampamento já mostrou a sua solidariedade com o setor público em luta e se somando a suas convocatórias. São exemplos de lutas que devem se fortalecer e multiplicar-se.

O papel das organizações

Se as ligações com o sindicalismo combativo estão em debate, há outro tema quente nos acampamentos: o sentimento antipartido. É um sentimento saudável se levarmos em conta o papel desempenhado pelos partidos de esquerda nos últimos anos. Não somente o PSOE, que fez cortes sociais duríssimos durante seu governo. Partidos como a Izquierda Unida (IU) pouco têm feito para mobilizar na situação de crise em que vivemos. Temos como exemplo a coalizão entre a Iniciativa per Catalunya Verds e a Esquerra Unida i Alternativa (ICV-EUiA) na Catalunha, que fez parte do governo da Generalitat durante 8 anos, atuando como cúmplice das políticas neoliberais que foram impostas.

É importante evitar que os partidos que se dizem de esquerda e só querem ser parte do jogo institucional assimilem o movimento. Mas também devemos saber que há organizações políticas de um tipo completamente diferente. Existem organizações anticapitalistas, que não têm nenhuma intenção de começar as mudanças por meio das instituições e colocam todos os seus esforços para construir o movimento a partir da base. Organizações que estão participando de forma honesta no movimento atual, contribuindo com suas experiências e, ao mesmo tempo, aprendendo com o movimento. Este é o tipo de organização que os companheiros e companheiras do En Lucha fazem parte para alcançar uma mudança radical na sociedade. Negar o papel dessas organizações no movimento não ajuda a construí-lo.

O movimento atual apresenta muitos desafios que irão aumentar se continuar a crescer. Por isso é preciso avançar nas discussões estratégicas. Ao mesmo tempo, os ativistas anticapitalistas que querem uma transformação total da sociedade devem se organizar entre si. Construir um movimento amplo e radical é um passo necessário para superar os desafios e generalizar a revolta.
http://www.enlucha.org/site/?q=node/16057
Tradução: Manuel Amaral

FONTE: En Lucha

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