sábado, 7 de abril de 2012

O amor ao dinheiro, a Semana Santa e os Judas de ontem e de hoje

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Por Fernando Lobato_Historiador

"Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males" escreveu Paulo para seu discípulo Timóteo (1 Timóteo 6:10). Por amor ao dinheiro pessoas traem, roubam, assassinam, mentem, caluniam, vendem o corpo, traficam animais e seres humanos, silenciam diante do mal e por aí vai. Por trinta moedas de prata, Judas, através de um beijo traidor, entregou Jesus a seus inimigos do Sinédrio, ou seja, à casta sacerdotal corrupta chefiada por Caifás.

E ao citar o Sinédrio e Caifás nem preciso dizer que, também por amor ao dinheiro e ao poder dele derivado, líderes religiosos traem suas convicções para se adequar à lógica da corrupção existente em todas as épocas. E assim, Jesus, o descendente de Davi nascido para ser o Rei dos Judeus, recebeu uma coroa de espinhos para, em seguida, ser pregado numa cruz por ter, segundo a suprema corte da época, cometido o crime de blasfêmia contra o Deus que ele dizia encarnar em si mesmo.

Para grande parte dos cristãos, esse foi o desfecho que Deus programou para seu filho unigênito. Todavia, bem antes disso, quando Abraão levantou a mão para imolar Isaque, também unigênito, Deus disse-lhe que isto não era necessárrio porque o que importava, de fato, era testar e comprovar a fé daquele que escolhera para ser o pai de muitas nações (Gênesis 22:10-12). Se a cruz fosse o fim desejado e programado, nem Cristo teria sugerido ao Pai um destino diferente (Lucas 22:42) nem Paulo teria dito que a falta de sabedoria dos príncipes deste mundo foi a causa de sua crucificação (I Coríntios 2:8).

Mas ao escrever em plena Sexta-feira da Paixão, meu foco não é a promoção de um debate em torno do sentido da crucificação de Jesus, ainda que ache isto necessário em face da visão ingênua que o misticismo popular construiu ao longo dos séculos e que lideranças religiosas, por "n" motivos e interesses – muitos deles inconfessáveis- ajudaram a cristalizar na mentalidade cristã. Meu foco é destacar que, no presente, o amor ao dinheiro faz muito mais vítimas inocentes do que no passado.

Por amor extremo ao dinheiro, uma casta de mega-especuladores promove o sofrimento numa escala nunca antes vivida pela humanidade, responsável, entre outras coisas, pela existência de mais de um bilhão de famintos num mundo que se gaba do seu avanço tecnológico. Dois dias atrás, um idoso grego - desesperado por não ter como honrar suas dívidas e sem querer expiar o pecado de nínguém, mas tão somente mostrar o enorme pecado dos governantes de seu país,- pôs fim à própria vida diante do parlamento de Atenas.

Por amor extremo ao dinheiro e às posições adquiridas, a elite grega entregou a Grécia de bandeja nas mãos do consórcio de banqueiros que hoje dirige a Europa, tal como Herodes entregou a cabeça de João Batista para atender aos caprichos e exigências de Salomé. Por amor ao dinheiro, a casta de especuladores do Brasil da Era Dilma reagiu mal à iniciativa governamental de reduzir os juros do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal – ver matéria -. Mesmo quando a crise dá sinais de que chegou pra valer em terras tupiniquins, essa casta de Judas só pensa em termos de redução das margens de lucro que terão por conta da concorrência promovida pelos bancos públicos.

Diferentemente do Judas histórico, os "judas" do presente não sentem remorso do que fazem. É bem provável que achem que o Judas histórico foi trouxa por dois motivos: se vendeu por apenas 30 moedas e teve crise de consciência ao entregar Jesus – "pertubador" da ordem estabelecida. Se a morte de Jesus tivesse de fato expiado todos os nossos pecados, o mundo atual seria um mundo do bem. Em vida ele pregou que o Reino dos Céus estava – e ainda está - entre nós.

Por fim, já que escrevo numa Sexta-feira da Paixão, devo admtir que minha fé cristã não assimila a idéia de que o sacrifício de Jesus na cruz teve o poder de nos salvar de todos os pecados. Se assim fosse, não haveria nada mais para salvar e este mundo seria o mundo do bem. Penso que sua morte na cruz – e ele mesmo diz isso em João 3:14 – teve como fim transformá-lo num objeto de fé. E ao ser levantado na cruz, tal como Moísés levantou a serpente de bronze no deserto (Números 21:9), se tornou a prova viva e real de que a alma vive mesmo depois da morte do corpo.

Diante de Pôncio Pilatos, Jesus disse que seu reino não era deste mundo não porque fosse esse o desejo de Deus, mas sim porque fora entregue nas mãos de seus inimigos e não havia ninguém com disposição para defendê-lo naquele momento, pois todos, inclusive seus apóstolos, o haviam abandonado, ou seja, dado no pé quando o bicho pegou e a polícia chegou. Pedro, inclusive, o negou por três vezes numa mesma noite. Se tivermos fé que o Reino dos Céus pode ser aqui mesmo na Terra, ele o será. É isso o que está na oração do Pai Nosso, quando Cristo invoca a vinda do Reino de Deus e a realização de sua vontade tanto na Terra (aqui e agora) quanto no Céu (plano espiritual).

Penso que nosso maior pecado talvez seja esse: o de não crer que o mundo em que vivemos um dia possa ser o mundo de Deus, ou seja, de amor, justiça e paz para todos os seres humanos e em perfeita harmonia e respeito com aquilo que chamamos de mãe natureza. Apesar dos Judas de hoje e do futuro, creio que um dia chegaremos lá! Assim seja!

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